Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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quinta-feira, 24 de maio de 2007

Eu também acho que assim não dá!

Ecoando o post do copoanheiro Paulo Bicarato, que por sua vez ecoa a "Mensagem do Pilgeróvski numa das listas":

Oi, pessoal.

Não sei se vocês estão a par, mas o senador Eduardo Azeredo entrou com um substitutivo projeto de lei no Senado que tipifica 11 crimes na Internet. O problema é que o projeto de lei tem alguns absurdos, como esses listados pelo site SaferNet:

http://safernet.org.br/twiki/bin/view/SaferNet/Noticia20070521123629

http://safernet.org.br/twiki/bin/view/SaferNet/Noticia20070514161351

Mais informações sobre o projeto podem ser visto na SaferNet também:

http://www.safernet.org.br/twiki/bin/view/SaferNet/PLSEduardoAzeredo

O Marcelo Träsel, do coletivo Insanus, postou no seu blog sobre as falhas que esse projeto de lei apresenta:

http://www.safernet.org.br/twiki/bin/view/SaferNet/PLSEduardoAzeredo

Mas o caso todo é o seguinte: acaba de ser divulgada a pauta da reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado de amanhã e a análise e *votação* do substitutivo foi incluída na pauta de última hora. Podem conferir:

http://webthes.senado.gov.br/sil/Comissoes/Permanentes/CCJ/Pautas/20070523RO016.rtf

Ou seja: um projeto de lei polêmico, que restringe liberdades individuais, que abre espaço para *justiceiros virtuais*, que pede que os provedores mantenham por três anos os registros de acesso de seus clientes, entrou assim sem mais nem menos na pauta de votações, sem dar espaço para a sociedade discutir se tal lei é válida ou não.

Assim sendo é hora de, de novo, a sociedade pressionar para que não se aprove essa lei. Como? Através de blogs, emails, enfim, levantar a poeira.


Sabe quando você lê um projeto de lei e sente náuseas ao perceber que, ou alguém está fazendo muita merda sem querer (e pela pura ignorância digital que grassa entre muitos legisladores) ou, pior ainda, estão fazendo muita merda propositalmente...?

Tá na hora de lutar contra mais esta manobra obscurantista (ou mal intencionada) contra a liberdade da rede.

Tamo junto.


UPDATE:

O Zé Murilo escreveu uma excelente matéria para o Global Voices, tratando deste tema e reunindo algumas vozes da blogosfera brasileira sobre o assunto.

Sérgio Amadeu, sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e ativista de software livre, também escreveu sobre o assunto em seu blogue e em matéria para Centro de Mídia Independente - Brasil, que também apresenta outra matéria sobre o assunto.

Diploma de jornalista para quê, se ninguém aprende a ser jornalista na escola?

A Patrícia Köhler do blogue Cintaliga escreveu um post matador (e muito verdadeiro) sobre a realidade dos cursos de jornalismo e a inexplicável (e bem suspeita) necessidade de diploma para se exercer a profissão. Diploma para quê, se boa parte dos estudantes de jornalismo ou já nasceram para coisa (e seriam bons nela mesmo sem curso algum, como o são muitos blogueiros, entre os quais meu irmão) ou não vão levar jeito nenhum para o trampo de jornalista/comunicador nem depois de uma lavagem cerebral?

Segue um trecho do post da Patrícia (que eu encontrei por conta do Overfeeds):

