Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Santa Sé ataca novamente...

Outra recebida por email:


Acordo Brasil e Santa Sé já está na Câmara dos Deputados

Advogados, juristas, profissionais da área de saúde e representantes de movimentos sociais de todo o país estão preocupados com o encaminhamento silencioso dado pelo Governo Federal em relação ao Acordo Brasil e Santa Sé, assinado em novembro de 2008. Apesar de não ter sido discutido amplamente com a sociedade, o documento já está tramitando na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados para ser votado como uma Mensagem nº 134/2009. Após seguirá para ser apreciada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania e ao Plenário da Casa. O conteúdo do documento trata basicamente dos interesses econômicos e outros privilégios da Igreja Católica no Brasil, tais como: isenção de impostos para rendas, propriedades e atividades das entidades católicas (quase 1.500 escolas, hospitais, etc.); o ensino religioso católico nas escolas públicas; a reserva de terrenos para a construção de Igrejas; a não existência de vínculos trabalhistas de religiosos com suas ordens, dentre outros.

Os grupos religiosos que defendem o acordo estão se mobilizando para que o mesmo seja votado sem alarde e sem debates dentro do Congresso Nacional. Em sentido oposto, os movimentos de mulheres e outros setores da sociedade civil defendem a realização de audiências públicas para discutir o conteúdo do Acordo, sob pena de inviabilizar o debate democrático pela ausência de informações e restrição à participação de estudiosos sobre o tema e setores interessados neste assunto.

“O conteúdo do Acordo denuncia o desejo da instituição Católica de manter privilégios em detrimento das outras religiões e da população, desrespeitando a laicidade do Estado brasileiro. Além disso, este documento demonstra as ambigüidades de uma religião que na sua Doutrina Social prega a igualdade e a inclusão e, por outro lado, tenta aprovar, como lei nacional, um Acordo para eternizar privilégios num país de tantas desigualdades e concentração de renda, onde os programas sociais são as únicas possibilidades de sobrevivência para muitas famílias”, afirma Dulcelina Xavier, socióloga das Católicas pelo Direito de Decidir.


Para ler a Mensagem nº 134/2009 na integra: http://www.cfemea.org.br/pdf/ms134_2009_concordata.pdf

Para mais informações contatar:
Assessoria de imprensa conjunta
Evanize Sydow – (21) 7699.3665
Nataly Queiroz – (81) 9408.8095


Por que será que eu não estou surpreso? :)

Salvem o Cine Brasília

Recebido por email:

Amigos,

Você que se interessa e luta para que os nichos de cultura , em
Brasília, não sejam destruidos, não deixe de comparecer , no dia 6 de
junho, no hall do Cine Brasília. Reuniremos, em um grande movimento,
para mostrar que estamos atentos às tentativas do governo em abandonar
o cinema, mostrar sua inutilidade e, quem sabe, utilizar o belo espaço
para outros fins.
Diante dos fatos, convocamos você para que adote nossa causa,
chame os amigos, seu grupo, jogue na net, faça camisetas, cartazes.
Use e abuse da sua criatividade e venha juntar-se a nós. Convoque
seus contatos na imprensa e bote a boca no mundo. Grite o seu direito
à cultura. Vá lá!
Estaremos acampados, a partir das 17 horas, no local.
Anote isso na sua agenda, no seu calendário. Não perca este movimento
O Cine Brasília é um tradicional cinema brasiliense, localizado alí nas margens do Eixinho W, na altura da 7-8 sul. É o último cinema de rua (isto é, o último cinema fora de um shopping center) em Brasília. Para aqueles que acham que vale a pena lutar por um tradicional cinema, vale a dica.

back home again

Fazia tanto tempo que não vinha por aqui, que nem havia visto ainda a nova interface do dashboard do blogger. Impressionante como o tempo passa e as coisas acontecem quando não estamos olhando, não é?

Bem, o que importa é que estou de volta.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ian Tomlinson, 49, mais uma vítima da polícia... inglesa.

Iam Tomlinson não era protestante contra a reunião do G20. Era apenas um vendedor de jornais de 49 anos voltando para casa após o trabalho que teve o azar de se defrontar com o absurdo cerco policial realizado para conter a manifestação contra o G20. Ao ver os policiais, caminhou para a direção indicada pelos mesmos, calmamente e com as mãos no bolso. Isso não impediu que a polícia batesse nele e o jogasse no chão. Minutos depois, Ian estava morto.

Fico impressionado como ainda há pessoas que se prestam a acreditar que o "primeiro mundo" é um lugar mais civilizado do que a América Latina. Se aqui estas coisas também acontecem, ao menos não estamos fingindo que somos melhores do que ninguém. Temos todos muito a aprender. Mas enquanto isso, lá no norte, eles tentam manter as aparências enquanto a sociedade se retorce debaixo das bandeiras coloridas do nacionalismo europeu. E eles tentam manter as aparências de superioridade e paz européia, custe as vidas que custarem...

Veja o vídeo:



Qualquer semelhança com qualquer país para o qual torcemos o nariz, inclusive o nosso, não é mera coincidência. O nosso mundo está mesmo deste jeito. Só não vê quem não quer.

terça-feira, 31 de março de 2009

Mais um incêndio criminoso na guerra do Setor Noroeste em Brasília

Há alguns minutos recebi este email, forwardeado da lista [antro_unb].

Pessoal,

Mais um atentado criminosa na Terra Indígena Bananal Brasília DF, hoje
ataearam fogo na casa de um indígena Fulni-ô, destruindo toda a sua casa,
artesanato, documentos e toda uma memória.Foi avistado viaturas da polícia
próximo ao local, mas ainda não sabemos quem foi o responsável pelo
fogo.Ano passado foi destruida outra casa de um indígena, parece que não
há limites para os empresários e o GDF , Brasília é uma terra sem lei.
Maisa tarde envio as fotos,
por favor denunciem
O silêncio só ajuda a perpetuar a opressão!
Abs
Rafa Kaaos

http://www.youtube. com/watch? v=otwyWodhccI&feature=channel_ page


O link no final do email aponta para o vídeo abaixo:



Se já era absurda a punição branda dada a alguns garotos cretinos de classe média-alta que queimaram um índio por diversão, o que dizer de capangas de grupos poderosos de Brasília queimando casas de indígenas resistentes, amando dos empreiteiros locais que desejam levar em frente seu projeto milionário do Setor Noroeste? Quando me refiro à situação Bananal/Setor Noroeste como guerra, não quero apenas usar uma palavra de efeito. Trata-se mesmo de um conflito onde (ao menos um dos lados) não tem limites em sua sanha de vencer -- tudo em nome do dinheiro, sob o manto da costumeira impunidade desfrutada pelos empreiteiros brasilientes e seus asseclas.

Só nos resta divulgar, e esperar que nossa polícia mostre seriedade na apuração dos fatos, e em seguida que nosso judiciário nos supreenda ao não dar cobertura aos seus "amigos de costume". Se a maior parte de nós aqui em Brasília já costuma ser pessimista a respeito da condenação de qualquer membro da corja que se abate sobre nós, isto não é sem motivo. Se mal conseguimos prender e condenar adolescentes malcriados que incendeiam um índio, o que esperar de nossa justiça quando os criminosos são as próprias iminências pardas de nossa cidade? Da mesma forma que se pode comprar votos, roubar os cofres públicos e jogar na lama o nome de todas as instituições nacionais, aqui também se pode matar e destruir propriedade impunemente, contanto que você tenha os amigos certos.

Bem vindos ao faroeste caboclo. Aqui nós queimamos índios, e a lei ainda pertence aos criminosos de sempre.

terça-feira, 24 de março de 2009

sobre o silêncio...

(...) Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma. (...)

(...) Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.

É preciso também que haja silêncio dentro da alma. (...)


(atribuído a Alberto Caeiro, que era pessoa e também Fernando Pessoa)

"Are Bloggers Born or Made?"

