Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ian Tomlinson, 49, mais uma vítima da polícia... inglesa.

Iam Tomlinson não era protestante contra a reunião do G20. Era apenas um vendedor de jornais de 49 anos voltando para casa após o trabalho que teve o azar de se defrontar com o absurdo cerco policial realizado para conter a manifestação contra o G20. Ao ver os policiais, caminhou para a direção indicada pelos mesmos, calmamente e com as mãos no bolso. Isso não impediu que a polícia batesse nele e o jogasse no chão. Minutos depois, Ian estava morto.

Fico impressionado como ainda há pessoas que se prestam a acreditar que o "primeiro mundo" é um lugar mais civilizado do que a América Latina. Se aqui estas coisas também acontecem, ao menos não estamos fingindo que somos melhores do que ninguém. Temos todos muito a aprender. Mas enquanto isso, lá no norte, eles tentam manter as aparências enquanto a sociedade se retorce debaixo das bandeiras coloridas do nacionalismo europeu. E eles tentam manter as aparências de superioridade e paz européia, custe as vidas que custarem...

Veja o vídeo:



Qualquer semelhança com qualquer país para o qual torcemos o nariz, inclusive o nosso, não é mera coincidência. O nosso mundo está mesmo deste jeito. Só não vê quem não quer.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pra terminar o assunto...

Eu já estou de saco cheio de ver mais um crime se transformando em circo da mídia no Brasil. Já estou de saco cheio de ouvir falar do assassinato da Eloá, do assassino que virou pobre homem apaixonado pra depois virar pobre psicopata, ou do pobre pai que virou malfeitor procurado. Acredito, por acreditar na inteligência de vocês, que também já estejam de saco cheio de tudo isso.

Então, pra encerrar o assunto e não voltar mais a ele, vou me calar (como talvez já devesse ter feito antes) e republicar dois textos que a Patinha me enviou falando sobre o tema sob uma ótica feminista. Se te interessa ler algo relativamente diferente daquilo que os jornais estão bombardeando sobre vocês, leiam os textos abaixo.

O primeiro foi publicado no Vi o Mundo do Azenha e no site da ADITAL, mas o ví originalmente no email passado pela Patinha.

Brasil - Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá




Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *

Adital -

Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira. No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres. O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".

Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.

Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.
Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.
Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?
Notas:
[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076


* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres

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O segundo foi provavelmente publicado pela AMB, mas não consegui encontrar o link. Novamente, o artigo chegou a mim através do email da Patinha. (Minha professora e melhor colaboradora no que se trata de questões de gênero e feminismo, além de ser minha querida companheira).

Eloá – A Morte Anunciada

Analba Brazão Teixeira

Secretária Executiva da AMB

Semana passada o Brasil acompanhou de perto o seqüestro que culminou com a morte de Eloá. Uma Adolescente de apenas 15 anos de idade, que morreu por que decidiu não reatar o namoro com Lindemberg.

A tragédia anunciada se transformou numa briga pela audiência da imprensa televisiva e escrita, em que em nenhum momento, ao longo da sensacionalista cobertura do "caso Eloá" a imprensa classificou como mais um caso de Violência contra as Mulheres, que estava preste a entrar na contagem dos homicídios sofridos por mulheres que resolvem não reatar os namoros, casamentos. Será que não se reconheceu como violência contra as mulheres, pelo fato dela só ter 15anos?

Lindenberg passou a ser o centro de atenção de todos e de todas e mais uma vez uma atitude extrema de machismo é levada para o plano da patologia. O ciúme, a posse e a honra ganham o nome de "amor" de decepção amorosa, em que Eloá de Vítima passa a ser quase tratada como algoz, na boca de análises de psicólogas colocadas no ar "Se ela tivesse aceitado dialogar, nada disso teria acontecido".

Pelo contrário, o algoz de Eloá e Naiara, a todo instante era enaltecido: Qual o perfil de Linderberg? Bom rapaz, trabalhador, amigo de todos, "era apenas um pouco ciumento". E se chegou a este extremo é porque possui alguma patologia, dizia outro psiquiatra. Como reconhecemos as características desta patologia que uma pessoa carrega para cometer um crime como esse? Pergunta feita por apresentadores de programas televisivas.

Patologia? Ou ele não agüentou "perder" o controle que queria ter da vida de Eloá? Ou sentiu a sua "honra maculada" por que Eloá,não queria continuar o namoro que ele próprio terminara?