"(...)Na verdade para ser jornalista é preciso ter senso crítico, ser analítico, ter MUITA disposição para enfrentar adversidades e problemas de toda ordem (imagina, alguém que tem preguiça/medo de pegar um ônibus num bairro mais distante do seu, de pedir informação, de apenas falar com um morador de rua tem mesmo capacidade – nem digo intelectualmente, mas principalmente estrutura emocional - para chegar a cargos altos, sejam eles em redações ou como correspondentes em lugares ou situações nem sempre aprazíveis?) e mais uma série de atributos que ou você nasce com eles ou espera a próxima encarnação e conta com a sorte.
Antes dos chatos de plantão me falarem "se reclama da universidade particular, por que não vai para uma pública?", como já fizeram anteriormente em conversas por aí, eu digo que já prestei na USP e não passei, e não tenho a menor vergonha disso, haja vista a relação canditado/vaga daquele curso. Não prestei Unesp ou mesmo univesidades fora do estado, e isso eu realmente lamento por não ter ao menos tentado.
Mas o problema, no meu entender, não reside apenas nisso. Há elite - e como há! – nas faculdades públicas, resta saber se eles agem como os alunos das particulares, com eventuais ataques de criança que se perdeu da mãe num supermercado, ou se lá eles resolvem agir de forma mais adulta e fazer valer os vários meses – às vezes mais de ano - de empenho nos cursinhos.
Mas eu JURO que queria saber o porquê do diploma para se exercer o jornalismo. JURO. Ninguém até hoje me deu respostas plausíveis. Quem sabe você, querido leitor, me convença?
Ninguém me ensinou a escrever na faculdade, muito menos a ler e ser criteriosa. Ninguém me imbuiu de coragem para ir a lugares sozinha com gravador e bloco de papel em punho. Ninguém fez recrudescer em mim a curiosidade, o interesse pela leitura, por ler artigos na Internet, em revistas, ler livros, por gostar de conhecer pessoas e suas vivências.
No dia em que um curso promover isso em um único aluno, talvez eu me renda.(...)"

Vai lá ler o post inteiro no blogue da Patrícia, pois ela parece saber muito bem do que está falando. Concordo com cada palavra do que ela disse. Não preciso, portanto, nem comentar mais nada sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

Por outro lado este texto me fez pensar nas consequências (talvez até mesmo benéficas, por um certo ponto) desta proibição. Se por um lado você tem que ter um diploma para ser considerado um "jornalista", não é necessário ter diploma algum para ser blogueiro. Pelo contrário da tendência controladora e centralizadora (e mandona) da industria midiática tradicional, as midias alternativas que são a base da blogosfera e do jornalismo cidadão não discriminam cor, classe, credo, formação ou opinião. A única prova de fogo do blogueiro é saber se comunicar, ter algo a dizer e saber dizê-lo, zelar pela qualidade de sua informação e apresentação e, sobretudo, saber conversar. Não é justamente uma boa parte do que um jornalista deveria ser? Pois então, meus amigos jornalistas com ou sem diploma: vamos blogar!

E que se dane esta lei sem sentido, ou os jornais e meios de comunicação que se prendem a ela e não reclamam. Tudo isso está ficando um bocado demodê. Proibições como estas são um sinal de um velho "modo de fazer" que está em decadência. O jornalismo cidadão está crescendo, e amadurecendo, para tomar seu lugar.
(e foi mais ou menos isso que eu disse lá no comentário que deixei no post da Patrícia)

Quem viver e blogar, verá.



Ah, você ainda não sabe o que é Overfeeds?
Então leia isso aqui, oras!

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Todos os caminhos (escusos) levam ao Congresso?

Diz O Globo que as investigações (da Operação Furacão, sobre a máfia dos caça-níqueis) "podem chegar até o congresso". Infelizmente, isso não é mais nenhuma novidade. Tenho para comigo que quase qualquer grande crime ou mau-caratismo de nossa República possa ser traçado até a pretensa santa-casa da Democracia brasileira se a polícia (e os jornais) investigarem bem. Com jeitinho, qualquer coisa chega até o congresso (até mesmo o Bispo Crivella, que agora inventou de achar que igreja evangélica também é cultura).

Sou só eu que tenho a impressão de que tem algo muito errado com o governo do meu país?


p.s. enquanto isso, em outro país um pouco mais ao norte e um pouco mais maluco que o nosso, o tal Cho deu uma boa mãozinha para que a mídia marrom o pegue para cristo da maluquice norte-americana.

quarta-feira, 28 de março de 2007

a falta de assunto divertida e a falta de assunto enfadonha...

Um belo dia (ou noite, pois nunca dá pra saber se é dia ou noite quando se está no metrô) um cara resolveu colocar uma câmera na cabeça, tirar o seu par de esquis do armário e descer a escada rolante de uma estação de metrô londrina sobre seus esquis. Isso é pura falta de assunto, mas foi divertido para ele e para quem observava.

Horas depois, a administração do metrô deu um piti e resolveu insistir para que a polícia tomasse "as medidas mais sérias possíveis" contra o cara ou qualquer um que repetisse o feito. Isso é pura falta de assunto, e não foi divertido para ninguém.

