Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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segunda-feira, 21 de julho de 2008

Boletim Barbudo sobre a Lei Big Brother do Azeredo

Por email, do DPadua:

Pessoas incríveis,

- Temos duas semanas para desarticular a aprovação
na Câmara, antes da volta do recesso (dia 4).
Todo mundo pode ajudar. Vejam como:
http://imaginarios.net/dpadua/?p=454

- Pra quem não está acompanhando, vale a pena
se inteirar lendo os posts da blogagem coletiva:
http://xocensura.wordpress.com/2008/07/19/hoje-e-dia-da-blogagem-politica/

- O G1 publicou uma análise da polêmica hoje. Entrem lá e comentem:
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL651929-6174,00-ENTENDA+A+POLEMICA+SOBRE+O+IMPACTO+DA+LEI+DE+CRIMES+CIBERNETICOS.html#frmPost

um abraço,
dpadua


O DPadua bloga no Fluxos, e está presente em todo lugar com sua presença e idéias barbudas.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Caso Isabella Nardoni no Global Voices Online

Meu artigo sobre o caso Isabella Nardoni e a cobertura da mídia brasileira para casos como o dela já está no Global Voices Online. Até o final do dia, deve estar traduzido para o português lá no Global Voices em Português.

Este artigo deu trabalho, e foi cercado de contratempos mesmo depois de pubblicado. É um alívio ter ele entregue à rede, e poder me desincumbir dele.
Prometo que no próximo pego mais leve, e escolho um tema mais fácil...

Que tal... o FISL? :)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Elogios ao Global Voices na Blogosfera.

Apesar de adoentado (sinto-me um zumbi arrastando os pés pela casa e me forçando a trabalhar só mais um pouco... só mais um pouco...) comecei bem o dia. Depois de fazer as traduções que ficaram faltando em minha agenda de ontem, quando não aguentei continuar trabalhando por conta da dor no corpo, me deparei com duas citações honrosas e bacanas ao Global Voices em Português.

A primeira é do Palanque do Blackão, em meio a um excelente post onde o blogueiro fala sobre a mídia política tradicional e alternativa brasileira, e faz uma análise do que não lê e do que lê, e por quê. Seus motivos para ler o GVP me deixaram para lá de orgulhoso:


"GLOBAL VOICES ONLINE: visual clean, manchetes curtas, resumo da matéria, cores específicas por continente, links para ler a matéria em outros idiomas e o expediente mais importante que um site de notícias deve ter nos dias atuais - parecer-se cada vez mais com um blog, dispondo as notícias mais recentes no topo da página (ordem cronológica reversa) e, acima de tudo, repletos de links para referências e espaço para COMENTÁRIOS. A audiência não é passiva: eles são críticos, são inquisidores, se não entenderam ou se estão sendo injustos, podem e devem ser corrigidos e o autor deve saber ser humilde, pedir desculpas quando estiver errado e citar sempre os blogueiros, leitores e comentadores que trouxerem novas informações confiáveis e checáveis."

A segunda é do Spontaneum Weblog, que linka para duas matérias do GVP neste post.

Valeu mesmo pelas citações, gente. Estarei observando atentamente o blogue de vocês de agora em diante!


P.S. quem escreve o Palanque do Blackão é o Hélio Sassen Paz. Desculpe não ter citado seu nome antes, companheiro. Com o sono que eu estava, ficou dificil encontrá-lo em meio a posts tão polpudos.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Rivalidade entre blogueiros e jornalistas?


(video publicado no youtube por alelou, satirizando a rivalidade
entre blogueiros e jornalistas no Campus Party)


O assunto é velho, mas os dois lados adoram requentá-lo. Será que existe realmente uma rivalidade entre blogueiros e jornalistas, ou a questão se assemelha mais a um conflito de modos de pensar, trabalhar e agir que poderia ser resolvido se houvesse interesse de ambos os lados nisso?

Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Rivalidade presume que existe uma competição, uma rixa, relativamente irrenconciliável, entre os dois grupos. Discordâncias e conflitos são outra coisa, bem mais comum e mais complexa. Passam por princípios, modos de atuar, posicionamentos socio-políticos e diferenças complexas que não são tão "interessantes" para quem não está realmente "interessado" em entendê-las. Há, contudo, quem tenha muito interesse em flautear rivalidades. Rivalidades dão posts bombásticos e artigos chamativos em jornais. Diferenças, discordâncias, são mais difíceis de entender, discutir e lidar. Discutir diferenças e encontrar caminhos é complicado, não movimenta blogs (e adsenses) e não vende jornal.

Será que há mesmo essa tal rivalidade, ou trata-se apenas de membros destes "irreconciliáveis" grupos agindo em conjunto (vejam só!) no sentido de não entender o que acontece entre eles? Seria engraçado pensar que a tal rivalidade seja uma "invenção" dos rivais, não seria?

---

Ainda sobre a tal rivalidade, que aparece na matéria da Folha Online que citei no post anterior, é engraçado observar como certas ações são "apropriadas" ou "reapropriadas" por blogueiros e imprensa para confirmar suas versões dos fatos, e da rixa.

"[...]Além de, em conjunto, fazer uma cobertura praticamente em tempo real dos bastidores da feira (é possível ver isso em agregadores de blogs como o Blogblogs.com.br), a classe foi responsável por uma das maiores polêmicas do evento: a rivalidade com os jornalistas.

As manifestações foram ganhando força durante a semana e chegaram ao clímax na quinta-feira (14), quando os blogueiros fizeram um protesto em frente à sala de imprensa da Campus Party --um "aquário" que fica ao lado das bancadas onde os "campuseiros" instalam seus computadores. Os representantes da "velha mídia" foram chamados de dinossauros. Veja o vídeo.[...]"

(extraído da matéria da Folha)


Vamos pegar o exemplo daqueles primeiros cartazes pregados no aquário dos jornalistas do Campus Party, dos quais já falei aqui e aqui, e dos quais sei muito bem por ter participado da ação desde sua concepção até sua realização.

O cartaz onde se diz "Não Alimente os Animais" foi idéia de uma famosa blogueira, que não quis participar da ação nem revelar seu nome, mas que em outro momento estava criticando um outro famoso blogueiro por ter uma postura "midia tradicinal X blogs". Não é curioso? Por outro lado, o cartaz onde se lê "Não bata no vidro, peixes exóticos sensíveis" foi uma brincadeira bolada por uma cientista social que conheço muito bem, e que não tem grande respeito nem pela mídia tradicional nem pelos blogueiros (nem interesse ou participação na tal "rivalidade" entre eles), e que estava pensando apenas em fazer uma brincadeira com o aquário, e não com seus noticiosos peixes. Acabou sendo lido como mais um "ataque" dos peixes fora do aquário aos peixes fora d'água (digo, dentro do aquário).

Não é engraçada a forma como alguns fomentam a rivalidade que depois criticam, enquanto outros transformam os fatos de modo a corroborar suas afirmações? Neste mundo da comunicação, a verdade parece ser uma coisa rara. É bom ficar atento. Todo mundo tem suas versões e, mais do que isso, seus interesses em que sejam aceitas. Não há santos, só blogueiros, jornalistas e leitores.

Quando é que vamos parar de flautear rivalidades, como se ainda estivéssemos no ensino médio, e vamos tentar entender qual o lugar de jornalistas, mídia tradicional, blogueiros, blogosfera e dos cidadãos em geral neste novo mundo de comunicação?

Let get a life and grow up, kids. Everyone is watching.

Minha entrevista pra Folha não saiu bem como combinado. Novidade?

