Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Fernanda Lizardo, jornalista e testemunha no caso do assassinato em Ouro Preto, dá sua versão do caso.

Como havia prometido no final do último post sobre o assunto, tentei entrar em contato com a Fernanda Lizardo para saber mais sobre as afirmações feitas por ela naquela comunidade do Orkut, as quais também reproduzi no referido post. Consegui entrar em contato com ela primeiro pelo Orkut e depois por email. Reproduzo abaixo (na íntegra) a resposta dada pela Fernanda às minhas perguntas sobre o crime e o que rolou depois de fato (e na mídia) a respeito da história.

2008/1/22 Fernanda Lizardo de Sousa <********@hotmail.com>:

Oi, Daniel

Confirmo, sim, todas as informações passadas no meu texto de 2005.

Quanto ao caso, ele está parado na Justiça e é bem provável que seja arquivado por falta de provas. Os últimos depoimentos de testemunhas aconteceram no final de 2006 (acho que foi isso mesmo; vou procurar a intimação que tenho em casa para checar a data certa). Eu fui uma delas. Inclusive, durante meu depoimento, o próprio juiz que me ouviu (aqui no RJ) disse que o inquérito não fazia sentido algum, pois dizia que "alguém morreu", mas em momento algum apontava diretamente "quem matou".

Há uma série de erros que a imprensa não divulga. Os acusados do crime, por exemplo, forneceram material para laudos de DNA, mas o Ministério Público nunca solicitou a exumação do corpo para fazer comparações. Não foi registrada nem mesmo a coleta de material sob as unhas da vítima, para encontrar fragmentos de possíveis provas (como pele do assassino, por exemplo).

Quando estava em Ouro Preto (morei lá na época em que o crime ocorreu), estive na delegacia várias vezes e tive acesso ao inquérito. Ele foi aberto pelo delegado Adauto Corrêa (já foi um verdadeiro espetáculo circense desde o início, cheio de apurações mal feitas. Como disse antes, até apreender livros de Nietzsche alegando serem obras de "magia negra" eles apreenderam.)

Na época acompanhei também a cobertura da imprensa e pude ver repórteres deturpando declarações sem o menor pudor.

Conheci várias pessoas que tiveram contato com Aline antes de sua morte (incluindo aí quem fez o reconhecimento do corpo).

A questão é que a polícia se deixou levar pela posição em que o corpo estava para supor que havia um "ritual satânico" por trás do caso. Como coincidiu também que parte das pessoas ligadas à vítima jogaram RPG na tarde anterior à morte da Aline, montou-se toda a palhaçada.

Quem viveu na cidade sabe como funcionam as coisas lá. E sabe que, por um punhado de maconha, as meninas fazem muita coisa (diz-se, inclusive, que "não existe mais puteiro em Ouro Preto porque não vale a pena pagar por algo que as estudantes fazem de graça"). Aline consumiu drogas durante todo o período em que esteve na festa. E estava sem dinheiro, tanto que ela nem tinha onde dormir e planejava ficar na rua, virando noites até o dia de ir embora (pelo teor de responsabilidade da decisão, não é surpresa que tenha trocado sexo por um baseado). Ela conseguiu hospedagem gratuita em uma república e, no dia em que morreu, preferiu deixar que a amiga e a prima que a acompanhavam fossem embora mais cedo, preferindo ficar sozinha nas festas. "Coincidentemente", a igreja onde ela foi morta é exatamente no caminho que levava à república onde ela dormiria. Ela já estava indo para casa quando foi abordada para "acertar a dívida".

Se você quer minha opinião sincera, acho que o caso não vai para frente. Mesmo porque, depois de tanto tempo, é quase impossível coletar provas técnicas relevantes que levem ao verdadeiro assassino – o próprio circo da polícia favoreceu a fuga. A pessoa que matou Aline sorri aliviada e agradece.

É provável que o caso seja arquivado e creio que dificilmente vá prejudicar o meio do RPG.

Abraço,
Fernanda.

--

www.cooper.blig.com.br


Acredito que as afirmações da Fernanda não só mostram o falacioso circo promovido à volta do crime por parte da mídia e das autoridades locais (e a incompetência das mesmas em fazer justiça), como também sugere que há uma "agenda" por parte de alguns grupos que pretendem denegrir a imagem dos RPGs e dos RPGistas. Não foi desta vez novamente, meus caros.