Se vai fazer merda, meu amigo, faça algo que seja divertido. Kudos para o esquiador, "vão procurar o que fazer!" para a administração do metrô londrino.

Vejam o vídeo:



Agora me digam... isso não parece ter sido divertido?

segunda-feira, 12 de março de 2007

Quando o primeiro mundo realmente mostra seu valor...

Enquanto um projeto de lei prevê a prisão de "homossexuais" visando “proteger os valores e a moral da sociedade” na Nigéria, as escolas inglesas começarão a trabalhar em sala contos de fadas e outras obras literárias que abordam com naturalizade o amor entre dois indivíduos do mesmo sexo.

Tem horas em que o primeiro mundo realmente impõe respeito. E, veja bem, mesmo na Inglaterra nunca faltaram católicos (e outros bichos) para emperrar a evolução social. É tudo uma questão de respeito ao ser humano...

Enquanto isso ainda existem escroques eclesiásticos aqui no Brasil fazendo biquinho para a camisinha. Nem o presidente Lula, que anda namorando até a mais nojenta direita do Brasil, engole esse papo bobo bispal. Ô povinho atrasado (esses cristãos...).

Mas não tem problema não. Ainda acredito que um dia a gente sacode esta merda capitalista-judaico-cristã-estrangeira toda e se reconhece, sem hipocrisia, como realmente somos... o povo mais criativo, diverso, sensual, colorido e alegre que há.

Que os Deuses abençoem o Brasil e... desta vez... a Inglaterra também.


UPDATE:
Acompanhando uma discussão sobre a decisão britânica de se ler contos de fadas gay nas escolas, fico cada vez mais furioso com este discurso cristão de "preservação de valores cristãos" e de preconceito contra a diversidade humana. Este um discurso deste naipe que gera toda a divisão, todo o preconceito, todo o racismo, todo o facismo e divisão social, toda a cegueira e toda a soberba.

Como disse lá, em um comentário que duvide-ó-dó que seja publicado, quando era ainda criança fui forçado a assistir horas e horas de aulas de uma religião que não era a minha. Ninguém me perguntou qual era a minha opinião, e ninguém respeitou o fato de que eu não seguia aquela crença. Quando eu disse que estavam tentando empurrar valores que eram nocivos e perversos para mim, riram. É com esta mesma empáfia que condenam todos os outros valores que não os próprios, estes nojentinhos cristãos.

Agora, convenhamos: se eu posso forçar uma criança a assistir uma aula de religião, mesmo que ela não compactue com aquilo, porquê diabos eu não posso permitir que ela entre em contato com a diversidade humana através da literatura e dos contos de fadas? Acreditar que, ao ter acesso à realidade diversa do ser humano fará com que uma criança "escolha" este ou aquele caminho, é apenas parcialmente verdadeiro. É claro que para uma criança que esteja em conflito de identidade, ter acesso às diversas formas de ser existentes pode ajudá-la a se encontrar. Trocando em miúdos, se o menininho e a menininha são gays, ter acesso a esta literatura pode ajudá-los um bocado a entender o que são. Mas para aqueles que não forem, ler contos de fadas gays servirá apenas para que cresçam menos preconceituosos e estúpidos do que os pais que temem tais leituras. E, para terminar, 14 anos de ensino cristão não me fizeram me tornar cristão. Crianças tem convicções também e, mais do que isso, elas sabem muito bem quem são... até o dia em que algum adulto resolve dizer para elas quem elas deveriam ser.

É por estas e por outras que lamento os 1600 anos de atraso cristão que pairam sobre este mundo...
Cuspa-se no túmulo do fraco Teodósio, e viva a diversidade humana!

sábado, 3 de março de 2007

Não é só no Brasil...

...que acontecem casos de absoluto desrespeito por parte do governo em relação ao povo que o elegeu e que, inadvertidamente, o legitima. O recente caso dos maus tratos dispensados aos soldados feridos da Guerra do Iraque pelo Walter Reed Hospital, em Washington (e que segundo a reportagem parece lembrar alguns de nossos hospitais) levanta mais uma vez a questão (que se aplica tanto a eles quanto a nós): Por que é que aceitamos um trabalho tão porco do governo, quando ele deveria estar trabalhando para nós, e só para nós, seus únicos clientes?

A coisa fica um pouco pior, ao menos em tese, quando este desrespeito recai sobre quem estava fazendo o seu trabalho sujo, não é?