Este é um texto fantástico do David Sasaki, do igualmente fantástico projeto Rising Voices do Global Voices Online, sobre a importância de se ensinar as pessoas a blogarem, mesmo quando a maior parte delas nunca vá se tornar efetivamente um blogueiro frequente. Trata-se de um problema de expectativas -- de que todas as sementes lançadas irão florescer, e de que o farão na hora em que esperamos -- e não da verdadeira importância e eficiência em se distribuir a boa nova blogueira para todas as pessoas...

Queria muito ter tempo de traduzir o texto, mas não vai rolar. Colo então o texto em inglês mesmo, do jeito que o recebí na lista de discussão do Rising Voices. Se alguém o citar e/ou o traduzir, não esqueça de citar o autor, David Sasaki (que é um cara muito legal!) e o Rising Voices e, se possível, citar também que achou o texto aqui no Alriada...

"Dear All,

I frequently hear from coordinators of citizen media outreach projects who are disappointed by the fact that so many of their participants stop blogging two or three months after their first post. This is a common problem, but in my opinion, it is a problem of expectations rather than results.

Most of us have spent at least a few hours of our lives learning how to play the piano, guitar, or some other instrument. But only a select few have continued playing that instrument throughout our adult lives. In fact, most of us probably stopped playing just a couple months after our first lesson. This doesn't mean, however, that piano teachers should feel demoralized by their supposed "low success rate". After all, we are only able to find the best musicians by teaching the fundamentals to as many people as possible. Imagine how many Mozart's, Fela Kuti's, and Gilberto Gil's have passed silently through history because they were never given the opportunity to express their musical talent.

Blogging is much the same way. Just as everyone can press the keys of a piano, so too can we all start and maintain a blog. But that doesn't mean that everyone will keep at it. In my experience, only about 10% of the participants of the blogging workshops I have facilitated continue blogging six months later.

Important Tools for Important Times

The other 90% of workshop participants will write only occasionally, or not at all. But, significantly, most do still remember how to publish to a blog even months or years later. This is significant because during times of emergency they have the means to share information.

For example, many of the participants of workshops organized by Foko Madagascar stopped blogging for weeks after they first opened their blogs. But when a political crisis hit their country, which led to last week's coup, many of those same new bloggers realized the importance of being able to share local information to an international audience in real time. In fact, those same individuals became the go-to sources of information for everyone wanting to stay informed about Madagascar's political crisis. Lova Rakotomalala, one of Foko's four founders, has explained in detail how Madagascar's bloggers and Twitter users were able to influence international coverage of the crisis.

What This Means for Project Facilitators

Above all else, it is important to set realistic expectations and to feel satisfied if only a few of the workshop participants become passionate bloggers. Heather Ford, a well known South African blogger, recently gave a workshop in Durban, South Africa, which left her feeling frustrated. Heather suggests charging a small fee for workshops to ensure that participants really have a strong desire to learn and apply the skills. Those who lack the money could write a letter requesting a scholarship.

Some psychologists have even suggested that there are certain personality traits common to most bloggers. As a project coordinator you could specifically seek out individuals who share those personality traits.

In my experience, however, it is impossible to accurately predict who will keep blogging and who will not. Blogging, like playing a musical instrument or learning how to draw, is a worthy skill to learn as a simple means of expression. Besides, you never know who will be the next Ravi Shankar, Michaelangelo, or the next great blogger until (s)he has a chance to learn the skills and tools.

New Rising Voices Projects - Stay Tuned

Over the next few weeks we'll be getting to know each of the newest six Rising Voices grantee projects. For those of you who just can't wait, please check out Maryna Reshetnyak's feature on Public Fund Mental Health based in Almaty, Kazakhstan and an introductory video about Project Ceasefire Liberia. Also, keep your eyes on the Rising Voices website for updates from all 20 projects, links to relevant resources and grants, and new pictures and videos.

All the best,

David"

Para saber mais sobre o Rising Voices, clique aqui.

Abraços do Verde.


UPDATE:

A Lu Ladybug teve a doçura de traduzir o texto quase na íntegra e publicá-lo em seu blogue! Valeu mesmo, Lu! Para os que não pegaram o texto em inglês, clique aqui para lê-lo em português no Ladybug Brasil. A dica foi do próprio David Sasaki, por email.

A dor e a delícia de ter voz

Essa história do "mensalinho blogueiro" que atingiu o Noblat, além de outras histórias recentes e antigas, me fizeram pensar no quanto estar "no palanque" também é estar "na berlinda", e o quanto isso é saudável. Quando uma pessoa, seja blogueiro, jornalista, político, ou o que for, dá um passo a frente e chama a atenção das outras -- para falar, para se colocar, para propor ou mesmo para realizar -- esta atenção não o acompanha apenas no momento em que ele chama os holofotes. Quando alguém se investe de poder -- seja só o de comunicação, ou o poder de mando -- todas as atenções estarão voltadas para ele, e cada um de seus passos será vigiado, e cada uma de suas atitudes questionada, seja por boas intenções ou pelos desígnios de seus adversários políticos. Se por um lado, geralmente o lado de quem está no topo, isso pode parecer terrível -- até mesmo a expressão da inveja, da baixeza e da irresponsabilidade de quem questiona e reclama -- por outro, é justamente esta atenção um dos mecanismos que equilibra a balança.

Sem me extender muito, pois consegui expressar essas idéias em uns 280 caracteres há uns minutos atrás, acho que isso se aplica perfeitamente ao caso do Noblat. Sem dizer que ele tenha ou não cometido algum ilícito, ou que esteja mesmo "na lista de pagamento" do Senado por quaisquer "serviços" que sejam, é justo que as atenções se voltem para ele para interpelá-lo: "-- Peraí, Noblat? Que história é essa!?"

Estas interpelações é que ajudam a figura pública a manter o cuidado e a atenta retidão desejada, e a dão a chance de se explicar, e mostrar que ainda são dignas da confiança e do poder que detém. Se estes mesmos questionamentos mancham "irreversivelmente" a reputação de alguém -- algo que não acontece em um país de memória tão curta que elege Collores e Malufs -- isto certamente se dá por conta da inaptidão ou impossibilidade da pessoa em explicar seus atos E... e não vamos esquecer deste E... porque ninguém é perfeito, e as reputações completamente ilibadas são geralmente construídas em cima de mentiras.

Então, das duas uma: se por um lado, vários grupos seguem cada vez mais esconder seus atos e os atos dos seus, em nome do bom nome e da "paz e ordem", outros se ocupam incasávelmente de atirar para todos os lados, encontrando cada falha de quem quer que seja e jogando a merda nos ventiladores das mídias -- sim, das mídias, porque o que aquilo que os jornais calam, os blogues falam. Nenhum dos dois lados os faz sem suas razões, e todos fazem lá seus estragos e mal feitos em suas atividades. Mas se eu tiver que escolher um dos dois lados, que seja o de trazer a tona o que fede e o que é feio, para que todos tenham a chance de se xplicar e de mostrar a verdadeira beleza que tem, se tiverem alguma.

Porque ninguém é perfeito, e ainda não aprendemos a viver sem governantes, ídolos e chefes, temos que entender que estes mesmos sempre serão imperfeitos como nós, e que se alguém deve ir à frente para puxar o grupo, que sejam aquelas pessoas que apesar de seus defeitos, vícios e paixões, sejam ainda as melhores a ocupar suas posições.

Há tantas pessoas que podem apontar tantos de meus defeitos, e já cometi tantos erros. Se ainda acredita em algo do que fala, escuta o que digo, e me respeita. É porque é possível se respeitar alguém apesar de sua imperfeição. Isso deve se aplicar a todos. Então... que venha a tona aquilo que é, e cada um mostre do que realmente é feito e do que realmente é capaz. E vamos em frente, tentando encontrar os caminhos e as pessoas em quem confiar.