A entrevista que dei por email ontem para o jornalista Thiago Faria, da Folha Online, foi publicada hoje na matéria "Campus Party tem graves problemas de organização, dizem blogueiros", da sessão de Informática. Para variar, minha entrevista e minha foto não saíram bem como combinado. Será que eu deveria ficar surpreso? E será que os jornalistas deveriam ficar surpresos quando alguns blogueiros implicam com eles e dizem que jornalistas e midia tradicional não são confiáveis? Deixo as respostas para vocês. Vou contar me limitar a contar o que aconteceu.

A história começou do jeito que contei neste post aqui. Depois disso, informado pelo Thiago que minha resposta estava meio longa (o que eu já imaginava. sou um verborrágico assumido), fornecí eu mesmo uma versão resumida da mesma (feita pela minha companheira Pata Nardelli, que tem poderes de síntese melhores que os meus):

1. O melhor do Campus Party.
Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores -- tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente -- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles.O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica. mas acredito que não caiba ao evento nenhum elogio irrestrito, infelizmente. Há muito o que se aprender aqui. Espero que aprendamos. O evento, pelo dinheiro e esforço que custou, e pelo tempo de planejamento que teve, poderia ter sido bem melhor.

2. O pior do Campus Party
Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogues e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autonomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos/temas chave no escopo da blogosfera brasileira. a maneira como o evento foi fechado em categorias estanque que fortalecem ainda mais os feudos temáticos -- modding, gaming, blogs, robótica, etc -- faz com que o evento se pareça mais com uma quantidade de eventos isolados dividindo o mesmo espaço do que com um único evento que abarque todas estas áreas. Mais do que isso, a forma como o evento está espacialmente dividido, com áreas definidas para cada tema/grupo, inibe a aproximação entre os participantes de áreas distintas e aliena ainda mais aqueles que não se identificam como membros de algum grupo em particular. Quem veio e está aqui sai com a certeza de que viu apenas o SEU Campus Party e não a festa inteira, pois uma boa parte da festa é "apenas para membros da confraria".

Avisei também que, caso este resumo ainda estivesse muito longo, deveriam entrar em contato comigo para que eu fizesse uma nova edição. Fiquei à espera, mas não fizeram mais nenhum comentário sobre o texto. Quando perguntei se o resumo enviado estava bom, responderam que sim...

Em vez disso, veja como saiu minha entrevista na matéria:

Daniel Duende (Brasília/DF) - veja a resposta completa no blog: O Novo Alriada Express

O melhor

Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores --tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente-- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles. É um grande encontro, mas infelizmente um grande encontro que também favorece um bocado a criação de grupos --clusters-- de pessoas que se concentram umas nas outras e que se fecham para o exterior. Há raras e preciosas exceções a isso, felizmente. O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica, mas mesmo este contato é limitado pela 'segmentação' criada pela própria estrutura do evento, que nos 'etiqueta' como blogueiros, modders, astrônomos, gamers, etc. A circulação entre grupos e áreas de interesse é possível, mas limitada.

O pior

Infelizmente há mais críticas do que elogios a se fazer ao evento. Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogs e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autônomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos e temas-chave no escopo da blogosfera brasileira (como os blogs de arte e literatura e aqueles que os escrevem, os esquecidos de sempre quando se fala de blogs)...


Parecida, de fato, mas com a escolha que ELES fizeram das coisas que eu falei. Ao menos eles mantiveram o combinado de linkar para meu blogue, onde estava minha entrevista na íntegra (mas não foram bacanas o bastante para linkar para o post certo).

A foto também não saiu bem como o combinado.

Quando me pediram para enviar uma foto eu enviei este original:



E esta sugestão de edição:



Mas em email, outro jornalista chamado Felipe Maia (que assina a matéria) me perguntou:
"Vc não quer que apareça o "Deus te abençoe" ou a mensagem inteira? Preciso avisar o pessoal da foto."
E eu o respondi:
"Se for possível colocar a imagem com a mensagem inteira, para mim está ótimo. Em meu recorte me preocupei de tirar a data colocada pela máquina que bateu a foto, coisa que sei que muita gente não gosta e acha feio. Se for possível recortar a imagem de modo a que meu rosto e a mensagem na íntegra (com o "to pedindo não to robando, deus te abençoe" incluídos), vou achar ainda melhor."

