A entrevista que dei por email ontem para o jornalista Thiago Faria, da Folha Online, foi publicada hoje na matéria "Campus Party tem graves problemas de organização, dizem blogueiros", da sessão de Informática. Para variar, minha entrevista e minha foto não saíram bem como combinado. Será que eu deveria ficar surpreso? E será que os jornalistas deveriam ficar surpresos quando alguns blogueiros implicam com eles e dizem que jornalistas e midia tradicional não são confiáveis? Deixo as respostas para vocês. Vou contar me limitar a contar o que aconteceu.
A história começou do jeito que contei neste post aqui. Depois disso, informado pelo Thiago que minha resposta estava meio longa (o que eu já imaginava. sou um verborrágico assumido), fornecí eu mesmo uma versão resumida da mesma (feita pela minha companheira Pata Nardelli, que tem poderes de síntese melhores que os meus):
1. O melhor do Campus Party.
Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores -- tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente -- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles.O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica. mas acredito que não caiba ao evento nenhum elogio irrestrito, infelizmente. Há muito o que se aprender aqui. Espero que aprendamos. O evento, pelo dinheiro e esforço que custou, e pelo tempo de planejamento que teve, poderia ter sido bem melhor.
2. O pior do Campus Party
Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogues e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autonomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos/temas chave no escopo da blogosfera brasileira. a maneira como o evento foi fechado em categorias estanque que fortalecem ainda mais os feudos temáticos -- modding, gaming, blogs, robótica, etc -- faz com que o evento se pareça mais com uma quantidade de eventos isolados dividindo o mesmo espaço do que com um único evento que abarque todas estas áreas. Mais do que isso, a forma como o evento está espacialmente dividido, com áreas definidas para cada tema/grupo, inibe a aproximação entre os participantes de áreas distintas e aliena ainda mais aqueles que não se identificam como membros de algum grupo em particular. Quem veio e está aqui sai com a certeza de que viu apenas o SEU Campus Party e não a festa inteira, pois uma boa parte da festa é "apenas para membros da confraria".
Avisei também que, caso este resumo ainda estivesse muito longo, deveriam entrar em contato comigo para que eu fizesse uma nova edição. Fiquei à espera, mas não fizeram mais nenhum comentário sobre o texto. Quando perguntei se o resumo enviado estava bom, responderam que sim...
Em vez disso, veja como saiu minha entrevista na matéria:
Daniel Duende (Brasília/DF) - veja a resposta completa no blog: O Novo Alriada Express
O melhor
Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores --tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente-- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles. É um grande encontro, mas infelizmente um grande encontro que também favorece um bocado a criação de grupos --clusters-- de pessoas que se concentram umas nas outras e que se fecham para o exterior. Há raras e preciosas exceções a isso, felizmente. O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica, mas mesmo este contato é limitado pela 'segmentação' criada pela própria estrutura do evento, que nos 'etiqueta' como blogueiros, modders, astrônomos, gamers, etc. A circulação entre grupos e áreas de interesse é possível, mas limitada.
O pior
Infelizmente há mais críticas do que elogios a se fazer ao evento. Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogs e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autônomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos e temas-chave no escopo da blogosfera brasileira (como os blogs de arte e literatura e aqueles que os escrevem, os esquecidos de sempre quando se fala de blogs)...
Parecida, de fato, mas com a escolha que ELES fizeram das coisas que eu falei. Ao menos eles mantiveram o combinado de linkar para meu blogue, onde estava
minha entrevista na íntegra (mas não foram bacanas o bastante para linkar para o post certo).
A foto também não saiu bem como o combinado.
Quando me pediram para enviar uma foto eu enviei este original:

E esta sugestão de edição:

Mas em email, outro jornalista chamado Felipe Maia (que assina a matéria) me perguntou:
"Vc não quer que apareça o "Deus te abençoe" ou a mensagem inteira? Preciso avisar o pessoal da foto."
E eu o respondi:
"Se for possível colocar a imagem com a mensagem inteira, para mim está ótimo. Em meu recorte me preocupei de tirar a data colocada pela máquina que bateu a foto, coisa que sei que muita gente não gosta e acha feio. Se for possível recortar a imagem de modo a que meu rosto e a mensagem na íntegra (com o "to pedindo não to robando, deus te abençoe" incluídos), vou achar ainda melhor."
Mas como vocês podem ver na matéria, a foto saiu de um jeito um pouco diferente (sem a mensagem, deixando minha expressão na foto descontextualizada e... retirando totalmente a piada feita com o Windows).

