Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.

domingo, 18 de março de 2007

A "Contagem de Corpos" carioca. Uma manifestação e um manifesto.

Reproduzindo o início da matéria de Egeu Laus para o Overmundo:

Pessoal,
Estou vindo agora da Praça XV e quero escrever sem pensar muito:

Sei que um post sobre esse assunto não vai fazer muito sucesso aqui (como de resto em qualquer lugar). É compreensível. Qualquer sinal de violência ou atitude violenta perto de mim costumo me afastar rapidamente. Me sinto extremamente incomodado e acho que passar longe da violência preserva minha saúde mental.

Infelizmente não está dando mais pra fazer de conta que não é com a gente. À noite, aqui no quarto, e nas madrugadas, ouço as AR-15 do Morro Dona Marta (também chamado de Santa Marta) que fica aqui pertinho, embora do lado não ocupado. De dia, ouço os porteiros comentando algum tiroteio que alcançou as escadarias que dão acesso as subidas do morro. Mais que isso, amigos dos amigos são atingidos, como o Picucha do AfroSamba ou a Delphine da Terr'Ativa com a qual mantive contato por um bom tempo. Não preciso contar das últimas nos jornais. Todo mundo leu.

Não sei quais as saídas imediatas. Imagino que existam ações a curto, médio e longo prazo. Tento enxergar algum caminho no meu trabalho com a Rede Social da Música. Como a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança? Divido com vocês minha perplexidade.

Junto-me ao Egeu Laus e ao Tico Santa Cruz nesta perplexidade. O Rio de Janeiro é hoje, e cada vez mais, uma cidade de contrastes aberrantes. Toda a beleza e encanto desta cidade tão viva convive lado a lado, por vezes frente a frente, com a terrível desigualdade e o mortífero conflito social e econômico que já atingiu há muito tempo a dimensão de uma guerra. E é isso mesmo que acontece aqui no Rio de Janeiro -- uma guerra!

Conheço ainda muito pouco do que é esta cidade, mas posso dizer-lhes de minha própria experiência que o tipo de violência urbana que existe no Rio é diferente de tudo aquilo que conheço. Não é uma cidade de reles assaltantes esperando nos becos (não mais do que qualquer outra), nem uma cidade de batedores de carteiras ou crimes leves causados pela cobiça ou pela miséria. É, infelizmente, uma cidade que guarda -- sob os braços abertos da estátua redentora sobre a montanha -- várias cidades que estão em guerra entre si.

Há no Rio a cidadela murada dos ricos com seus carros blindados e seus seguranças particulares, que flana, ignora, atropela tudo mais em sua sanha para fechar os olhos frente ao cenário que os cerca. Há os constabulários dos justiceiros noturnos, policiais e outros 'profissionais de segurança' que saem à noite para combater 'o problema' a seus próprios modos parciais. Há os feudos das encostas dos morros, com seus senhores feudais populares que guerreiam entre si e contra as polícias -- a oficial e a mascarada -- e cooptam seus servis vassalos a participar de suas guerras financiadas pelos ópios populares ora proibidos. Há as fortalezas das milícias que se arvoram na vista grossa da lei para guerrear em seus próprios termos contra os senhores feudais do tráfico. Há os guetos e os moradores dos viadutos pedindo ou tomando o que podem, na tentativa de retomar para si um pouco do que estas sociedades os negaram. E há, no meio destas cidades em guerra, o povo que como eu e você sai na rua em busca da beleza ou a caminho do trabalho mas não sabe ao certo quando vai se ver na linha de tiro dos tantos militantes desta guerra.



E enquanto a situação apenas se agrava, sem uma atitude coerente vinda de NENHUM dos lados, continuamos apenas contando os corpos, varrendo-os para a sarjeta e para debaixo do tapete ao amanhecer, para continuar acreditando que vivemos numa cidade que é simplesmente a "Cidade Maravilhosa".

O Rio é muito mais do que a cidade maravilhosa que os cartões postais vendem. É muito mais também do que uma cidade em guerra. É mais do que um dos maiores centros urbanos e econômicos do sudeste brasileiro, e muito mais do que apenas uma grande cidade. É mais do que o Rio dos poetas ou dos boêmios, e é mais do que uma das grandes capitais do turismo leigo ou sexual do Brasil. É tudo isso e muito mais, e toda esta beleza e diversidade merece ser salva de suas próprias mazelas. Toda a vida que existe aqui merece ser protegida e exaltada, e não destruída pelos muitos lados deste conflito de idéias e armas. Mas o que fazer? O que pode ser feito? Até quando se vai tentar as mesmas velhas soluções militantes ou paliativas? Até quando vamos apenas contar os corpos e enterrá-los, fingindo não fingir que são apenas mais algumas vítimas da guerra que ninguém quer admitir?