Em tempo... Noblat deu a sua versão para os fatos, e alguns acreditaram, outros não, e outros ainda levantaram novas indagações. Segue o bonde, e quem quiser, que acompanhe. Dessa história já tirei que tudo corre como deveria. Vamos apontar o dedo sim, mas sem esquecer de pensar também em quem somos e no que estamos fazendo, sim?

#prontofalei.

Agora posso voltar ao meu trabalho.

O Programa que o Gilmar Mendes não gostou de ver (via Amálgama)

O excelente blogue Amálgama (o qual descobri por conta do Global Voices em Português, e que agora sigo fielmente por conta da qualidade do que escrevem por lá) soltou hoje um post sobre o programa Comitê de Imprensa, da TV Câmara, do dia 11 de março. Naquela edição do programa Jailton de Carvalho (d'O Globo) e Leandro Fortes (da CartaCapital) debateram sobre a "reportagem" (as aspas são do Amálgama E minhas) da VEJA a respeito do material encontrado no notebook de Protógenes Queiroz (que aparentemente tem um blogue, aqui). O próprio Amálgama conta um pouco mais sobre esta edição do programa:

"No dia 18, caiu o link para o programa no site da TV Câmara, que também deixou de veicular as reprises. Conforme o próprio Leandro veio apurar, a retirada do programa foi uma solicitação do presidente do STF, Gilmar Mendes, ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que, partidário da independência entre os poderes da República, atendeu. Mendes, lembre bem, é aquele que critica o “Estado policial” em que estaríamos vivendo sob a Polícia Federal do governo Lula."
E o post traz também a primeira parte do vídeo do programa, publicado pelo Luiz Carlos Azenha no YouTube após sua retirada do site da TV Câmara:



O vídeo tem mais duas partes, aqui e aqui, que achei por bem (e no mínimo bem mais prático) colar aqui também.





Por conta da correria do trabalho, ainda não tive tempo de assistir os três vídeos inteiros. Possivelmente eu volte aqui depois para fazer mais comentários. Por hora, estão aí os vídeos para que cada um assista e tire suas conclusões. Comentários são bem vindos. Blogueiros podem se sentir meio solitários quando ninguém comenta nada, sabe?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Noblat e o Mensalinho Blogueiro

A história ainda tá começando a ser esmiuçada, mas segundo o Zé Augusto do blogue Os Amigos do Presidente Lula (ok, nome suspeito!), o famoso blogueiro e jornalista Ricardo Noblat estaria recebendo uns 40mil reais por ano do Senado, por motivos não muito bem explicados, e com o envolvimento do Senador Efraim Moraes (DEM/PB):

O Jornalista Ricardo Noblat recebe um mensalinho do Senado Federal.

O contrato foi assinado em 03/09/2008, época em que o Sen. Efraim Moraes (DEM/PB) ocupava a secretaria da mesa do Senado, responsável por estes contratos.

Nós, cidadãos brasileiros, estamos pagando através dos cofres públicos do Senado o valor de R$ 40.320,00 (por ano) para Ricardo Noblat.


O mensalinho é descrito como uma "pesquisa, produção e apresentação de 1 (um) programa semanal para a Rádio Senado"

Bem que tentaram esconder o sobrenome famoso, publicando apenas "RICARDO JOSÉ DELGADO", mas o CPF denuncia tratar-se do jornalista.



O próprio blog do jornalista confirma seu nome completo:



A dica veio de nosso amigo leitor Fabio Mello.


É claro que a notícia caiu como um rinoceronte na blogosfera. A idéia de que um blogueiro político importante esteja recebendo dinheiro "não muito bem explicado" do Senado, ainda mais advindo de um contrato com um Senador do DEM, sempre tem contornos de rinoceronte cadente. Até que se fique provado que focinho de porco não é tomada, muita água vai rolar.

Vamos ver as repercussões, as defesas de um lado e os ataques do outro, as egotrips e as conclusões acertadas (e as apressadas) da blogosfera brasileira. Está armado o circo da semana.

Não acho nada supreendente que o velho poder tenha tido a idéia de comprar blogueiros. Eles sempre acham que podem, e geralmente podem, comprar tudo e todos. Só fica feio pro Noblat, que aparentava ter uma reputação a zelar e agora terá muito a explicar.

Explica aí, Noblat.


UPDATE 23/03/2009 - 12:44PM:

E o Noblat se explica (aqui, ecoado pelo PH Amorim):

"Ricardo Noblat

Em resposta a um dos leitores deste blog: Completou 10 anos no último dia 19 o programa semanal Jazz & Tal que faço para a Senado FM. Durante 113 meses, entre março de 1999 e agosto de 2008, paguei do meu bolso todos os custos do programa. Foram 493 programas ao custo mensal de R$ 1.200,00. Devo ser o único brasileiro que até hoje doou dinheiro ao Senado - 135.600,00 (113 meses x R$ 1.200,00). Fi-lo porque qui-lo. Na época, era medíocre a qualidade de produção da rádio Senado. Procurei uma produtora em Brasília - a Linha Direta. Ela cuida do programa. Gosto das coisas bem feitas e topo pagar por elas. Paguei pelo capricho de ter um programa de jazz. Pude pagar e paguei. Em setembro último, sugeri à direção do Senado que a rádio arcasse com os custos do programa pagando diretamente à produtora. Do contrário suspenderia o programa. Disseram-me que não era possível. Que seria possível me pagar como pessoa física para que então eu pagasse à produtora. Firmaram então um contrato comigo no valor mensal de R$ 3.360,00. Descontados pela própria rádio os impostos (R$ 560,00 de INSS e mais R$ 560,00 de IR), e abatido o que eu pago à produtora (R$ 1.750,00), restam-me por mês a fortuna de R$ 490,00. Preciso de mais 23 anos a R$ 490,00 por mês para recuperar os R$ 135.600,00 que gastei do meu bolso durante 9 anos e meio. Não viverei tanto tempo. E não imagino fazer o programa por mais 23 anos. Em tempo: assinei o contrato com meu nome completo - Ricardo José Delgado Noblat. Se o Senado publicou o contrato no seu site omitindo o Noblat, o problema é dele. Nada tenha a ver com isso. Noblat

De Chuíça (*): na CBN, Secretário de Serra não caiu por causa da corrupção, 21/03/2009, 19:18


Ricardo Noblat

Em resposta a alguns comentários: originalmente o programa seria veiculado em uma rádio de Brasília do jornalista Garófalo. Pressionado pelo então governador Joaquim Roriz, Garófalo desistiu do programa. Eu dirigia o Correio Braziliense que batia muito em Roriz. Ofereci o programa a Fernando Cesar Mesquita, na época Diretor de Comunicação do Senado. Ele topou. Eu nada ganharia para fazê-lo. Duas vezes o programa foi ao ar com produção da rádio Senado. Não gostei do locutor, muito menos do redator. Disse a Mesquita: como esse programa é um hobby e detesto as coisas mal feitas, irei entregá-lo pronto. É o que faço até hoje. Contratei uma produtora de Brasília que é de um amigo meu. Durante nove anos e meio paguei do meu bolso R$ 1.200,00 mensais pelo programa. O contrato com o Senado foi assinado com meu nome completo. Tenho cópia dele, naturalmente. Se no site do Senado omitiram o “Noblat”, perguntem ao Senado o que aconteceu. Nada tenho a ver com isso. O valor do contrato é de R$ 3.340,00 mensais. O Senado desconta R$ 560,00 de INSS e mais R$ 560,00 de IR. Entrega-me o resto. Pago R$ 1.750,00 à produtora. Tenho os recibos. Depois de pagar R$ 1.200,00 durante nove anos e meio, nada mais razoável que o preço cobrado pela produtora fosse reajustado. Escrevi acima que me restam R$ 490,00 por mês. Corrijo: é bem menos do que isso. Porque ainda pago o Imposto Sobre Serviço. Não sou franciscano nem candidato a Madre Teresa de Calcutá. Gosto de jazz, no meu blog tem uma estação de rádio que toca jazz, quis ter um programa, e paguei para ter. Outros gastam seu dinheiro com outras coisas. Parte do meu gasto comprando cds. O responsável por este blog sabe disso. Nada há de ilegal em ter trabalhado de graça para a Senado FM. Há outros responsáveis por programas que também procedem assim. Nada há de ilegal no contrato assinado com a Senado FM. Creio que o Senado não bancaria um contrato ilegal - e logo comigo que escrevo com dureza sobre suas mazelas. Alguns disseram aqui que não acreditam nas minhas explicações. Só posso lamentar. Tenho como sustentá-las com documentos. Por fim: espante-me a leviandade daqueles que comentam qualquer assunto sem o menor conhecimento de causa. Mas isso acontece também no meu blog. O anonimato na internet favorece os comentaristas irresponsáveis.