A conversa sobre o tema nesta comunidade do Orkut também nos leva a crer que não será desta vez que os inimigos do RPG (e amigos dos holofotes midiáticos) vão levar a melhor. Não só a proposta de proibição não se sustenta em seus próprios argumentos falhos, como também seria necessária uma construção de caso muito mais responsável e polpuda antes que alguém pudesse intervir em nosso direito de jogar nosso bom e velho RPG.

Em suma, tudo se tratou de mais uma lamentável (e perversa) tentativa de associar um lamentável crime ao RPG, para com isso perseguir o jogo e seus praticantes. Por sorte a coisa deu com os burros n'água e as pessoas por trás desta jogada estão pagando o maior micão. De qualquer forma, se tiver mais notícias sobre a história, conto para vocês.


UPDATE:
O crime e a tentativa de proibição também são assunto neste blogue aqui, e na comunidade do Orkut sobre Changeling.

Sobre a proibição de RPGs e jogos de computador.

Refletindo sobre as lastimáveis notícias de que um juiz de Goiás quer proibir o CS e o EverQuest no Brasil, enquanto um juiz de Minas Gerais tenta fazer o mesmo com o Vampire: the Masquerade e outros RPG's, pensei que seria oportuno tecer mais algumas considerações sobre o tema.

Os motivos para a violência parecem insondáveis para alguns. Outros parecem ter as mais variadas respostas prontas para a questão. Há quem diga que somos naturalmetne violentos. Há quem diga que as tensões da superpopulação urbana, do trabalho frenético, do trânsito, da dificuldade de se sustentar hoje em dia, e a própria violência das grandes cidades gera um efeito cascata que resulta em violencia. Mais e mais violência... em um caudal que parece sem fim.

Muitas são as formas que nós, cidadãos urbanos, buscamos para tentar relaxar de nossas tensões, e, quiçá, não nos tornarmos também estressados e violentos. Alguns jogam futebol, outros nadam ou praticam artes marciais. Alguns vão ao cinema, outros a shows e festas. Alguns passeiam no parque enquanto outros assistem televisão. Alguns jogam videogames. Alguns outros, jogam RPGs. Todos são gente, com estudos, trabalho, compromissos, relações que os sustentam mas por vezes dão trabalho, alegrias e tristezas, dores e prazeres.

Entre estes cidadãos urbanos, há alguns que explodem em violência, ou mesmo a tem como parte de seu cotidiano. Latrocidas, estupradores, assassinos, maridos que espancam suas mulheres e seus filhos, brigões de plantão... pessoas que se destemperaram, ou que pararam de se importar com o próximo a ponto de achar que está tudo bem em violá-lo, ferí-lo ou tirar sua vida. É confortável pensar que estas pessoas são bem diferentes de nós. Mas a verdade é que elas não são.

É claro que o fato de que eu e, espero, você que está me lendo, não temos a menor intenção de bater em ninguém, matar ninguém nem violentar ninguém nos difere de alguma forma das pessoas que fazem estas coisas. Mas há uma série de coisas que nos assemelha a eles. Assistimos televisão (ou não), gostamos de alguns filmes, detestamos outros, gostamos ou não de futebol ou de carnaval, bebemos ou não bebemos, fumamos ou não fumamos, cheiramos ou não cheiramos, jogamos RPG ou não jogamos. Estas coisas não nos diferem deles. Por outro lado, nos aproximam, e não podem de forma alguma ser pensadas como algo que os torna violentos (embora eu goste de pensar que estes passatempos e hábitos nos permitem ser mais calmos e pacíficos).

Como eu dizia, vivemos tempos violentos. Boa parte daquilo que a televisão nos mostra, assim como boa parte dos enredos de cinema, são recheados de violência gráfica ou velada. Assim também é com vários segmentos musicais, histórias em quadrinhos e livros, jogos de computador e RPGs. Agora, esta violência que ali se encontra não é causa, e sim reflexo, da violência de nossos tempos. Culpar os reflexos de nossos tempos -- da estética que estes tempos incutem em alguns de nós -- pela violência que grassa em nossos tempos é como culpar um espelho pela feiúra que reflete. É absurdo. Ainda assim, há algumas pessoas que estão fazendo exatamente isso. E o que é pior, algumas delas foram escolhidas e empossadas com o poder de decidir muitas coisas sobre nossa vida -- são juízes, pessoas que deveriam ter a visão muito clara sobre o que estão fazendo, ou ao menos assumir a própria ignorância e tentar se informar antes de soltar uma decisão sobre a sociedade.