Infelizmente não é mesmo surpresa que as minhas palavras tenham sido alteradas da forma que os jornalistas acharam melhor, e é compreensível que a Folha não quisesse estampar em sua matéria uma imagem que faz piada com o carro chefe da poderosa Microsoft, anunciante sua. Mas serei o único aqui a achar muito grave que jornalistas que recebem TODA a colaboração de suas fontes ainda assim não consigam publicar uma entrevista de modo honesto e integral (ou negociar adequadamente sua edição)? Serei o único a achar grave que me entrevistem e editem minhas palavras como bem querem?
Estas são algumas das coisas que os jornalistas devem pensar quando se perguntarem por quê é que tantos blogueiros implicam com eles e dizem que não são confiáveis. Senhores Thiago Faria e Felipe Maia, minha caixa de comentários está sempre aberta para ouvir o que os senhores tem a dizer sobre a matéria que fizeram.
Esta é uma conversa que pode estar apenas começando.
August 17th, 2007 at 3:10 pm e
O Felipe Tofani, do pristina.org, publicou uma defesa da campanha publicitária do Estadão, escrita por João Livi da agência Talent (responsável pela campanha em questão).
August 18th, 2007 at 4:29 am e
Eu acho a campanha do Estadão pertinente, engraçada, bem feita e não vi crítica aos blogues e sim a alguns blogues e outrois veículos de informação dentro da web. Todo mundo sabe quem na internet se deve filtrar a fonte de seus dados e foi só isso que a agência quis mostrar, ainda mais porque o Estadão tem muitos blogues, não está atrás nessa questão de mídia de internet e não teria como fomentar uma discussão entre jornalismo informal e formal. Acho que fizeram tempestade em copo d’água e viram o que não havia nessas campanhas.
Eu, por sinal, adoro a do cara que escreve sobre comportamento e psicologia, achei hilária …
August 22nd, 2007 at 1:43 pm e
Fomos citados:
“Em outros blogs, como o Global Voices Online, a campanha do estadao.com.br é identificada como tática com a finalidade de aumentar o tráfego no portal do jornal: “É óbvio que a estratégia de marketing do Estadão estava contando com o barulho que os blogueiros iriam fazer a respeito dos anúncios para alcançar os seus objetivos, e os blogueiros certamente estavam entre aqueles que induziram as pessoas a visitar o novo site do jornal. Por outro lado, alguns blogueiros acham que inflamar a discussão entre blogs e a mídia tradicional neste momento pode ser uma má idéia, enquanto outros acham melhor entrar na brincadeira.”
http://www.estadao.com.br/economia/not_eco38340,0.htm
August 26th, 2007 at 6:59 pm e
E o José Murilo, autor da matéria acima e Editor de Lingua Portuguesa do Global Voices Online, escreveu em seu blogue uma resposta para a matéria do Estadão.
Além da resposta lúcida e interessante, Murilo também dá alguns bons conselhos sobre a blogosfera para o pessoal do Estadão:
“1 - A rede são os links e os links são a rede, como bem lembrado pelo colega wainermartins, e portanto falar da blogosfera sem linkar é falta de respeito. E lembre-se que blogueiros redigem em hipertexto, portanto, seção de comentários sem links trata-se de interface defeituosa.
2 - Esqueça a web 2.0 e se ligue na web ao vivo. Esta é a rede que pode ser descrita através de verbos como escrever, ler, atualizar, postar, editar, assinar, taguear, sindicar, xemelizar e linkar. A web ao vivo está sendo construída por sobre a web estática, a qual se traduz em substantivos como website, endereço, localização, tráfego, arquitetura e construção. A web ao vivo é esta acontecendo agora, de forma dinâmica, e compreende o conteúdo que pode ser encontrado via Technorati e Google BlogSearch (esqueça o google padrão), máquinas que irão indexar em minutos o que estou postando aqui, e o que outros postarão sobre estes meus ‘dois palitos’ nesta conversa.
3 - Esta vem do Código Aberto: “A notícia está deixando de ser um produto para se transformar no ponto de partida de um processo, que começa com os jornalistas, que depois cedem o papel principal para os leitores. Os profissionais deixam de ser os donos da notícia.” Eu diria: não pense em blogueiros como produtores de ‘conteúdo’. Não encaro o meu ato de blogar como produção de informação para ser consumida por outros, e sim como escritos que podem vir a informar outros interessados. Digo ‘informar’ neste sentido mais básico de ‘formar’, alargar o espaço interno que define a minha humanidade: aquilo que eu sei. Autoridade na blogosfera é o direito que eu concedo a outros de me informar, de alargar os horizontes do que conheço. Nesta ecologia, reputação é tudo. E o ‘Bruno’ é bemvindo.”
Vale a pena visitar a matéria do Murilão para ver a conversa inteira.