De Noblat explica contrato com o Senado, 22/03/2009, 19:14"


Tá explicado?

Não perguntem para mim. Eu, que acho complicada essa história de probloggers, tendo a acreditar que blogueiro tem mesmo que ter telhado de vidro. Se quer vir a público, ter voz, poder atirar para todo lado, pode se preparar para ter que se explicar muito bem sobre tudo que faz. A blogosfera brasileira não perdoa deslizes, e está sempre em busca de novos alvos. Segue a conversa, pois sei que a coisa não vai parar por aí.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Who Watches the Watchmen?

Reblogando as twittadas do DPadua:

- O Azeredo matou o Comediante? Ou ele é o Comediante? http://is.gd/nAzN
- Azeredo: Who Watches The Watchmen - BAIXE O AVATAR - grande: http://is.gd/nAFq médio: http://is.gd/nAFB twitter: http://is.gd/nAFM
- Azeredo: Who Watches The Watchmen? veja: http://is.gd/nAzN + download: http://is.gd/nAzY #selo #espalhem #ciberativismo


URGENTE! Eduardo Azeredo e sua Lei de Cybercriminalização atavam novamente!

Reblogando o que disse Sérgio Amadeu:

ALERTA GERAL: SENADOR AZEREDO AUMENTA PRESSÃO PARA APROVAR SEU PROJETO DE VIOLAÇÃO DA LIBERDADE E IMPLANTAÇÃO DO VIGILANTISMO NA INTERNET


O Senador Azeredo, eleito presidente da Comissão de Relações Internacionais do Senado, no dia 4 de março, a partir de sua nova posição está pressionando o governo para apoiar a aprovação do seu projeto de criminalização da Internet na Câmara.

No dia 5 de março, o deputado conservador ligado ao PSDB, Regis de Oliveira (PSC-SP), conseguiu aprovar seu parecer favorável ao projeto do Senador Azeredo na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. O Parecer afirma que o projeto vigilantista e violador da privacidade na rede é constitucional e clama pela sua aprovação .

O projeto de lei do Senador Azeredo quer destruir as redes abertas, impor o fim da comunicação anônima na Internet e criminalizar práticas cotidianas na rede. Abre espaço para atacar as redes P2P, como tem ocorrido em todo o mundo (veja o exemplo do julgamento do Pirate Bay). O projeto do Senador Azeredo é apoiado pela Febraban e pelos banqueiros que querem repassar para a sociedade os custos da segurança bancária.

Quem quiser se somar à luta pela liberdade e privacidade na Internet, envie um e-mail para o deputado do seu Estado pedindo que vote contra o projeto de crimes da Internet re-escrito pelo Senador Azeredo. Porcure no site da Câmara o e-mail do deputado do seu Estado: http://www2.camara.gov.br/canalinteracao/faledeputado

Leia as postagens que esclarecem os riscos dos artigos 285-A, 285-B e 22 do projeto-substitutivo do Senador Azeredo:
http://samadeu.blogspot.com/search/label/contra%20PLC%20do%20Azeredo


Ajude a divulgar a petição contra o projeto original do Senador Azeredo.

Se você acha que é brincadeira ou exagero, ou que a Lei não deve ser lá tão má assim, provavelmente ainda não entendeu as implicações da mesma, ou quem está por trás de toda essa história. A hora de agir é agora. Depois, vai ser tarde demais para chorar o retrocesso e o leite derramado.

Abaixo o projeto de lei ABSURDO e MAL-INTENCIONADO do Senador Azeredo e de seus gananciosos e anti-éticos amigos da FEBRABAN e da velha indústria de agenciamento de conteúdo artístico (Gravadoras, Distribuidoras Cinematográficas, etc...)

sexta-feira, 13 de março de 2009

"Quer que eu explique? Então aqui vai..." (mais um post sobre a Viação Itapemirim)

A pedido de Delamar da Cruz, assessor de imprensa do Grupo Itapemirim, que teve o cuidado de deixar um comentário no meu último post sobre a empresa pedindo para que eu enviasse por email os detalhes de minha reclamação, resolvi fazer este post.

Não vou mandar os detalhes por email, por um motivo muito simples: se o tivesse feito desde o princípio, eu nunca teria sido sequer contatado pelo Sr. Delamar. É sabido que a Itapemirim, como tantas outras empresas do Brasil, ignora solenemente as reclamações feitas por seus clientes, a não ser que estes façam barulho.

Posto isso, vou atender ao pedido do Sr. Delamar, mas usando os mesmos métodos que fizeram com que ele me dedicasse sua assessoral atenção. Vou publicar aqui os detalhes de minha reclamação sobre os ocorridos na viagem BSB-BH-BSB que fiz usando os serviços da empresa no ano retrasado...

1 - Equipe despreparada.
Na viagem de ida, o motorista não fazia idéia de como operar o ar condicionado do veículo. Ora ligava, ora desligava, e ora o aparelho desligava sozinho. Era possível ver o motorista mergulhando a cabeça no painel para entender os comandos, enquanto o ônibus derivava de um lado para o outro na pista. É claro que isso foi até mais desconfortável do que a constante variação de temperatura dentro do ônibus. Afinal de contas, não sofremos um acidente porque tivemos a sorte de contar com a habilidade dos motoristas que passavam por nós e que desviavam do ônibus enquanto nosso caríssimo condutor tentava descobrir, no meio da viagem, como operar o ar condicionado.

2 - Ônibus em péssimo estado de conservação, sujeitos a quebras no caminho.
Na viagem de volta, o primeiro ônibus já saiu apresentando problemas da rodoviária de Belo Horizonte. Mesmo assim, e apesar de ser interpelado pelos passageiros que perceberam que algo estava errado, o motorista insistiu em seguir viagem. Resultado: o ônibus parou 50km após deixar a capital mineira, e ficamos na beira da estrada, no escuro, esperando a chegada do próximo ônibus. A primeira coisa que o motorista nos disse foi "fiquem dentro do ônibus, pois esta é uma área perigosa". Fiquei grato por ter sido avisado, mas duas dúvidas ficaram martelando minha cabeça enquanto esperávamos no escuro: Por que diabos havíamos partido com um ônibus que estava com defeito? E por que, oh meu senhor, por QUÊ o motorista teria insistido em seguir viagem mesmo vendo que o veículo estava com problemas, só para parar no meio da estrada, em uma regiao perigosa? Será que foi a empresa que o forçou a isso, ou terá sido pura burrice e vontade de arriscar a si e a seus passageiros?

3 - Desrespeito pelo cliente.
Quando, após a quebra do primeiro ônibus, pedimos maiores informações ao motorista, e depois disso ao pessoal da empresa em uma das paradas do caminho, sobre a quebra do ônibus e sobre o estado do ônibus em que seguíamos viagem -- visivelmente velho e muito menos confortável -- fomos tratados com descaso e falta de educação. O atendente com o qual falei em ... (não me lembro agora o nome da cidade, mas é uma cidade que tem queijos famosos!) nos disse que "deveríamos estar felizes de estar seguindo viagem, e não ficar perguntando sobre o ônibus que estávamos indo".