Mas como vocês podem ver na matéria, a foto saiu de um jeito um pouco diferente (sem a mensagem, deixando minha expressão na foto descontextualizada e... retirando totalmente a piada feita com o Windows).




Infelizmente não é mesmo surpresa que as minhas palavras tenham sido alteradas da forma que os jornalistas acharam melhor, e é compreensível que a Folha não quisesse estampar em sua matéria uma imagem que faz piada com o carro chefe da poderosa Microsoft, anunciante sua. Mas serei o único aqui a achar muito grave que jornalistas que recebem TODA a colaboração de suas fontes ainda assim não consigam publicar uma entrevista de modo honesto e integral (ou negociar adequadamente sua edição)? Serei o único a achar grave que me entrevistem e editem minhas palavras como bem querem?

Estas são algumas das coisas que os jornalistas devem pensar quando se perguntarem por quê é que tantos blogueiros implicam com eles e dizem que não são confiáveis. Senhores Thiago Faria e Felipe Maia, minha caixa de comentários está sempre aberta para ouvir o que os senhores tem a dizer sobre a matéria que fizeram.

Esta é uma conversa que pode estar apenas começando.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Entrevista pra Folha Online sobre o Campus Party

Recebi a uns minutos atrás um email do Thiago Guimarães, que se identifica como jornalista da Folha de S. Paulo e afirma estar fazendo uma entrevista com os blogueiros que estão no Campus Party a respeito do evento.

O email era assim:

Daniel, como vai?
Sou repórter de Informática da Folha Online e estamos fazendo uma pesquisa entre os blogueiros para uma reportagem sobre a Campus Party. Vi em seu blog que você está blogando direto do evento e gostaríamos de saber o que você considera ser:

1. O melhor do Campus Party
2. O pior da Campus Party

Pode ser apenas um parágrafo.
Precisamos saber também: sua idade e a cidade onde mora.

Um abraço
Thiago Faria
Repórter - Folha Online


E então eu, com minha usual verborragia animada, respondi ao email assim:

Olá Thiago. Seguem as respostas. Quero frisar que tanto seu email com as perguntas quanto as minhas respostas serão publicadas na íntegra em meu blog logo depois que este email for enviado.

Quem, e de onde, sou?
Eu sou o Daniel Duende, de Brasília. Tenho 30 anos.

1. O melhor do Campus Party.
Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores -- tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente -- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles. É um grande encontro, mas infelizmente um grande encontro que também favorece um bocado a criação de grupos -- clusters -- de pessoas que se concentram umas nas outras e que se fecham para o exterior. Há raras e preciosas excessões a isso, felizmente. O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica, mas mesmo este contato é limitado pela "segmentação" criada pela própria estrutura do evento, que nos "etiqueta" como blogueiros, modders, astrônomos, gamers, etc. A circulação entre grupos e áreas de interesse é possível, mas limitada. Há ainda a oportunidade de se assistir a algumas palestras interessantes, mas a programação está confusa e muitos temas que gostaríamos de ver discutidos estão sendo deixados de lado. Espero que a possibilidade de se "fazer acontecer" algumas atividades que não estão no programa se confirme nos próximos dois dias. Isso seria muito bom também. Por fim, acho que aquilo que é ruim no evento -- seus defeitos, que falarei na pergunta seguinte -- também acabam sendo uma boa amostra, uma experiência real, de algumas questões da realidade da internet brasileira e dos círculos sociais/culturais que a fazem e a frequentam. Sei que minha resposta pode estar fugindo um pouco da pergunta sobre "o melhor do Campus Party", mas acredito que não caiba ao evento nenhum elogio irrestrito, infelizmente. Há muito o que se aprender aqui. Espero que aprendamos. O evento, pelo dinheiro e esforço que custou, e pelo tempo de planejamento que teve, poderia ter sido bem melhor.