Até quando...?


Voltando à matéria do Egeu, segue o manifesto lido por Tico Santa Cruz na referida manifestação:
"Os Deputados, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes, desfrutam de muitos privilégios PAGOS com o dinheiro do povo.

E nós contamos os corpos...

Seus filhos estudam em colégios particulares e muitos de seus parentes quando precisam são atendidos erm excelentes hospitais que não pertencem a rede pública. ANDAM EM CARROS BLINDADOS e moram em locais da cidade protegidos por seguranças particulares.

E nós contamos os corpos...

55% dos deputados estaduais residentes nesta Assembléia Legislativa estão respondendo a processos cível, criminal ou eleitoral, enquanto você sequer pode prestar concurso público se estiver envolvido em algum processo judicial.

E nós contamos os corpos...

Os políticos brasileiros são processados por fraudes, corrupção, desvio de verbas ou qualquer crime cometido ao longo de seu mandato TEM DIREITO A JULGAMENTO EM FORO PRIVILEGIADO.

Até o momento nenhum político envolvido nos crimes e nos escândalos de corrupção que acompanhamos pelos jornais e TVs foram parar atrás das grades. Isso chama-se IMPUNIDADE.

E nós contamos os corpos...

Verbas que deveriam ser destinadas a Rede Pública de Ensino, aos Hospitais, a Segurança de nossas Comunidades são desviadas por muitos destes cidadãos que deveriam nos defender e nos representar.

E nós contamos os corpos...

O Supremo Tribunal Federal retomou dia primeiro de março o julgamento de recurso destinado a garantir o foro privilegiado a "agentes políticos" processados por improbidade administrativa, mesmo que já tenham deixado o cargo. Dos 11 ministros do STF seis já votaram a favor dos político e um contra. Restam votar 4 ministros.

A medida, se aprovada, impedirá que ministros de Estado e o presidente da república sejam fiscalizados por procuradores na primeira instância da Justiça, como ocorre hoje. Além de paralisar os processos em andamento a decisão do STF permitirá que administradores já condenados possam pedir a RESTITUIÇÃO de valores que foram obrigados a devolver aos cofres públicos.

Cerca de 10 mil inquéritos e ações judiciais contra autoridades acusadas de corrupção podem ser arquivadas.
Os defensores do foro privilegiado querem que presidentes, ministros, governadores e prefeitos envolvidos em corrupção não sejam mais atingidos pela lei. O Código Penal Brasileiro é de 1940.

E nós contamos os corpos...

Um soldado da polícía militar ganha 800 reais por mês.
Um professor ganha em média 400 reais por mês.
Um médico do SUS ganha em média 1.500 reais.
O Estado gasta em média com nossas crianças 300 reais por mês.
Um preso custa aos cofres públicos em média 800 reais por mês e todos nós sabemos que o Estado não oferece nas penitenciárias NENHUMA CONDIÇÃO DE REABILITAÇÃO dos apenados, cabendo a sociedade arcar com todos estes custos e mais os salários dos nossos políticos que passam de QUINZE MIL REAIS mensais.

E nós contamos os corpos...

O Rio de Janeiro está em guerra enquanto nossos representantes não fazem nada

E nós contamos os corpos...

Fim da impunidade.
Fim da imunidade parlamentar.
Fim do voto secreto no Congresso Nacional.
Queremos segurança, educação e saúde de qualidade pois
pagamos por isso.

SEM JUSTIÇA NÃO HÁ PAZ.

Deputados assumam suas responsabilidades pois elas são do mesmo tamanho de seus privilégios.

Enquanto nós contamos os corpos.

Ass) Voluntários da Pátria"





Se tudo que podemos fazer neste momento é discutir o problema e tentar enxergar novas dimensões dele, buscar novas propostas para sua solução neste momento em que o caminho parece escuro e sem desvios... então é isso que temos que fazer.

Não há dúvida, contudo, que esta não é uma Guerra que vá se vencer com mais e mais armas ou mais e mais violência. Esta é uma guerra que só vai terminar quando atacarmos as raízes de toda esta belicosidade, que vem do ódio de classes e da inviabilidade e do absurdo cotidiano a que são submetidos os moradores de algumas das tantas cidades que fazem parte desta grande e maravilhosa cidade.