Novamente, não é isso que está acontecendo. Nas decisões ligadas à proibição daqueles jogos de computador e daqueles RPGs, o que pude notar foi uma grande ignorância por parte dos redatores dos textos, somada à distorção de certos fatos e a induções falaciosas que fariam meu velho professor de Ética perder seus últimos cabelos. E é agora que toda aquela minha introdução entediante lá em cima começará a fazer mais sentido para vocês.

Já está mais do que provado que o tal assassinato ocorrido em Ouro Preto não foi motivado -- e na verdade não tem nada a ver -- com o jogo Vampire: the Masquerade. Nada indica realmente que o RPG tenha qualquer conexão real com este ou qualquer outro crime. Não há provas, nem mesmo as mais circunstanciais. O que há é uma indução falaciosa -- Vampire é um RPG violento, o(s) rapaz(es) cometeu(ram) um crime violento, logo deve haver uma ligação. Não sei o que vocês pensam, mas para mim esta afirmação se assemelha a dizer que já que o Brasil tem muitos negros, e todos os países pobres tem muitos negros, então a pobreza do Brasil deve ser causada pela presença de muitos negros. Infelizmente já ouvi as duas afirmações, e elas me soam igualmente absurdas e ultrajantes. Mais ultrajantes ainda quando vocè pensa que nem o Brasil é um país pobre, nem o Vampire: the Masquerade incentiva o assassinato e a violência (nem sequer por parte dos personagens controlados pelos jogadores) em momento algum.

Sem entrar em mais detalhes sobre como o Vampire é um RPG que aborda a violência mas em nenhum momento a glamouriza ou estimula nem sequer dentro de sua ficção, acho válido ressaltar que a grande maioria dos jogadores de RPG que conheço são pessoas pacíficas, algumas até meio pacíficas demais. O mesmo se aplica a quase todos os fãs de Death Metal que conheço, indiferente da violência das letras das músicas que gostam. O mesmo se aplica a quase todos os jogadores de Counter-Strike que conheci. Embora alguns deles tenham desenvolvido um certo facínio por tiroteios virtuais, duvido muito que algum deles gostaria de estar em um tiroteio real. Seria mais fácil dizer que jogadores de Paintball, que efetivamente atiram balas de tinta uns nos outros (diferente dos jogadores de CS que só apertam botões) podem se tornar atiradores loucos, e isso seria também uma séria fuga da realidade.

Por outro lado, o álcool pode ser apontado como responsável ou potencializador de muitas condutas violentas, mas ninguém questiona que proibir o álcool -- uma droga popular que é querida das classes de A a E -- seria absurdo e injustificado. Por quê, então, proibir certos RPGs e certos jogos de computador que NADA tem a ver com a violência de nossos tempos? Mais do que absurdo, isto me soa uma tentativa obscurantista de quebrar espelhos ou atirar às cegas contra um problema que não se entende ou, pior ainda, uma profunda ignorância e falta do que fazer por parte dos autores das referidas decisões judiciais.

Associar o criminoso com seus hábitos que o aproximam de nós é, por indução, afirmar que somos criminosos por gostar de formas perfeitamente pacíficas de diversão. Isso não apenas é absurdo, mas é também ultrajante.

Sem mais entediar vocês com minhas divagações, acho que é hora de agir. Se você gosta de RPGs ou de jogos de computador, sejam eles violentos ou não, e se você acha que quebrar espelhos não resolve o problema daquilo que eles refletem, ou se acha um absurdo cercear os modos de diversão de nossa juventude, junte-se a nós em nossa causa. Diga NÂO à proibição do Vampire: the Masquerade e do Counter-Strike em seu blogue, fotologue, flickr, orkut, twitter e onde mais puder. Mande emails para as varas criminais responsáveis por estes absurdos. Lutemos pelo nosso direito de nos divertirmos do modo saudável -- mesmo que incompreensível para algumas bestas -- que bem entendermos.


P.S. Em tempo, o sr. Fernando Martins, autor da peça em que se tenta proibir o jogo Vampire: the Masquerade, entre outros, é o mesmo promotor que vem infernizando a vida dos jogadores de RPG desde 2001, época do crime de Ouro Preto. O cara deve ter problemas com RPG, ou então deve faltar-lhe assunto para nos perseguir durante 7 anos tentando proibir uma de nossas diversões.