O que acompanhamos foi estarrecedor e nos mostrou como ainda é tratada no Brasil a violência contra as mulheres. O que nós feministas chamamos de "posse" arraigada na cultura machista, a imprensa chama de decepção amorosa. O que se reconheceu foi "a legítima dor de amor dele por Eloá", numa tentativa forçada de transformar um seqüestro em novela, de proteger um criminoso que atentava contra a vida de uma mulher indefesa, de romantizar um crime. Resguardado por sua dor, Lindembergue foi capaz de torturá-la por horas a fio, de adiar um desfecho previsto e planejado para exaltar-se diante de seu sofrimento, contínuo, prolongado e, graças às tecnologias da comunicação ,teve público. Sim, a agonia da menina de 15 anos foi transmitida ao vivo,entrecortada por flashes e entrevistas pungentes de programas de auditório sensacionalistas. Os mesmos que enaltecem a carreira ascendente de ex-participantes de reality shows e celebridades com alcunha de fruta ou legume. Linderberg era a estrela do momento, dono total da situação em que duas vidas (Eloá e Naiara) corriam um risco real. E Linderberg perguntava: Qual é o canal de televisão que está me entrevistando? Este é realmente o papel da mídia, aconselhar o seqüestrador? Será que se Eloá fosse de uma família de Posses, o tratamento sensacionalista em que a vida dela estava em risco teriasido o mesmo? Questões para refletirmos diariamente.A mesma mídia, agora, faz outro tipo de sensacionalismo com a doação de órgãos, tentando transformar Eloá em Santa. Assim, desconsideram mais uma vez o absurdo de sua morte. E desconsideram que nós, mulheres, não queremos ser santas. Nós, mulheres, queremos viver. E viver com autonomia, com liberdade.

Acompanhamos,ao longo de toda a trama televisionada a uma sutil (e branda) retomada do velho e gasto argumento da 'violenta emoção'. Tão em voga nos anos 70. O mesmo que levou Doca Street a atirar no rosto de Angela Diniz. Sim, as dores de"amor" matam, ou melhor dizendo, a dor da rejeição da perda da posse, mata. E já o fizeram, por muito tempo, impunemente. Não foi à toa que o slogan'Quem ama não mata' ganhou cartazes e ruas há mais de duas décadas e continua tão presente nos nossos dias.

Tiro no rosto, tiro na virilha, que isso significa? Por que quase sempre essas são as partes do corpo escolhidos nos casos de homicídios nas relações afetivo-conjugal? Podemos pensar que no caso da rejeição e da perda do ser amado", os homens impulsionados pelas marcas de uma cultura sexista e patriarcal, tem que aniquilar as possibilidades de realizar o prazer e o desejo do outro.

Não podemos deixar de assinalar também o papel desastroso da polícia, que teve um empenho total na garantia da vida do assassinato. A polícia se condescendeu com o algoz e entregou à ele a vida das duas meninas. A todo tempo, o comandante da operação manifestava preocupação em que Linderbegue não estragasse sua vida, em detrimento das duas vidas das mulheres. Afinal de contas o bom moço não tinha antecedentes, era uma ótima pessoa e estava apenas sofrendo de uma decepção amorosa. Qual era a negociação de Linderbergue? A vida de Eloá.

Não é por acaso que o Brasil possui uma Lei que pune crimes de violência doméstica, que, aliás, traz o nome de uma mulher vítima desta mesma sorte de 'amor', sendo alvo de duas tentativas de assassinato cometidas pelo então marido. Uma história tristemente comum, que, talvez, se distinga apenas porque Maria da Penha, sim, conseguiu sobreviver.

Mas, muitas não tiveram e não tem a mesma sorte. Eloás, Vandas, Angelas, Rosângelas, Mirians, Reginas, Robertas, Marias.Morreram e morrem indefesas, dentro de suas próprias casas, agredidas, surradas e humilhadas por aqueles que, sob o pretexto do amor, disciplinam aqueles corpos sobre os quais acreditam ter direitos.

Isto acontece porque vivemos numa sociedade que ainda concebe que, se um homem alega amar uma mulher, ou se tiveram ou tem algum acerto de conjugalidade, isto lhe dá direitos sobre a vida dela.

Em nome de uma suposta 'honra' masculina, que, quando ameaçada, insurge ensandecida, a ponto de humilhar, ferir e matar aquela que decidiu romper e não reatar a relação.

Quem torceu pelo amor de Lindembergue, quem acreditou que ele pudesse sair daquele prédio de mãos dadas com a ex-namorada esqueceu ou reforçou o tipo de cultura em que vivemos.

Quem tratou aquele drama passional como se não tivéssemos, neste país, de forma gritante, e em todo planeta, uma numerosa estatística de crimes de honra ajudou a puxar o gatilho. Que conclusão podemos chegar? O Machismo Mata.


Pronto. Que Eloá descanse em paz, e que um dia o rumo dos ventos mude e as pessoas percebam que o buraco é sempre mais embaixo, e que um dia as mulheres não morram mais na mão de seus maridos, namorados, ou de desconhecidos que acham que é muito natural estuprá-las nas ruas...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Quando as coisas não acabam nada bem, para variar...