É claro que ele tinha razão. Quando se viaja pela Itapemirim, você deve ficar feliz de chegar ao destino, e não ficar se preocupando com desconfortos, com quebras no meio da estrada, com descortesia da equipe ou com a falta absoluta de respeito da companhia por você. Afinal de contas, o importante é chegar, e a Itapemirim está nos fazendo um enorme favor em nos transportar. O fato de estarmos pagando por isso, e de termos direitos enquanto consumidores é e sempre foi apenas um detalhe...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Elas Dispensam Esta Rosa

Marjorie Rodrigues escreveu um manifesto refletindo sobre a realidade na qual vivem as mulheres, na véspera do dia a elas "dedicado". Mais do que isso, Marjorie também chamou as blogueiras (e alguns blogueiros) lusófonos a republicarem o material e abrirem a discussão sobre a situação vivida pelas mulheres em nosso tempo e sociedade. A adesão ao movimento foi enorme. Sem mais tagarelar, reproduzo o manifesto escrito pela Marjorie, sabendo que ninguém pode falar melhor sobre o assunto do que ela e todas as outras mulheres que participaram ou não do manifesto, mas que sabem onde lhes aperta o sapato.


dispense

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.

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Não se surpreenda se também encontrar este texto em outros blogs e perfis do orkut ou se recebê-lo por e-mail ou impresso. Isto faz parte de uma campanha conjunta, organizada por mim e por esta comunidade.

Se quiser, pode reproduzir o texto e a imagem em seu blog ou perfil! No entanto, não se esqueça de me dar os créditos pela autoria. Também seria muito legal se você linkasse as meninas.




Não quis republicar o manifesto da Marjorie no mesmo dia em que o resto das blogueiras, por entender que este é um movimento delas -- do qual sou um observador e um admirador, mas não me arrogo o direito de ser um participante, ao menos não sem um convite.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Porque nós queremos saber...

Há um projeto de lei em tramitação no Senado Federal que obriga as indústrias a informar com clareza nos rótulos de seus produtos se há algum componente de origem animal no produto, ou se o mesmo é testado em animais. Esta é uma causa antiga dos veganos e vegetarianos do Brasil, e o inovador projeto do senador Expedito Junior atende bastante razoavelmente a estes anseios.

O site Vista-se está promovendo o envio de mensagens para todos os senadores envolvidos na votação do projeto de lei, propondo algumas emendas à mesma para inclusão de cosméticos e roupas na lista de produtos abarcada pela lei e solicitando aos Srs. Senadores que votem em favor desta lei que atende a uma luta antiga de todos aqueles que se preocupam com os direitos animais no país.

Seja você vegano, vegetariano ou apenas preocupado em saber o que está consumindo, não há um bom motivo para não clicar no banner abaixo e nos ajudar nesta batalha.

Ajude a aprovar a lei que esclarece produtos veganos

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Mito da Liberdade Vigiada pelo Grande Irmão

Artigo genial da conterrânea Thaís Saraiva falando sobre o poder total que está sendo estabelecido pelo capitalismo e seu fomento ao consumo inconsciente, controlando cada dia mais nossas vidas e nossas mentes sem que nos demos conta disso.

Como podemos pensar em ser livres se nem sequer concebemos o quanto somos escravos?
Que tipo de liberdade podemos conceber? Que tipo de liberdade estamos dispostos a ter, e a lutar para conseguir?

O artigo foi enviado para o grupo do Metareciclagem pela amigona Lelex, que o extraiu originalmente da revista Novae.



Quem é, afinal, esse tal de Big Brother
Saiba como os regimes totalitários e o capitalismo conseguem fabricar indivíduos submissos e, ainda por cima, em que se pode confiar

Artigo de Thaís Saraiva publicado originalmente no site da Nova-E


A maior parte dos brasileiros acredita que o "Big Brother" seja apenas um programa de televisão inventado na Holanda, no qual câmeras ocultas transmitem a intimidade e as baixarias dos participantes 24 horas por dia. Afinal, o que é esse fenômeno que mobiliza milhões de telespectadores nos países por onde passa? Sabemos que ele arruma empregos para especialistas em tecnologia da informação, inspira artigos de sorumbáticos cientistas políticos e provoca a ira dos defensores da democracia, dos direitos fundamentais e da privacidade dos cidadãos. Mas o que é (ou melhor, o quem é?) o Grande Irmão? Quem o inventou? Qual o seu objetivo, afinal? Melhor voltarmos no tempo para entender essa história.

AUTOR CONHECIDO - O ano era 1945 e ainda não haviam cicatrizado no Ocidente as feridas abertas pelos regimes totalitários de Adolf Hitler, na Alemanha nazista, e de Joseph Stalin, na União Soviética comunista. Foi nesse contexto que o jornalista inglês Eric Blair, que assinava com o pseudônimo "George Orwell", publicou uma das obras mais vendidas de todos os tempos: "Animal Farm", uma alegoria infantil que denunciava a suposta predisposição da humanidade para a violência e como uma camarilha política poderia tomar de assalto o poder em nome do povo. No Brasil, o livro recebeu o título de "A Revolução dos Bichos" e, na década de 1970, inspirou o musical "Os Saltimbancos", de Chico Buarque, já assistida pela terceira geração de crianças. Qualquer brasileiro que tenha menos de 40 anos decerto já cantarolou na escola as músicas dessa peça.

Relembrar tais fatos tem por objetivo afirmar, simplesmente, que cada um de vocês já teve algum tipo de contato com George Orwell e que o verdadeiro pai do Big Brother não é um holandês especialista em exibicionismo na TV; mas sim um jornalista inglês, Orwell, cuja maior preocupação era denunciar o controle do Estado sobre o cidadão. Fez isso em "A Revolução dos Bichos", uma alegoria político-infantil, onde temos a palavra "granja" relacionada à sociedade e "porcos" relacionada aos já conhecidos "ditadores". Repetiu a dose, com muito mais precisão e repercussão, em seu livro seguinte: "1984", uma alegoria político-científica, onde surgiu o personagem Big Brother. Tratava-se de sua obra-prima; aliás, sua última obra. Orwell terminou de escrever "1984" em 1948; o livro foi publicado no ano seguinte. Aliás, uma curiosidade: o título original deveria ser "O Último Homem Livre da Europa", mas na última hora o autor resolveu inverter os números do ano –assim, 1948 virou 1984.

O LIVRO DO MAL - Nessa obra, George Orwell apresenta uma teoria sobre como um grupo bem organizado pode tomar o poder e controlar o Estado sem jamais ser importunado seriamente. O segredo seria montar um esquema que teria na tirania e no autoritarismo a própria condição de sua existência. Ou seja, os governantes deveriam exercer o terror, a tortura, a vigilância –e até a maldade— como pré-condição para a perpetuação no poder. O mal pelo mal, como faz o Darth Vader de Star War; o poder pelo poder, como fizeram Hitler e Stalin.

A sociedade era estruturada na mais completa desagregação social (sem imprensa livre, sindicatos ou associações; até mesmo sem famílias coesas), mas se mantinha coesa através da tirania, da coação e da vigilância. O Estado encontra um modo de conduzir as ações de todos os cidadãos; há regras e imposições até para os pensamentos: o que se pode e o que não se pode pensar. Toda a existência física e mental se curvava a esse regime de poder supremo.

O BIG BROTHER - O dirigente máximo dessa sociedade era chamado de Grande Irmão (Big Brother no original em inglês). É o grande tirano, aquele que todos tinham a obrigação de idolatrar, respeitar e obedecer cegamente, como se fosse um pai todo-poderoso, um deus. Ele não tem nome e jamais foi visto em público – era somente um retrato de um homem com enormes bigodes, inspirado na figura de Stalin. Ressalte-se que todos os regimes totalitários promoveram o culto à personalidade do líder máximo: o populismo. Aliás, nas tiranias boa parte do controle é exercido através do culto à figura do ditador, como ocorreu na União Soviética, na Alemanha, na Itália de Mussolini ou mesmo no Brasil de Getúlio Vargas.