2. O pior do Campus Party.
Infelizmente há mais críticas do que elogios a se fazer ao evento. Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogues e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autonomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos/temas chave no escopo da blogosfera brasileira (como os blogues de arte e literatura e aqueles que os escrevem, os esquecidos de sempre quando se fala de blogues)... as críticas são muitas, e a meu ver um bocado relevantes. Para me concentrar apenas nos pontos que considero mais importantes em meio à quantidade de questões que se pode levantar sobre o evento, gostaria de falar um pouco mais sobre duas das críticas acima: o da desarticulação dos grupos e atividades dentro do evento e o da exclusão da temática dos blogues de literatura.

O Campus Party pode ter sido pensado originalmente como uma grande confraternização de quem está viajando e fazendo a internet e a era digital brasileira neste momento, mas a maneira como o evento foi fechado em categorias estanque que fortalecem ainda mais os feudos temáticos -- modding, gaming, blogs, robótica, etc -- faz com que o evento se pareça mais com uma quantidade de eventos isolados dividindo o mesmo espaço do que com um único evento que abarque todas estas áreas. Mais do que isso, a forma como o evento está espacialmente dividido, com áreas definidas para cada tema/grupo, inibe a aproximação entre os participantes de áreas distintas e aliena ainda mais aqueles que não se identificam como membros de algum grupo em particular. Some-se a isso as atividades que acontecem todas ao mesmo tempo, fazendo com que as pessoas tenham que se desligar do fluxo de seu grupo para poder prestar atenção a outro, e você tem alguns dos motivos que tornam o Campus Party um evento tão desarticulado. Quem veio e está aqui sai com a certeza de que viu apenas o SEU Campus Party e não a festa inteira, pois uma boa parte da festa é "apenas para membros da confraria".

A exclusão dos blogues literários não só da programação do Campus Party como também da própria concepção geral que se tem quando se fala de blogues e blogueiros é uma questão muito séria. Blogues são ferramentas, indiferente do que se faça com eles. Mas o que se vê aqui no Campus Party é que um grande segmento dos usuários desta ferramenta se reune e começa a se considerar como "os blogueiros", o que por analogia exclue aqueles que não são chamados e não participam deste segmento não muito literário da blogosfera. Quando um evento como o Campus Party não levanta a discussão sobre blogues e literatura, ou sobre o lugar dos blogues literários na blogosfera e na internet brasileira, esta cisão e esta invisibilidade social virtual dos blogues de literatura apenas se acentua. Talvez este seja um dos grandes problemas de eventos como o Campus Party e outros eventos ligados à internet. São reuniões de uns poucos entre grupos que já são por si só de elite, em que se exclui ativa ou passivamente todo o resto do que existe, alienando aqueles que não fazem parte nem procuram fazer parte desta elite do hype internetico brasileiro. O Campus Party é uma festa de uma parte da internet que parece acreditar ser o todo, ou os porta-vozes, de uma internet que nem sequer concebem em sua totalidade.

Eu sei que a resposta ficou um bocado longa. Mas é isso que tenho a responder a estas perguntas. Qualquer resposta mais curta seria incompleta, a meu ver. Ou talvez eu seja apenas verborrágico demais. Quem ler, decide.

Abraços do Verde.

É claro que a resposta ficou um bocado longa. Não tenho quase nenhuma esperança de que sequer uma parte dela seja utilizada na matéria do jornalista, mas tanto por vontade de publicar minha resposta como pelo bom hábito blogueiro de publicar todas as entrevistas que se responde, achei válido publicar isso aqui.

É claro que adoraria ler alguns comentários de vocês a respeito.


