Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Santa Sé ataca novamente...

Outra recebida por email:


Acordo Brasil e Santa Sé já está na Câmara dos Deputados

Advogados, juristas, profissionais da área de saúde e representantes de movimentos sociais de todo o país estão preocupados com o encaminhamento silencioso dado pelo Governo Federal em relação ao Acordo Brasil e Santa Sé, assinado em novembro de 2008. Apesar de não ter sido discutido amplamente com a sociedade, o documento já está tramitando na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados para ser votado como uma Mensagem nº 134/2009. Após seguirá para ser apreciada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania e ao Plenário da Casa. O conteúdo do documento trata basicamente dos interesses econômicos e outros privilégios da Igreja Católica no Brasil, tais como: isenção de impostos para rendas, propriedades e atividades das entidades católicas (quase 1.500 escolas, hospitais, etc.); o ensino religioso católico nas escolas públicas; a reserva de terrenos para a construção de Igrejas; a não existência de vínculos trabalhistas de religiosos com suas ordens, dentre outros.

Os grupos religiosos que defendem o acordo estão se mobilizando para que o mesmo seja votado sem alarde e sem debates dentro do Congresso Nacional. Em sentido oposto, os movimentos de mulheres e outros setores da sociedade civil defendem a realização de audiências públicas para discutir o conteúdo do Acordo, sob pena de inviabilizar o debate democrático pela ausência de informações e restrição à participação de estudiosos sobre o tema e setores interessados neste assunto.

“O conteúdo do Acordo denuncia o desejo da instituição Católica de manter privilégios em detrimento das outras religiões e da população, desrespeitando a laicidade do Estado brasileiro. Além disso, este documento demonstra as ambigüidades de uma religião que na sua Doutrina Social prega a igualdade e a inclusão e, por outro lado, tenta aprovar, como lei nacional, um Acordo para eternizar privilégios num país de tantas desigualdades e concentração de renda, onde os programas sociais são as únicas possibilidades de sobrevivência para muitas famílias”, afirma Dulcelina Xavier, socióloga das Católicas pelo Direito de Decidir.


Para ler a Mensagem nº 134/2009 na integra: http://www.cfemea.org.br/pdf/ms134_2009_concordata.pdf

Para mais informações contatar:
Assessoria de imprensa conjunta
Evanize Sydow – (21) 7699.3665
Nataly Queiroz – (81) 9408.8095


Por que será que eu não estou surpreso? :)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Católicos, protestantes, propriedade e roubo...

Estava conversando com o Lou Gold sobre a forma como o catolicismo pode ser um dos responsáveis pelo empobrecimento e subdesenvolvimento, com o efeito sutil que tem na mente das pessoas -- de fazer com que, em uma mistura de inveja e preconceito, algumas pessoas acreditem que todo mundo que ganha dinheiro fazendo algo diferente do que os trabalhos "comuns" (ser funcionário do governo, ou empregado de uma empresa, etc...) está roubando ou ganhando de forma injusta. Falava também sobre como a aceitação -- e a quase glorificação -- do lucro e da prosperidade nos meios protestantes e evangélicos das velhas e novas designações religiosas poderia ter um efeito contrário. Em suma, falava majoritariamente do "senso comum" a respeito da influência das diferentes religiosidades cristãs sobre o desenvolvimento e prosperidade dos grupos e povos (e, para variar, aproveitava para alfinetar os meus tão odiados católicos, mesmo que para isso tivesse que fazer uma defesa momentânea dos grupos evangélicos e protestantes, pelos quais também não morro de amores).