Esta é uma guerra que só acaba quando encontramos um meio para que se queira a paz, em todos os lados destas trincheiras. É uma guerra que só acaba quando se aprender a não odiar e a apresentar soluções que agradem suficientemente a todos os lados. É uma guerra que termina com justiça, mas não com a justiça que pune apenas um dos lados que está a combater, visando satisfazer o outro. É uma guerra que termina quando todos tiverem condições de viver, de crescer, de trabalhar, de produzir e de se divertir em paz... como é justo para todos os homens e mulheres de uma sociedade civilizada. Como é justo para todo morador desta Cidade Maravilhosa que aprendi a amar.



Enquanto não chegarmos a este ponto de capacidade de resolver problemas como uma só sociedade, vamos continuar sendo apenas parte de um dos lados da guerra...
e vamos continuar apenas contando os corpos.

7 comentários:

Anônimo disse...

Amigo Daniel, como falei, nossa ansiedade fica exigindo soluções rápidas. Tenho a impressão de que elas não existem. Acho que cada um deve fazer o seu pouquinho na área onde atua. Nós trabalhamos com arte e cultura. Então é através da arte e da cultura que iremos contribuir. Na manifestação senti como podem ser fortes as palavras e os gestos. Portanto a poesia e o teatro são ferramentas que podem e devem ser utilizadas. Os artistas são cidadãos e portanto não poderão se furtar a uma tomada de posição.
Não se trata no entanto de colocar a arte "a serviço" da política, pois ela acaba sempre sendo inferior aos próprios objetivos para os quais trabalharia. Nesse momento me parece que trata-se de "através" da arte e dos artistas abrir espaço nos meios de comunicação em primeiro lugar e concientizar a população ao mesmo tempo. No entanto como disse Michel Melamed nem sempre estar informado é estar conscientizado. Como agir? Por outro lado somente imprensa e população não bastam. A midia se esgota em si mesma e a população precisa de mais tempo. Tico Santa Cruz aponta um do caminhos: os poderes Legislativo e Executivo tem que ser questionados! Mas o que fazer agora? Acho que neste momento é unir as pontas, unir os movimentos, unir as pessoas, articular as ações. Um grande abraço do Egeu.

Daniel Duende disse...

Meu querido Egeu! Concordo contigo, cara. Trata-se de um questionamento das instituições que, até este momento, geriram bem ou mal a questão... com os resultados observados. Levar esta "cobrança" a outras esferas, além da mídia (tradicional ou alternativa, que por fim podem acabar ecoando só em si mesmas) e da classe artística (que, salvo raras e lamentáveis excessões, já é bem consciente). Há de se alcançar as outras classes, pelos meios que forem cabíveis, e se articular movimentos, se unir perplexidades, se somar propostas e vozes... organizar o futebol e partir para o ataque. Não mais um ataque violento, como os tantos que acontecem diariamente por aqui. Mas um ataque de idéias, de cobranças, dirigidos aos segmentos que tem a bola no pé para mudar alguma coisa.

São necessárias mais manifestações como estas -- mas é necessário ir além disso. Todos os meios possíveis de organização popular e de pressão sobre legisladores e administradores precisa ser usado. Muita coisa precisa ser feita...

E eu continuo perplexo e sem grandes respostas, mas só posso concordar que a união faz a força, agora e sempre.

É hora de dar as mãos, juntar idéias e se buscar soluções diferentes, além de insistir com mais vontade naquelas que já foram tentadas e tiveram ALGUM sucesso...


Abraços apertados do Verde.

Egeu Laus disse...

Daniel,
Preste atenção neste ambiente "juvenil" e seu circulo vicioso:
pobreza extrema - alcoolismo - violência doméstica - abandono do lar pelo pai - sedução do tráfico - problemas na escola.

A escola NÃO ESTÁ PREPARADA para resolver problemas pessoais dos alunos. O que faz: chama os pais! No caso a mãe pois o pai já não existe mais. Resultado: nada! A mãe pede que a escola lhe ajude e a escola pede o mesmo da mãe. Nenhum dos dois tem condições para isso!

Me parece que nesse momento podem ser úteis as atividades chamadas de extra-classe: arte e cultura. Elas podem, quem sabe, fortalecer relações saudáveis, melhorar a auto-estima, oferecer outras opções de vida.

Abraço do Egeu

Daniel Duende disse...

Mais uma vez, concordo plenamente com você, meu amigo Egeu.

Atividades extra curriculares, assim como a ação de grupos artísticos sociais que ofereçam espaços saudáveis de encontro e produção, assim como as já citadas atividades, me parecem ser soluções iniciais bem razoáveis.