UPDATE:
Achei importante complementar que boa parte destas considerações foram destiladas em conversas com vários amigos e colegas que também estão no evento, principalmente na conversa que eu estava tendo com a Pata Nardelli pouco antes de chegar à minha máquina e deparar com o email da entrevista. De fato, uma boa parte das considerações que teci na parte de críticas vieram ou foram estimuladas por apontamentos feitos por ela.

domingo, 26 de agosto de 2007

Mais repercussão da campanha do Estadão

Direto dos comentários à matéria do Zé Murilo no Global Voices Online, traduzida no Global Voices em Português:

4 Responses to “Brasil: Campanha publicitária compara blogueiros a macacos”

  1. Daniel Duende Diz:

    O Felipe Tofani, do pristina.org, publicou uma defesa da campanha publicitária do Estadão, escrita por João Livi da agência Talent (responsável pela campanha em questão).

  2. Luana Selva Diz:

    Eu acho a campanha do Estadão pertinente, engraçada, bem feita e não vi crítica aos blogues e sim a alguns blogues e outrois veículos de informação dentro da web. Todo mundo sabe quem na internet se deve filtrar a fonte de seus dados e foi só isso que a agência quis mostrar, ainda mais porque o Estadão tem muitos blogues, não está atrás nessa questão de mídia de internet e não teria como fomentar uma discussão entre jornalismo informal e formal. Acho que fizeram tempestade em copo d’água e viram o que não havia nessas campanhas.

    Eu, por sinal, adoro a do cara que escreve sobre comportamento e psicologia, achei hilária …

  3. Paula Góes Diz:

    Fomos citados:

    “Em outros blogs, como o Global Voices Online, a campanha do estadao.com.br é identificada como tática com a finalidade de aumentar o tráfego no portal do jornal: “É óbvio que a estratégia de marketing do Estadão estava contando com o barulho que os blogueiros iriam fazer a respeito dos anúncios para alcançar os seus objetivos, e os blogueiros certamente estavam entre aqueles que induziram as pessoas a visitar o novo site do jornal. Por outro lado, alguns blogueiros acham que inflamar a discussão entre blogs e a mídia tradicional neste momento pode ser uma má idéia, enquanto outros acham melhor entrar na brincadeira.”

    http://www.estadao.com.br/economia/not_eco38340,0.htm

  4. Daniel Duende Diz:

    E o José Murilo, autor da matéria acima e Editor de Lingua Portuguesa do Global Voices Online, escreveu em seu blogue uma resposta para a matéria do Estadão.

    Além da resposta lúcida e interessante, Murilo também dá alguns bons conselhos sobre a blogosfera para o pessoal do Estadão:

    “1 - A rede são os links e os links são a rede, como bem lembrado pelo colega wainermartins, e portanto falar da blogosfera sem linkar é falta de respeito. E lembre-se que blogueiros redigem em hipertexto, portanto, seção de comentários sem links trata-se de interface defeituosa.

    2 - Esqueça a web 2.0 e se ligue na web ao vivo. Esta é a rede que pode ser descrita através de verbos como escrever, ler, atualizar, postar, editar, assinar, taguear, sindicar, xemelizar e linkar. A web ao vivo está sendo construída por sobre a web estática, a qual se traduz em substantivos como website, endereço, localização, tráfego, arquitetura e construção. A web ao vivo é esta acontecendo agora, de forma dinâmica, e compreende o conteúdo que pode ser encontrado via Technorati e Google BlogSearch (esqueça o google padrão), máquinas que irão indexar em minutos o que estou postando aqui, e o que outros postarão sobre estes meus ‘dois palitos’ nesta conversa.

    3 - Esta vem do Código Aberto: “A notícia está deixando de ser um produto para se transformar no ponto de partida de um processo, que começa com os jornalistas, que depois cedem o papel principal para os leitores. Os profissionais deixam de ser os donos da notícia.” Eu diria: não pense em blogueiros como produtores de ‘conteúdo’. Não encaro o meu ato de blogar como produção de informação para ser consumida por outros, e sim como escritos que podem vir a informar outros interessados. Digo ‘informar’ neste sentido mais básico de ‘formar’, alargar o espaço interno que define a minha humanidade: aquilo que eu sei. Autoridade na blogosfera é o direito que eu concedo a outros de me informar, de alargar os horizontes do que conheço. Nesta ecologia, reputação é tudo. E o ‘Bruno’ é bemvindo.”