Mas Lou se saiu com uma resposta que não só me fez vez como eu estava errado, de uma forma que eu ainda não havia pensado, como também me fez entender que na verdade o que acontece é o contrário:
"Ver o enriquecimento como algo que provavelmente advém do roubo ou da corrupção não é algo tão errado, indiferente de que isso venha de um conceito religioso. Pois o que acontece é que o início de toda a propriedade, antes de qualquer enriquecimento ou pobreza, advém do roubo. Se em um momento tudo pertencia a todos, no outro, quando alguém tomou algo para sí e disse 'é meu', isso foi um roubo. Um roubo daquilo que antes pertencia a todos. Quando, então, a propriedade se estabeleceu e, com ela, a riqueza e a pobreza surgiram, muitos perderam a noção de que toda a propriedade surgiu, a princípio, do roubo. Talvez em sociedades mais 'sofisticadas', que por sua vez estão mais distantes da realidade anterior à propriedade, seja mais natural lidar com o enriquecimento ou, melhor ainda, com as várias formas de se enriquecer -- com ou sem o recurso à exploração do outro ou ao roubo. Mas em sociedades menos 'desenvolvidas' (no sentido do 'desenvolvimento ocidental industrial'), as pessoas estão mais próximas da antiga realidade que foi destruída pela propriedade. E talvez, então, lembrem-se bem melhor do que eu de que toda propriedade é, a princípio, fruto de um roubo. Isso não tem tanto a ver com a religião quanto tem a ver com o 'lugar' onde você está."

Isso me faz pensar também que as sociedades mais 'desenvolvidas' são também aquelas que mais roubaram das outras, agora chamadas de 'subdesenvolvidas'. Mais uma vez, indiferente da religião, a forma de enriquecer importa menos do que o fato de que quando alguém tem muito é porque alguém, ou vários alguéns, não tem mais o bastante -- por mais que exista fartura. Vale lembrar também que religiosidades que louvavam o enriquecimento e a acumulação são bem mais antigas do que o cristianismo. Veja os grupos semitas, por exemplo, que dedicam uma boa parte de seu misticismo e de sua ideologia religiosa à associação de seu Deus ao dinheiro, e da bondade deste à prosperidade, riqueza e poder secular. Em resumo, quando a propriedade virou uma questão religiosa, invariavelmente o roubo se tornou uma prática sagrada.

Em suma, não se trata, desta vez, de uma questão de religião. Ou ao menos não se trada de uma questão recente, de religiões "modernas". Trata-se, antes de mais nada, de uma questão de consciência, e uma questão bem mais antiga do que eu estava percebendo. Mesmo que a idéia não esteja mais formulada como antes, o enriquecimento, que só acontece em meio à uma realidade de propriedade individual, é fruto de roubo -- mesmo que não seja de um roubo recente, mas sim do roubo primordial que houve quando alguém disse "isso é meu, e você não pode mais usar".

Não pude deixar de blogar a idéia dele, mesmo sem ter refletido muito sobre ela ainda. Há tantas coisas na vida que a gente precisa anotar e voltar depois para refletir...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Fitna

O filme de Geert Wilders está causando um bocado de burburinho dentro e fora das blogosferas tanto dos EUA e Europa quanto do mundo Islãmico. Ao que parece, o filme trata de como o Quran, e portanto o Islamismo, exorta seus seguidores à violência contra os infiéis.

Mas há um comentador neste post de Sami Ben Gharbia para o GV Advocacy que (apesar de fazer um comentário meio idiota sobre a guerra do Vietnã e parecer um bocado fanático) explica o quanto os versos quranicos citados pelo filme foram retirados de seu contexto original. Vistos por esta luz, e na íntegra da Sura de onde foram tirados, os versos não parecem mais belicistas do que boa parte do Antigo Testamento da Bíblia.

E agora, quem é que segue (ou se orgulha em dizer que segue) um livro sagrado que incita à violência? São só os muçulmanos? Conta outra, Geert.

Sobre o filme, que ainda não vi inteiro, tenho já alguma opinião formada mas prefiro não dizer nada antes de assistí-lo. Mas associar os versos quranicos à derrubada do World Trade Center, que bem sabemos ter sido obra de (a príncípio) cristãos americanos e não muçulmanos de algum outro lugar do mundo, logo no início do filme me parece uma amostra boa de que este pode ser realmente idiota.


(veja o filme inteiro aqui)

Mas hey! Proibí-lo ou bloquear acesso a ele não é a forma certa de lidar com sua idiotice. Como dizem por aí, uma afirmação idiota merece uma resposta inteligente para desprová-la, e não um tiro de .45.


p.s. não resisti e fiz um comentário lá na discussão sobre a matéria do Sami no GV Advocacy. Acho que foi um comentário bem razoável, mas sinto que foi uma puxada de orelha um pouco dolorida. De qualquer forma, acho que pode ser bom. Vamos ver no que vai dar...