O Big Brother de Orwell foi mais além. O governo instalou câmeras em todas as residências para vigiar os cidadãos, como no programa de TV "Big Brother". O escritor batizou essas câmeras de teletelas. Na época, 1948, a televisão comercial sequer havia entrado em operação e as teletelas não passavam de ficção científica. Através delas, o Big Brother poderia tudo ver sem ser visto. Poderia também estar presente em todos os lugares, levando sua imagem e sua mensagem. Ou seja, tinha os três poderes divinos: onividência, onipresença e onipotência. Todos em prol da dominação.

ÓDIO E ALIENAÇÃO - Para que o Big Brother de Orwell conquistasse a onipotência: o terceiro atributo divino, o ódio pelo próximo (ou por outras formas de organização social) era incitado pelo governo, fomentado e finalmente criado dentro do próprio sistema para dar continuidade e finalidade à subordinação. Em "1984", os cidadãos são obrigados a parar diariamente, na mesma hora, a fim de exercitar os "Cinco Minutos de Ódio". Parece inverossímil. Obra de ficção científica? Não, esses fatos aconteceram e acontecem. Naquela época, por exemplo, a ciência tentava dar veracidade às loucuras propostas por tiranos, como a superioridade da raça ariana defendida por Hitler; ou a inferioridade dos negros e das mulheres perante o homem branco. O assunto é atual, afinal, ainda hoje palestinos e judeus são criados no mesmo princípio do ódio.

Outro ponto importante a ressaltar é a alienação, base da dominação na obra de Orwell. O homem que vivia sob o comando do Big Brother não podia explorar sua mente ou o prazer que o corpo proporciona. A realidade conhecida era a que é o Big Brother queria mostrar. Ele também fez algumas concessões ilusórias, baseadas na liberdade vigiada, para aqueles que seguissem com disciplina a ideologia imposta pelo governante. Poucos percebem que essa realidade é construída artificialmente e que fora dela existem inúmeras possibilidades de viver. As pessoas enxergavam o mundo do Big Brother pensando enxergar a verdade absoluta, não sabiam que eram cegas; e, se percebiam pagavam caro por isso.

QUESTÃO DA PRIVACIDADE - O livro "1984" vendeu 10 milhões de exemplares em todo o mundo, 300 mil no Brasil, e se inscreveu como uma das obras mais importantes de todos os tempos. Durante os 44 anos que durou a "guerra fria", Orwell e o seu Big Brother eram estudados pela Ciência Política por conta da questão do totalitarismo. A partir da década de 1990, com o surgimento da internet e a expansão das novas tecnologias de comunicações, a alegoria do Big Brother passou a ser utilizada também para ilustrar uma nova questão em pauta: a privacidade. Começaram a surgir alertas dos especialistas em tecnologia sobre os perigos do monitoramento dos cidadãos proporcionados pelas novas tecnologias e pela internet em especial. Centenas de artigos passaram a acusar Bill Gates, dono da Microsoft, de tentar ser a encarnação do Big Brother fora da ficção.

Na virada do milênio, produtores de TV holandeses criaram um formato de programa baseado nos "realities shows", cuja característica principal é o monitoramento de pessoas confinadas em uma casa 24 horas por dia, com posterior exposição pública de suas intimidades. Batizado de "Big Brother", esse programa já teve versões exibidas em dezenas de países, da Austrália à Turquia. No Brasil, teve a primeira versão exibida entre março e abril de 2002, tornando-se repentinamente o assunto mais comentado do país. Curioso o capitalismo. Um dos maiores escritores de todos os tempos leva a vida inteira para elaborar uma obra-prima que levanta questões essenciais para os direitos humanos, como a liberdade e a privacidade, e de repente alguém dá um jeitinho de transformar seu alerta político em um produto de venda lucrativo. A política de cooptação atual é muito mais intensa que a aplicada pelo Império Romano.

DITADOR CAPITALISTA - Está ai um dos únicos equívocos de Orwell: achar que o totalitarismo ganharia a guerra. O neo-liberalismo, hoje, domina o mundo com totalidade quase absoluta. Como o Big Brother original, o capitalismo joga com uma realidade cheia de liberdades ilusórias e continua usando da ciência para validar seus atos de tirania e dominação. Em vez do controle total, inclusive do pensamento, basta controlar os principais meios de comunicação. Ao criar novos hábitos de consumo, leva-se os cidadãos a comprar e a instalar espontaneamente todo o aparato tecnológico de vigilância utilizada pelo Big Brother, sem necessidade de repressão.

As teletelas imaginadas por Orwell tornaram-se realidade com outro nome e formato. São os microcomputadores pessoais conectados à internet, com uma parafernália de softwares de vigilância e quebra de privacidade que receberam a denominação elegante de "CRM". No contexto atual a dominação é feita com o consentimento dos consumidores "bem informados". Por escolha, conforto, comodidade e rapidez, o Grande Irmão traz a modernidade para dentro de casa. Nosso sistema capitalista funciona como um ditador invisível, que controla a vida de todos através da "liberdade vigiada", onde as pessoas são induzidas a crer que são livres e que podem fazem suas próprias escolhas.

O pensador francês Michael Foucault, autor de clássicos como "Vigiar e Punir" e "Microfísica do Poder", tem observações pertinentes ao nosso tema. Em suas teorias a respeito da pós-modernidade, o pleno poder só pode ser exercido através das concessões, da falsa liberdade. Esse controle pode ser feito pela banalização da violência que confina as pessoas dentro do medo, pela estética que padroniza o belo, o "normal"; e por várias outras formas e teias que se articulam para aprisionar o homem dentro de sua própria existência. Escreve Foucault: "Fabricam-se indivíduos submissos, e se constitui sobre eles um sabor em que se pode confiar".


Thaís Saraiva, 22, é estudante de Comunicação da Universidade Católica de Brasília. Colaboraram com idéias e trechos os estudantes Carlos Alberto Teodoro e Rosana Assis. Este artigo foi elaborado como trabalho para a disciplina "Comunicação e Novas Tecnologias" e está sendo publicado com a revisão e sob a responsabilidade editorial do professor Carlos Hugo Studart.



Zeitgeist e Zeitgeist:Addendum

Se você ainda não viu, deveria ver.

Zeitgeist




Zeitgeist:Addendum



Vou ver se arranjo uma versao com Pt:Subs do Zeitgeist:Addendum.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Fotos da Oficina de Mitoreciclagem @ campusparty2009

O DPadua publicou em seu blogue algumas fotos da nossa conversa sobre Mitoreciclagem e transformações narrativas lá no Campus Party...



O áudio da conversa está disponível no site do Estúdio Livre, aqui.
(eu sempre morro de vergonha quando leio escuto a minha voz gravada.
algum dia ainda vão acreditar que eu sou um cara tímido...)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Nova Constituição Boliviana no CMI

Fechando as veias abertas da América Latina

Dia 25 de janeiro, ocorreu na Bolívia o referendo sobre a nova Constituição, elaborada pela Assembléia Constituinte desde agosto de 2006. Há anos esta demanda se intensifica nos movimentos indígenas e camponeses, com a "Marcha por la vida, territorio y dignidad" em 1990. O antigo texto da Constituição tinha forte teor colonial e elitista, com vinculação da Igreja católica e o Estado e não reconhecendo os direitos dos povos indígenas sobre seus territórios. A formação e os trabalhos da Assembléia Constituinte foram marcados por intensos conflitos entre setores populares, camponeses e indígenas com a oligarquia latifundiária especialmente da chamada Meia Lua (os estados de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), que promoveu inúmeros atos de violência, racismo e discriminação - sendo o último mais intenso o massacre de cerca de 20 camponeses e indígenas em setembro de 2008.