    Vale a pena visitar a matéria do Murilão para ver a conversa inteira.


E segue a conversa...

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A incrível história do jornal que ridicularizou os blogueiros (e seus leitores) e acreditava estar sendo engraçadinho.

(dica da Paulinha Góes, em uma lista de discussão do Global Voices em Português)




Os meus colegas falam por si mesmos, e eu assino embaixo:

"O Carlos Merigo acabou de publicar no Brainstorm#9 e no radinho de pilha um texto sobre a nova campanha do Estadão contra os blogs.

A campanha se baseia na idéia de que informação de qualidade só se acha na mídia tradicional. Se a intenção era criar algo engraçado eles já conseguiram, porque a campanha por si só já é uma piada.

Vou deixar aqui um link pro pessoal do Estadinho se informar melhor.

The State of the Blogosphere - Technorati"



"Antes que este filme sobre o "blog do Bruno" entrasse no ar, outro comercial anterior dessa campanha, "Ruivos" (que exibe três amigas suspirando por ruivos de aparelho, após terem lido num blog, escrito por um ruivo, que eles costumam ser mais bem-sucedidos do que os outros homens), já havia suscitado reações indignadas na blogosfera. Gabriel Tonobohn escreveu: "Jornais e revistas online têm um objetivo, que é de apenas informar. Blogs, além disso, dão opinião e possibilitam uma discussão dentro do seu espaço, junto ao leitor. É por isso que muito desses jornais também possuem blogs. Inclusive o próprio Estadão". Luciana Monte complementou: "Em regra, o blogueiro escreve sobre o que tem vontade. Blogueiros não obedecem a um editor-chefe, não têm pauta pré-determinada e seus artigos não sofrem sucessivos cortes para se ajustarem à linha editorial do veículo que paga o seu salário"."



"A mensagem é absolutamente clara e generalista: todos os blogs, e mais, TODO O CONTEÚDO CRIADO POR NÃO PROFISSIONAIS, não presta. A campanha é clara ao afirmar: blogs copiam informações, blogs só escrevem bobagem, blogs não tem discernimento.

Sinto muito se não era essa a intenção do jornal, se na verdade o que eles queriam dizer era "tome cuidado com o que lê". É tarde demais para fazer suposições, nós, blogueiros, só podemos falar do que está no ar, do que está sendo veiculado. Se a intenção era outra, há ainda mais motivos para a campanha estar errada."






"O Estadão está atirando para o lado errado. Recomendo fortemente à equipe comercial do site que estude a fundo o impacto social dessas ferramentas hoje, e avaliar se realmente está doendo no bolso deles a ascensão dos blogs brasileiros.

O triste disso tudo é que estão denegrindo o uso social da ferramenta blog. Um dos fins mais comuns para a ferramenta fica com sentido pejorativo, e arrasta junto tudo que o blog pode trazer de bom na internet.

E o mais engraçado? A única coisa que eu leio no Estadão hoje… são os blogs."


Estava demorando para que algum jornal disparar o primeiro tiro (contra o próprio pé, bem entendido) de uma guerra burra e desinformada contra a blogosfera. A mídia tradicional está agonizando por conta de seus próprios vícios. Nada mais natural do que tentar satirizar os vícios da mídia cidadã, onde eles existem, na tentativa de se firmar. Mas como diz o sempre sábio Inagaki, o futuro da mídia é a convergência e não a competição entre campos midiáticos. Se os jornais resolverem dar uma de "só tem espaço para nós aqui", em breve não terão mais espaço nenhum.