Livre comércio, dominação mundial e criancinhas.

O líder pseudo-teocrata e santinho-do-pau-oco-profissional dos EUA, George W. Bush, parece estar bastante preocupado com o atraso na votação do Acordo de Livre Comércio norte-americano com a Colômbia. Tem motivos para estar. Afinal, sem este acordo ele tem menos a oferecer a Uribe e ao governo colombiano em troca do apoio incondicional e subserviente destes à agenda do Plano Colombia. Pois é, Sr. Bush. Querer dominar o mundo todo o tempo todo dá um puta trabalho, não é mesmo?

E por falar em líderes pseudo-teocratas, o papa Bentinho XVI prometeu abordar finalmente, em sua próxima visita aos EUA, o assunto da violência sexual contra crianças por parte de milhares de padres norte americanos. Bentinho afirma conhecer o problema a fundo e promete que vai exortar os padres a uma "purificação de vida para construir uma cultura de integridade moral", mas nega os boatos de que queira encontrar com as vítimas e suas famílias. O Papa parece estar sendo raramente sensato desta vez. Vai que o diabo tenta quando você ver aquelas criancinhas todas, né Bentinho?


P.S. O México A Igreja Católica no México, que por vezes tem a má idéia segue a tendência ruim de alguns mexicanos de imitar os EUA em tudo, está mostrando como NÃO se deve lidar com o problema do abuso sexual de crianças por parte de sacerdotes. Um bispo mexicano "admitiu que nos últimos 20 anos alguns padres foram presos por molestar crianças. Contudo, sustentou que as recentes ocorrências no México foram “casos isolados”, resolvidos graças à “compreensão” das famílias, que se
mostraram “tolerantes” devido ao “carinho que têm pela Igreja”.
O bispo afirmou que os sacerdotes são “devotos da Virgem de Guadalupe, que vela para que não façamos coisas graves”. Mas acrescentou: “peço a Deus que não haja muitos casos desconhecidos, porque esses desastres - como os ocorridos em Los Angeles, que foram resolvidos pela via econômica - nos mortificam”". Tenha SANTA paciência, senhor Bispo. Se o senhor não tem respeito próprio, nem respeito pelas crianças violentadas e suas famílias, poderia ao menos ter respeito pela inteligência de quem ouve e lê suas declarações? Se um padre pode violentar uma criança e sair impune, e ainda ser tido como coitadinho, você realmente acha que isso vai parar? Que tipo de gente você acha que assume o sacerdócio em sua Igreja, meu amigo?

terça-feira, 11 de março de 2008

Coisas que não mudam...

(do twitter [1,2] para o blogue, com algumas modificações)

Existem coisas que nunca mudam. A Igreja, a tal "pedra de Pedro", é uma delas.

Os sete pecados capitais agora são catorze, e parece que tem gente que ainda acha bonitinho. Enquanto isso, violentar crianças, se aproveitar da fé e do sofrimento alheio, e se esconder por trás da batina (e ser pela igreja protegido) continua, aparentemente, não sendo pecado. Se fosse, os padres e outros eclesiásticos "mais próximos de Deus" não o fariam, certo?

Certo!?

Tem coisas que não mudam...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

"Católicas pelo direito de decidir" e o CMI de sempre...

Hoje tem artigo no CMI sobre a luta pelo direito de escolha (a respeito do aborto) e sobre as "católicas pelo direito de decidir". O artigo tem links legais, mas mais da metade dos comentários está lotada da usual tacanhice, dislexia e estupidez que grassa os comentários do CMI. De qualquer forma, achei que valia a pena chamar atenção para a matéria, já que o tema é relevante e me parece muito urgente.

Mas cá entre nós, meus amigos...
Toda ajuda é necessária à causa do direito de escolha, mas me soa um tanto esquisito quando seguidores da igreja católica não são completamente idiotas a respeito do tema (de fato, quando não o são a respeito de QUALQUER tema!). Talvez seja preconceito meu, já que estou acostumado a ver a idiotice associada aos católicos desde que me entendo por gente. Mas sempre há quem se supere na estupidez (mesmo não sendo cristão), e sempre há quem nos surpreenda quando dele nada esperamos.