P.P.S. Ainda sobre o caso do assassinato de Aline Silveira Soares em Ouro Preto no ando de 2001 (parte do que motivou a sanha do sr. Fernando Martins contra o RPG), há um comentário bastante elucidativo em uma comunidade do orkut feito pela hoje jornalista Fernanda Lizardo, o qual reproduzo abaixo:

"Eu tive acesso ao inquérito
Não jogo RPG (até gostaria de aprender) e acompanhei de perto o caso de Aline Silveira Soares (inclusive, tive acesso ao inquérito). Confesso que fico chocada com a igmorância da polícia ao associar o caso com o jogo de RPG.
Para vocês terem uma idéia, a polícia de Ouro Preto apreendeu livros de Nietzsche numa república, alegando ser de "Magia negra".
Também apreenderam uma fita "descrevendo um assassinato", que na verdade nada mais era do que uma gravação de um monólogo para o MoMu, Festival de músicos e monólogos, organizado todos os anos pelos alunos do curso de artes da UFOP.
Vejam a versão da polícia para o caso: "Aline Silveira Soares pulou o muro da Igreja de Nsa Sra das Mercês no centro histórico de Ouro Preto (ou seja, na parte mais movimentada da cidade), com mais 5 pessoas, jogou RPG por horas (sendo que teriam de iluminar o cemitério para isso), bebeu, usou drogas (façam-me acreditar que uma pessoa drogada consegue falar baixinho), reve relações sexuais no cemitério, foi morta, e depois, os 5 algozes pularam o muro de volta.. E tudo isso SEM CHAMAR A ATENÇÃO DE NINGUÉM!!
Ah, faça-me o favor!
A cidade inteira sabe que, na tarde antes de morrer, Aline foi vista discutindo com um indivíduo, que NUNCA FOI INDICIADO pela polícia. A questão é simples: ela não tinha dinheiro para pagar as drogas que consumiu (tanto que ela pretendia dormir NA RUA com as amigas, e só se salvou dessa fria porque uma boa alma lhe ofereceu abrigo). Na hora de voltar à república (a Igreja de Nsa Sra das Mercês, onde ela foi morta, fica no caminho), foi abordada pelo indivíduo cobrando a grana das drogas. Como não podia pagar, aceitou ter relações com ele para pagar a "dívida"(no inquérito consta que ela tirou as roupas por livre e espontânea vontade e que não havia indícios de esperma nos genitais. Nenhum estuprador tem tempo de colocar preservativo, né?). No inquérito também consta que, quando ela levou o primeiro golpe de faca, estava de cócoras, ou seja, na posição vulgarmente chamada de "de quatro".
Muito provavelmente o homem tentou forçar sexo anal e ela recusou, o que o levou a golpeá-la uma vez (todo traficante anda armado, nem que seja com uma faquinha). Como ele já havia feito a bobagem de feri-la - e não dava para voltar atrás - não tinha outra opção, senão matá-la.
Aí vocês perguntam: mas porque o corpo dela estava em posição de crucificação e com sangue esfregado em todas as partes? Simples! O indivíduo que a matou quis despistar a polícia (e estava bem drogado também, porque nesse país até traficante se vicia). Qualquer pessoa no mínimo inteligente que comete um crime, faz de tudo para não deixar pistas. E o assassino de Aline conseguiu!
Agora, por incompetência da polícia local, pessoas inocentes estão sendo indiciadas, estão associando o RPG injustamente ao crime e o assassino está rindo à toa a cada vez que lê os absurdos que são publicados pela imprensa!
Eu pude acompanhar várias entrevistas e percebi o quanto os repórteres (principalmente da Rede Globo e do jornal Estado de Minas) deturparam as informações passadas a eles.
Esse crime não tem nada a ver com RPG, mas com o pagamento de uma dívida de drogas.
Perdoem-me a longa mensagem, mas não dava mais para ver as coisas acontecendo sem falar nada.
Abraços!"