Desde 2000, a Bolívia passa por um processo profundo de transformação social, com levantes contra a privatização dos bens naturais protagonizados principalmente pelas comunidades indígenas, que são cerca de 70% da população de 4 milhões de bolivianos/as. Mais do que levantes contra a privatização, estes levantes questionam o colonialismo que ainda persiste na Bolívia, que oprime e explora a população indígena que tem sua memória apagada, seus costumes discriminados e seu modo de vida destruído pelos interesses dos latifundiários e do capital internacional.

A nova Constituição, aprovada com mais de 60% dos votos, reconhece a existência de 36 povos originários e faz coexistir seus modos de democracia direta e justiça comunitária com os métodos ocidentais, além de incluir em todas as esferas de eleição representantes dos povos indígenas. A Constituição também declara todos os recursos naturais propriedade do povo boliviano administrado pelo Estado, impedindo qualquer iniciativa de privatização. Além disso, declara que a Bolívia se "organiza territorialmente em Departamentos, Províncias, Municipios e Territórios Indígena Originário Campesinos" (Art. 269). No referendo também foi votado o limite máximo da propriedade privada da terra: 78% dos bolivianos/as aprovaram o limite máximo de 5000 hectares, contra 22% que votaram pelo limite máximo de 10000 hectares.

Entretanto, longe de ser a consolidação do processo de mudança, a nova constituição é só um passo do que o presidente Evo Morales chamou de fim do colonialismo interno e externo. A governadora do estado de Chuquisaca Sabina Cuellar convocou a não-aceitação e desacato à nova Constituição. Desta maneira, a luta "desde abajo" continua contra os ataques daqueles que querem manter a maior parte dos bolivianos/as numa situação colonial.

Bolívia, passado e presente pela transformação | O SIM à nova constituição já chega a 60% | Gannha o NÃO à prepotência da direita | Fim do Estado colonial na Bolívia | Bolivianos aprovam nova constituição | CartaMaior:: "Vitória da nova Constituição significa refundação da Bolívia" | Bolívia: fazendo sua própria história

Fotos:: Encerramento da campanha do SIM em El Alto | Votação e contagem de votos em El Alto | Festa pela vitória do SIM em La Paz

Mais informações (em espanhol):: CMI Bolívia | CMI Sucre | Red Tinku | Rebelion.org | Agência Boliviana de Información

Fonte: CMI-Brasil

o reaparecimento do nartisan...

Os escritos perdidos do Manifesto NArtisan, conjurados pelo escriba Daniel Pádua em tempos distantes, foram redescobertos pela Su em seu misterioso disco rígido, e trazidos de volta à luz!

Nova vida e novo mojo fluem agora nos movimentos Metareciclagem.

UPDATE 02/02/2009:
O Manifesto NArtisan foi publicado no timeline do Metareciclagem. Colai por lá e vede, mermão.

-=-

nArtisan
"...É o estado de espírito de uma pessoa que, agredida pelas estruturas autoritárias e centralizadoras, sente o impulso de construir caminhos alternativos, bases tecnológicas que sirvam de espaço livre para a ação desejada mas negligenciada pelas autoridades/comandos no poder.
O artesão de redes compactua com as autoridades/controles na medida em que, para obter uma base mínima de vida, precisa jogar na lógica das trocas com o poder estabelecido. Mas ele vive outra lógica – a do compartilhamento, o mutirão improvisado – e a sensação de que a rede pode libertar sua ação o empurra para fazer o que precisa, pelas próprias mãos. Na rede, onde o básico é gerado em colaboração autônoma e voluntária, onde as pessoas escolhem suas responsabilidades de acordo com seus sentimentos, o nartisan experimenta uma outra ética, menos permeada pelos preconceitos que impregnam as táticas de troca, que também contribui para movê-lo. Assim, a experiência da rede colaborativa, enquanto existe, alimenta a esperança do artesão por uma lógica diferente de convívio humano..."


-=-

the nartisan manifesto

o manifesto do artesão de redes


versão 1.1

OUTLINE DO MANIFESTO
O artesão emergente
A rede conjurada
As táticas improvisadas
As ações sentidas
Os exemplos notáveis (as crônicas nartisan)
O despertar nartisan

O artesão emergente

Nartisan é a contração de networks' artisan, ou artesão de redes, se preferir. Ele é o impulso que move alguém para uma filosofia emergente de ação social disparada num estado de sensibilidade intensa e especificamente estranho às estruturas sociais de massa (escola, governo, igreja, indústria cultural, etc.): é o espírito de alguém cansado e agredido pela constante exigência de um raciocínio autoritário em suas relações, que revigorado pelas ações em rede em que mergulha, tende a empregar toda sua força na criação de novas tramas sociais. Novos emaranhados de interações descentralizadas, não-hierárquicas e emergentes, que mesmo durando um instante valem para o Nartisan mais do que uma vida de consenso, pela simples sensação de que seu olhar e sua expressão transformaram o mundo do outro. Mundo enquanto babel de mapeamentos psíquicos, que num jogo de sedução imprevisível, comovem e atraem. Destroem antigas associações e constroem novas redes.

O Nartisan vive marcado pelos carimbos imundos da instituição porque depende dela enquanto o jogo da sobrevivência é na base da troca. Por conta de sua fome e sede, o Nartisan precisa se torturar sob o machado que sempre pendeu sobre seu coração... pela mão chefe, do prefeito, do diretor de TV. Mas o Nartisan que se formou na brincadeira de roda da turma, na comunidade de programadores livres ou na ficção libertária de um sonho ou de um RPG cyberpunk, ele sente que o jogo pode seguir outra lógica. Ele sabe que a propriedade permite e expropriação. Que a rua é de todos e assim será enquanto durar o respeito mútuo nas brincadeiras. Seu único problema é que todas as ruas foram tomadas, e a maioria das outras pessoas preferiram esquecê-las a tomá-las dos ladrões. Para viver sua "outra lógica", o Nartisan torna-se um mago, um feiticeiro que na falta do espaço, cria suas "ruas" no tempo. Aproveitando as novas travessias para puxar assunto em pleno caminho, o Nartisan catalisa conversas que se tornam brincadeiras jogadas num ritmo diferente: o ritmo da passagem de cada um.

É o estado de espírito de espírito de uma pessoa que, agredida pelas estruturas autoritárias e centralizadoras[1], sente o impulso de construir caminhos alternativos, bases tecnológicas que sirvam de espaço livre para a ação desejada mas negligenciada pelas autoridades/comandos no poder.

O artesão de redes compactua com as autoridades/controles na medida em que, para obter uma base mínima de vida, precisa jogar na lógica das trocas[2] com o poder estabelecido. Mas ele vive outra lógica – a do compartilhamento, o mutirão improvisado – e a sensação de que a rede pode libertar sua ação o empurra para fazer o que precisa, pelas próprias mãos. Na rede, onde o básico é gerado em colaboração autônoma e voluntária, onde as pessoas escolhem suas responsabilidades de acordo com seus sentimentos, o nartisan experimenta uma outra ética, menos permeada pelos preconceitos que impregnam as táticas de troca, que também contribui para movê-lo. Assim, a experiência da rede colaborativa, enquanto existe, alimenta a esperança do artesão por uma lógica diferente de convívio humano.

A rede conjurada

A rede, o artesão sente como sendo qualquer espaço de interação onde suas ações são medidas e direcionadas apenas por ele mesmo, e não por outro elemento deste espaço. Na rede ele se joga em sua vontade e se responsabiliza pelo que acontecer. Responsabilidade diante de si mesmo, e não diante de algum outro. Para que, da sinceridade de seus atos, aprenda a combinar ações com os outros, também sinceros.

A rede pode ser vista como um conjunto de três partes... sua condição física, seu esquema lógico, e as próprias interações que se desenrolam sobre ela.

As táticas improvisadas

Na busca pela rede que suporte a interação ansiada, o artesão lança mão de todas as táticas [visão técnica] que a criatividade consegue conjurar. De sinais de fumaça, a copos de iogurte ligados por barbante, a computadores reciclados ligados em rede. Do lixo à comida plantada na sacada do apartamento. Não importa a tecnologia contando que sua demanda de sentimento seja resolvida.