Mas esta violência tem raízes profundas, e penso (e costumo dizer) que não apenas as classes mais baixas precisam de uma educação melhor, mas também as classes mais altas. Some-se a este panorama que você descreveu o olhar de pena ou desprezo que estes jovens recebem quando andam fora de suas comunidades, em meio ao "asfalto" da cidade...

Você já notou a maneira como nós, os "moradores urbanos" olhamos, em boa parte das vezes, para estes jovens? Com medo, ou estranheza, ou simplesmente desviamos o olhar. Isso é outro elemento que não pode ser esquecido.

O que falo no texto é que não agimos como uma sociedade, mas sim como vários fragmentos de sociedade tentando ter um diálogo razoável em meio ao tiroteio que parte de ambos os lados.

Se é uma guerra, é porque há dois lados. Se há um nós para temê-los, e um eles para ser temido (e para nos temer também, pois parte desta agressão vem do medo da agressão), então há dois lados. A existência de dois ou mais lados distintos é condição "sine que non" para que haja o conflito.

Entende o que estou falando? O problema é mais sério, e atinge a todos. Não são apenas "eles" que precisam de uma educação melhor... mas todos nós.


Abraços do Verde.

Spirito Santo disse...

Egeu, Verde e demais meninos,

É preciso navegar bem dentro deste mar. Continuem navegando. Faço aqui (já que aqui posso) um relato bem sincero: Em 1953,54, eu fui um desses meninos dos quais a gente anda falando por aqui. O sistema se chamava 'SAM'(Serviço de Assistência aos menores, algo assim). Lá eu não era um 'menor infrator' mas, um pouco como hoje, não se separava meninos pelo nível da infração mas, pela cor mesmo (a pobreza era o eufemismo mais usado)
Filho mais velho, fiquei órfão de pai muito cedo. Meu pai,um herói da segunda guerra mundial, morreu em 1951, alucinado pelas lembranças das bombas e das mortes. Minha mãe, com quatro filhos optou por esta saída para mim: 'O colégio interno do SAM'. Fiquei por lá dos 5 aos 13 anos de idade. Parei por ali e não consegui jamais deixar de ser aquele menino (estou sendo ele agora mesmo). Uma das lembranças mais ambíguas que tenho na vida foi cantar músicas do Villa Lobos perfilado com os outros meninos em formatura militar, como prisioneiros que éramos,ameaçados por um inspetor com uma vara preparada para espancar aquele que se movesse na fila. Aquelas músicas são até hoje parte da trilha sonora da minha vida. A formatura militar, um trauma. Haviam as fugas, as epidemias de sarna, as fugas, as pequenas rebeliões. Mudou quase nada.
Digo isto para completar com o seguinte. Estive esta semana na 'Escola' João Luiz Alves, do Degase, insidioso órgão dedicado a aprisionar estes meninos. Já dei aulas naquele lugar tenebroso (num certo dia, o Diretor entrou na sala onde eu estava e perguntou aos 'alunos' se eles haviam visto um menino de 8 anos que havia sido introduzido no sistema sem que a direção soubesse). Netsa semana fui convidado a lecionar lá de novo. E vou. Idéia estúpida esta minha de ficar entrando no inferno.

Nos próximos 15 dias pretendo voltar com um plano mais estúpido ainda: Vou entrar lá com um velho e rebelde músico alemão, um músico africano (de Bissau) e com eles vamos fazer um imprevisível espetáculo de música exclusivamente para os meninos. A idéia é filmar tudo. Se a direção der mesmo este 'mole', como sinalizou que vai dar, teremos material para trabalhar melhor o assunto (aqui e na Alemanha)
Então fica aqui, como sugestão, o seguinte:
Além de navegar no assunto, talvez seja necessário também mergulhar no inferno, sentir o drama.
Uma coisa é certa: Esta é uma tarefa para os que não deixaram nunca de ser meninos. Os meninos (bem sei eu) salvam-se a si mesmos.

Abraço grande do

Spirito Santo

Egeu Laus disse...

Spirito Santo,
Quando você for a Escola João Luiz Alves, me chama que eu quero ir junto...
Abraço do Egeu

Daniel Duende disse...

Muito bacana MESMO poder ler o seu testemunho, Spirito Santo. Não apenas este confere um peso e responsabilidade muito maior às suas já muito razoáveis palavras, como também apresenta uma realidade que é justamente aquela sobre a qual ora discutimos.

Faço votos sinceros que sua luta no "inferno" seja a mais bem sucedida, e que outros tantos garotos possam se mirar em seu exemplo tão firme e correto.

Abraços apertados do Verde.