Estou tentando contato com a Fernanda para saber mais sobre a história, já que até hoje tudo que posso encontrar no Google sobre o tema continua culpando o RPG pelo crime, embora já tenha ficado provado que o jogo nada tinha a ver com o caso.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Depois da perseguição ao CS e ao EverQuest, agora tem juiz mineiro querendo proibir o Vampire: the Masquerade e o Illuminati

Continuo blogando via "email-blogging", mas parece que a coisa está funcionando (segundo o meu feed do FeedBurner)

O Hamithat deu a dica em um comentário, e eu fui, mesmo com o sono, dar uma olhada no que se tratava. E não é que tem mesmo alguém na Procuradoria da República de Minas Gerais tentando proibir os RPG's "Demonio: A Divina Comédia", "Vampire: the Masquerade" e "Illuminati" no Brasil? Pelo visto a ignorância, tacanhice e falta de assunto de alguns de nossos juristas começa a ultrapassar os limites do absurdo. E para variar as vítimas da bobagem jurídica são inocentes, enquanto os verdadeiros criminosos (com ou sem colarinho branco ou de qualquer cor) continuam a rir do rosto cego da Justiça por aí. Até parece coisa de cenário de RPG, só que não tem graça.

Abaixo, algumas partes da "pérola jurídica" exposta no site com o nome de ACP - Retirada dos jogos RPG Demônio - A Divina Comédia, Illuminati e Vampiro - A Máscara.

"Esse é justamente o cerne da presente ação: convenceu-se o
Ministério Público Federal, a partir de procedimento administrativo cível
instaurado no âmbito desta Procuradoria da República em Minas Gerais1, que
estão sendo comercializados e distribuídos jogos de RPG (Roleplaying Game)
que atentam contra toda a orientação legal de proteção e defesa da criança e
adolescente na formação de sua personalidade. Vários destes jogos incitam
a violência, disseminam o prazer pelo satanismo, por perturbações
mentais, imperfeições físicas, pela morte etc.
Na totalidade dos casos, o
Poder Público permanece inerte a tais fatos. Estes jogos assassinos não
repercutem direta e imediatamente sobre a pessoa. Atingem sua estrutura
psicológica, sua formação mental, distorcendo os valores socialmente
exaltados, e vangloriando os socialmente repugnáveis, tidos pelo
ordenamento jurídico como ofensivos.
"

" Caso uma propaganda fosse reproduzida propugnando pela
disseminação racial, fatalmente seria ela imediatamente retirada de mercado
e seus autores punidos. Estas modalidades de RPG estão a passar
mensagens tão lesivas à sociedade quanto o exemplo acima, vindo a
repercutir diretamente no comportamento de certos indivíduos e grupos
sociais, incitando e reforçando atitudes agressivas, sem que disto o Estado se
aperceba.
De tal sorte que, tais jogos virtuais estão sendo utilizados como
instrumentos nocivos à educação de crianças e adolescentes.
6. Necessária é a retirada desses jogos violentos do mercado,
compelindo o Poder Público a efetuar uma fiscalização sobre os mesmos e
velar plenamente pela educação e proteção de crianças e adolescentes."

7. O jogo VAMPIRO – A MÁSCARA (sangue, poder,
perturbações mentais, louvor a defeitos físicos, armas, drogas,
vícios, rituais diabólicos, disputas físicas, morte etc. – expressões
retiradas do próprio manual –), cuja proibição se requer em sede
de liminar nesta ação, tem sido apontado como a causa de
homicídio hediondo recentemente ocorrido na histórica cidade
mineira de Ouro Preto
, amplamente noticiado pela imprensa e de
larga comoção social, pelos requintes de crueldade. Na madrugada
do dia 14 de outubro do corrente ano, teria o principal suspeito do
crime, interpretando um personagem do jogo, denominado "Anjo da
Morte", apunhalado a vítima com 15 (quinze) facadas, após o que a
colocou com os braços abertos e um pé sobre o outro, como se tivesse
sido crucificada. Ainda, pintou todo o seu corpo com o próprio sangue.
O cadáver foi encontrado no cemitério localizado nos fundos da Igreja
Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia. Teria sido a vítima
assassinada após a ficção, proposta pelo jogo, transformar-se em
repelente realidade.
Os fragmentos dos depoimentos extraídos do
inquérito policial instaurado pela autoridade policial de Ouro Preto, na
oportunidade juntados (doc. 5), a fim de apurar a autoria do delito,
claramente demonstram a estreita ligação do famigerado jogo com o
crime e sua funesta influência sobre a mente..."