Ao conjurar suas redes através destas táticas diversas, o nartisan percebe que o uso persistente de uma tecnologia enfraquece sua capacidade de criar novas redes, pois elas podem se desatualizar em relação às sub-redes que emergem em seu seio e ao seu redor. Técnica, meio, formato, são eternas variáveis com as quais o espírito nartisan brinca para imaginar pontes não-controladas entre as pessoas.

As ações sentidas

Usando as redes, o nartisan pode fazer coisas boas ou ruins para os que estão à sua volta. As ações desencadeadas numa rede podem ser muito diversas em vários aspectos.

Os exemplos notáveis (as crônicas nartisan)

Paulo de Tarso, grandes políticos e interlocutores, cientistas e inventores, improvisadores, etc.

O despertar nartisan

A condição nartisan emerge quando chegou a hora de você agir por conta própria, e se dá conta de que os instrumentos ao seu alcance foram conquistados há tempos e agora são oferecidos a você como uma forma de te controlar. Neste momento, a necessidade impulsionada pelo incoformismo acende a fagulha da criatividade, e o artesão enxerga instrumentos alternativos dispersos pelo espaço, ignorados pela autoridade/controle. E através suas técnicas improvisadas faz acontecer o que busca.

Muitas vezes diante do controle das coisas que queremos usar, deixamos para lá porque a necessidade da ação não era imensa. E pouco a pouco, este comportamento nos domestica. O espírito nartisan parece algo cada vez maiss distante de nossas reais personalidades. Mas ele ainda está lá.

Mexa essa bunda gorda e crie suas redes. Encontre os instrumentos alternativos e crie as táticas de que precisa. Seja um camaleão tecnológico. Um ciborgue movido pela própria poesia.

[1] o artesão não é movido pela destruição da autoridade, mas pelo vislumbre da liberdade de agir a seu modo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mitoreciclagem

Por outro lado, a oficina de Mitoreciclagem -- reconhecimento e ação sobre os padrões narrativos míticos que nos regem -- que realizamos lá no Encontrão Intergaláctico do Metareciclagem (acontecido dentro do Campus Party 2009) foi um encanto!

O áudio da conversa foi gravado, e espero em breve disponibilizar ele por aqui (e no Caderno do Cluracão também...).

Devo, não nego, escrever mais sobre o tema. Mas por hora, vou publicar o que tenho -- e o que tenho é um fragmento de texto que escrevi antes da oficina e uns fragmentos de conversa que tive no grupo de discussão do Metarec ou nos maravilhosos encontros que tive com a tribo metarecicleira no Encontrão Intergaláctico... tudo publicado no Caderno do Cluracão.

Seguem as conversas míticas, mito e meta recicleiras... em busca de alguma vida melhor e que faça mais sentido do que esta que nos é proposta.

Fingindo que debatemos a lei que finge que nos protege...

Eu sei que o comentário está muito atrasado, mas como estou escrevendo um artigo sobre o tema, vale o desabafo...

Que DIABOS de arremedo de "debate" da Lei Azeredo foi aquele que aconteceu no Campus Party? As mesmas pessoas falando as mesmas coisas "no palco"... Algumas, como o Sérgio Amadeu e o Ronaldo Lemos, com excelentes argumentos. Outras, como o Portugal, cupincha do covarde do Azeredo -- que tem medo das pessoas que sua lei pretensamente protegeria -- falando as mesmas asneiras de sempre. E no fim das contas, ninguém que compareceu ao debate tem chance de falar nada. Não é a toa que todo mundo virou de costas no final do "debate". Não havia mais nada para ouvir, e nem se podia falar mais nada.

E o Projeto de Lei de Cibercrimes continua, como sempre, NÃO sendo debatido com ninguém. É fácil dizer que entendem o que precisamos em termos de regulação e governança da rede quando ninguém de nós é ouvido.

Um dia a gente aprende...

Alô som... alô som... testando.

Olá pessoal. Tem alguém ainda por aí, lendo o que não escrevo?

Acho que é hora de trazer o blogue de volta a vida. Não... é sério... eu seu que eu já falei isso antes, mas eu sinceramente acho isso. Bem... vamos ao trabalho.

Abraços do Verde

sábado, 17 de janeiro de 2009

Veja copia artigo do Global Voices traduzido por blogueiro.

Para muitos de meus colegas da blogosfera brasileira (como o grande Luiz Nassif), isso já não é novidade. A Veja, economizando inteligência (!?) e jornalistas (!!!???), plagiou um artigo do Global Voices Online, não citou a fonte do artigo original nem o tradutor, permitiu que seu jornalista (aquele que estava economizando a si mesmo) assinasse a matéria e ainda ignorou as cartas enviadas à redação pedindo explicações sobre o episódio. Veja você como é a Veja.

Infelizmente eu estava sem computador (meu pobre notebook sucumbiu aos pelos de meus gatos e precisou de um tempo no estaleiro) quando este plágio veio à tona, e eu sei que estou muito atrasado em minha manifestação -- principalmente se levarmos em conta que sou o Coordenador do Global Voices em Português. Mas já que estou atrasado, vou tentar contar a história com calma...

O artigo Palestine: Bloggers in Gaza Describe the Fear, publicado por Ayesha Saldanha no Global Voices Online, e traduzido inicialmente por Caim do blogue LivrEAção (que depois do incidente tornou-se parte de nosso time de tradutores do GV em Português), foi descaradamente plagiado pela Veja no artigo entitulado Blogueiros Narram o Drama de Guerra em Gaza, publicado no site da revista. O jornalista André Pontes assina a matéria como se fosse dele. Economizou trabalho, claro, e economizou também na inteligência. Será que ele e seus chefes acreditavam que ninguém iria notar o plágio descarado?

Todos sabemos a qualidade do trabalho jornalístico (!!??) da Veja piora a cada dia. Não é supresa que eles plagiem sem citar fontes, roubem material, mintam, se façam de desentendidos. Mas não é por isso que devemos parar de reclamar ou de nos indignar frente aos absurdos cometidos por esta revista semanal sem compromisso algum com o jornalismo, e muito menos com a ética.

Segundo levantamento de minha colega e amiga Paula Góes, aqui vão alguns blogues que já falaram também deste episódio;

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/01/11/o-plagio-da-veja/
http://wwwterrordonordeste.blogspot.com/2009/01/o-plgio-da-veja.html
http://blogdocrato.blogspot.com/2009/01/mais-uma-da-ia-por-jos-nilton-mariano.html
http://esquerdopata.blogspot.com/2009/01/tablide-dos-civita-comete-um-crime-mais.html
http://ujsdf.blogspot.com/2009/01/o-plgio-da-veja.html
http://jubalcabralfilho.blogspot.com/2009/01/plgio-em-alta-voltagem.html
http://dishumor.wordpress.com/2009/01/12/a-veja-na-faixa-de-gaza/
http://www.jesocarneiro.com/jornalismo/veja-chupa-reportagem-do-gvo.html
http://oleododiabo.blogspot.com/2009/01/tempo-instvel.html
http://bloglog.globo.com/blog/post.do?act=loadSite&id=13846&permalink=true
http://lucianoalvarenga.blogspot.com/2009/01/o-plgio-da-veja.html
http://esteticida.blogspot.com/2009/01/repassando-o-plgio-da-veja-o-gvo-ou.html

Estou ainda na correria para colocar em dia todo o trabalho atrasado pelos problemas que tive em meu computador, mas na medida do possível eu volto depois em outro post falando mais sobre o plágio da Veja e seu desenrolar.

Para quem vai ao Campus Party 2009, podemos bater um papo sobre o tema por lá. E caso alguém do semanário neoliberal deseje conversar, nem que seja só para dizer "foi mal aê, duende" em off, não vai ser difícil me achar por lá.