Se as "católicas pelo direito de decidir" lutam pelo direito da mulher de decidir sobre sua vida e seu corpo, acho válido e bato palmas. Mas não achem que isso me faz admirar mais a religião pela qual se definem. Elas estão apenas fugindo da idiotice da maioria do rebanho e lutando por coisas reais. Isso para mim parece taaaão contrário aos atos daquela instituição cancerosa por elas seguida que até me faz perguntar por quê diabos elas ainda permanecem sendo (e se definindo) católicas...

Tem momentos em que eu realmente não entendo as pessoas.

Pronto, dei meus dois cents sujos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A orquestra dos legumes e a Divina Comédia "óperaróqui"...

Se na Áustria tem gente fazendo música clássica com legumes, nas terras sapequinhas do Vaticano tem partidários do "padremarcelismo" pensando em fazer uma ópera-rock com a Divina Comédia.

Êeee Goiás travado! Ai, oioi!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Eu juro que tento...

Eu juro que estava tentando parar de discutir religião -- ao menos nos 'onlines' -- mas vejam só as coisas que me aparecem...

Quem fala o que quer, escuta o que não quer.


Pronto. Respirei fundo. Agora podemos voltar ao trabalho.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Da hipocrisia, do filme queimado e das fotos rasgadas...

Enquanto os padres italianos pressionam para o "exorcismo" de gays, e reacionários do mesmo país protestam contra o direito dos indivíduos de se relacionarem com quem e como quiserem, ninguém fala dos padres que abusam de crianças debaixo do total manto de silêncio do Vaticano e dos fiéis cristãos. Enquanto alguns tem a coragem de admitir o que são -- livres, felizes, gays -- e o que fazem de suas vidas, outros se escondem por trás da batina e das cortinas de uma instituição cada dia mais envergonhada, anacrônica e hipócrita, e violentam de modo torpe a integridade e dignidade de crianças. Me digam, meus amigos, o quê é obsceno. Acho que não estou entendendo mais nada.

Como diz Palmira Silva em seu artigo de fevereiro de 2006.

"(...)Por outro lado são necessárias leis que punam o encobrimento de casos de abuso sexual, a prática corrente na Igreja Católica. As dioceses continuam a lutar para esconder a real dimensão da pedofilia no seu seio, quiçá tentando passar a opinião do actual Papa que afirmou «Estou convencido que as notícias frequentes sobre padres católicos pecadores [pedófilos] fazem parte de uma campanha planeada para prejudicar a Igreja Católica», mas certamente obedecendo ainda às determinações do actual Papa, debitadas em 2001 ainda como Cardeal Ratzinger, que ordenou ficarem em segredo pontifício todos os casos de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes católicos, ou seja, ameaçou de excomunhão todos os eclesiásticos que revelassem às autoridades civis quaisquer detalhes sobre casos de pedofilia.(...)

E depois ainda reclamam quando Sinéad O'Connor, que é uma das malucas mais adoráveis que já ví (e que foi ela mesma violentada por um padre em sua infância), rasga uma foto do Papa em repúdio à hipocrisia católica frente à violência sexual cometida dentro das igrejas pelos próprios sacerdotes.



Ora! Coloquem a mão na consciência! Enquanto algum fulano ainda agredir ou discriminar um cicrano por este querer a liberdade de ser quem é e ser feliz, enquanto um beltrano ainda se sentir no direito de violentar uma criança na escuridão de uma igreja por saber que nada acontecerá e que seu chefe e sua igreja o protegerão, eu acho que não será surpreendente que alguém queira rasgar a foto do papa. É apenas um grande filme queimado, daqueles que a gente só pode mesmo rasgar e jogar fora.

Quem defende uma instituição responsável por tantas guerras, violência e dor, e que acoberta milhares de pedófilos escondidos por trás do manto de sacerdote, não tem o DIREITO de acusar ninguém de perversão ou obscenidade. Amar alguém do seu sexo, ou pessoas de ambos os sexos, e ter a coragem de assumir isso para um mundo tão preconceituoso é algo belo, e não obsceno. Obsceno é matar, machucar e violentar crianças e ainda se fingir de santo.

Por estes e outros motivos que, por vezes, eu acho que este mundo está de cabeça para baixo...