E a besteirada não tem fim. Vale a pena ir lá ler a peça inteira (em PDF). Mais horrível do que qualquer RPG de terror e mais paranóica do que qualquer aventura de Illuminati é a sanha do autor desta peça em perseguir os RPGs como a causa de quase todos os males do mundo, aproveitando para novamente taxar os RPGistas de assassinos psicóticos e adolescentes doentes.

É hora de mostramos novamente a nossa voz, e repudiar este ridiculo e injusto ato perpetrado pelo autor desta peça contra o nosso grupo. RPGistas não são assassinos, e suas diversões não os tornam violentos ou perturbados. O que perturba, lesa e mata é a ignorância. que parece ter ultrapassado as portas da rua e adentrado o gabinete de alguns juristas.

Amanhã, com mais tempo, vou repercutir a conversa nas comunidades do Orkut que defendem os RPGs, e dar uma sacada nas conversas blogosféricas sobre o assunto. Logo que der, trago mais informações também sobre a estapafúrdia proibição ao CS.

Agora eu vou dormir, enquanto não decidem que sonhar pode nos tornar assassinos violentos.
Sabe-se lá o que pode sair da cabeça dos juízes e da bunda dos bebês?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Proibição do CS e do Everquest: um caso de falta de olhar para o próprio umbigo.

Serginho Amadeu cantou a pedra, rápido no gatilho como sempre, e a Lu Freitas ecoou e mandou ver ná no LiveStream do CampusParty 2008: Tem um juiz de Goiás que está tentando (e, pelo visto, conseguindo) emplacar uma proibição da venta dos jogos CounterStrike e EverQuest em todo o território nacional. A alegação? Os jogos tornariam os jovens mais violentos.

Ora, mas além do absurdo de uma proibição baseada em argumentos pífios que não se sustentam, algo que mais parece censura daquilo que não se entende ou não se gosta do que medida em prol da população, esta proibição mostra o quanto certos juristas e parlamentares não sabem olhar para o próprio umbigo.

Sem mais frases longas (ufa!), quem pode falar em jogos que tornam as pessoas mais violentas enquanto vive-se em um país em franco caos social? Quem pode olhar feio para as crianças dando tiros virtuais em LAN-Houses ou no conforto de suas casas quando tantas crianças de periferia tem como única chance de ter alguma coisa na vida a carreira de soldado do tráfico, onde os tiros são de verdade e o jogo termina quando se leva o primeiro "frag"? Que sentido faz proibir jogos eletrônicos, dizendo que eles "tornam a juventude mais violenta", quando as causas e os sustentáculos da violência estão em todos os lados e, cá entre nós, só uma classe de privilegiados tem alcance a estes jogos.

Mas então estão preocupados com a violência na classe média? Então que tal fechar as academias de artes marciais -- já que alguns praticantes delas podem se tornar violentos, bem mais do que os gamers que gostam de dar uns tirinhos? Que tal proibir a venda de bebidas alcoólicas em todo o território nacional -- já que o álcool pode ser responsável por muita violência? Que tal... que tal... que tal parar de merda e perceber que não são as academias, o álcool e muito menos os jogos os responsáveis pela atual situação de violência que assola nossa população, das classes A à E?

Em suma. A decisão do juiz não é apenas inócua -- tremenda falta de assunto e vontade de trabalhar -- mas é também absurda e desrespeitosa para com a população. Se é proibido dar tiros virtuais, tudo que vai nos restar é esperar ter a sorte de conseguir escapar dos reais. E, cá entre nós, um não tem nada a ver com o outro. Uns são divertidos. Os outros, matam.

Mas é a ignorância, e não os jogos de computador, que mata.
Abaixo a proibição do CS e do EverQuest.

Mande seu email para a 17a Vara Federal de Goiás expressando sua opinião a respeito da proibição destes jogos. Talvez eles nos ouçam, se souberem mais sobre ler emails do que sobre comportamento de juventude e jogos eletrônicos.

O email da 17a Vara é: 17vara@mg.trf1.gov.br

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Rapidinho...

Como era de se esperar, o espertinho Renan Calheiros já se prepara pra sair de fininho...

O cheiro de pizza na esplanada está, como de costume, insuportável. Será que o coroné Roriz também vai partilhar da pizza?

Será que eles não tem vergonha?



Tem horas que o parlamento brasileiro me enche de vergonha do alheio.