As coisas terminaram mal naquele sequestro que aconteceu lá em Santo André...

A jovem de 15 anos que foi mantida refém durante mais de 100 horas pelo ex-namorado em Santo André, no ABC, foi baleada na cabeça e no abdome, confirmou na noite desta sexta-feira (17) a assessoria da prefeitura do município. Ela foi levada para o Centro Hospitalar de Santo André e corre risco de morte.

De acordo com a assessoria, a jovem chegou ao local inconsciente e está ligada a aparelhos. O estado dela é considerado grave. Por volta das 19h, ela passava por exames. A amiga da jovem, que também era mantida refém, levou um tiro na boca, ainda segundo a prefeitura. Consciente, ela também é atendida no mesmo hospital.

Um coronel da Polícia Militar informou por volta das 19h desta sexta que a ex-namorada foi atingida por dois disparos efetuados, segundo ele, pelo seqüestrador. "Ela tem um tiro na cabeça e um na virilha", disse. A polícia acredita que, pela posição de um dos tiros, ele teria acontecido antes da invasão.

(fonte: G1)


É impressão minha ou o único a sair relativamente ileso daquele sequesto lá em Santo André foi o sequestrador? A sequestrada principal foi, para variar, a que mais sofreu. Foi vítima desde o primeiro momento dos ciúmes e da babaquice de macho do rapaz, e por fim acabou sendo vitimada ou pelo algoz ou pela polícia -- já que saiu carregada do cativeiro com uma bala na cabeça. O GATE-SP sai manchado e criticado por ter permitido a volta da amiga de Eloá ao cativeiro. Principalmente depois que esta saiu também, pelo que parece, baleada. Em suma, o que começou mal terminou pior ainda, e a gente sempre fica se perguntando se poderia ter sido diferente. Será que podia?

Pelo visto a única coisa que pode mudar nas próximas horas, a não ser que as notícias estejam erradas, é que o jovem Lindembergue, que já não parecia ter um futuro brilhante pela frente desde o princípio, acabe sofrendo "um acidente" durante a madrugada e acorde em pior estado do que os outros personagens da tragédia... ou simplesmente não acorde. Em face das duas meninas tão brancas, bonitas e vítimas, feridas e correndo risco de morte, há bastante gente que teria prazer em ver isso acontecer. Não que isso vá mudar o fato de que há duas meninas adolescentes sendo atendidas no hospital agora mesmo, e que situações de namorados ensandecidos ferindo, ou tentando ferir, matando e tentando matar namoradas seja algo terrivelmente comum pelo mundo afora.

O que há de novo nisso tudo? Certas coisas não acabam bem mesmo. O problema é que elas continuam começando e acontecendo. A questão não é se a polícia devia ou não ter invadido mais cedo, ou se Lindembergue devia ou não ser torturado ao chegar à prisão -- o que provavelmente vai acontecer. O que realmente importa é se perguntar por quê estas coisas continuam acontecendo. Por que é que tem tanto cara por aí que, ao ver seu poder dentro da relação minado pela -- imagine só! -- capacidade de pensar e sentir autonomamente de sua companheira, acabe recorrendo à violência e à imposição covarde de sua vontade? O buraco é bem mais embaixo.

De resto, só espero que as meninas fiquem bem.

UPDATE:
Fontes oficiais já anunciaram a morte da ex-namorada-ex-refém, mas voltaram atrás. O G1 também parece estar um tanto confuso em sua grande vontade de anunciar primeiro, tendo em vista que já colocou e tirou manchetes sobre o caso de sua página principal umas 2 vezes na última hora. Para variar, o caso agora vira circo e ninguém vai se perguntar por que é que estas coisas acontecem...

sábado, 30 de agosto de 2008

Como assim!?

Mãe é condenada nos EUA por matar bebê no microondas
China Arnold
China Arnold não demonstrou emoção ao ouvir o veredicto
Um tribunal em Dayton, no Estado americano de Ohio, condenou uma mulher por matar sua filha de um mês ao colocá-la dentro de um forno de microondas.

China Arnold, de 28 anos, não demonstrou emoção quando o júri anunciou o veredicto, limitando-se a baixar o olhar.

Segundo a promotoria, Arnold matou a filha, Paris Talley, em 2005, depois de uma briga com o namorado.

Na terça-feira, o tribunal decidirá se ela deve enfrentar a pena de morte.[...]


E tem mais este aqui...


Americano é condenado por colocar bebê no microondas
Uma corte do Estado americano do Texas condenou um homem a 25 anos de prisão por colocar a filha de dois meses dentro de um forno microondas, causando-lhe queimaduras de segundo e terceiro graus.

Segundo um jornal local, Joshua Mauldin, de 20 anos, disse aos jurados ter ficado “agitado” ao se ver sozinho com a pequena Ana dentro de um quarto de hotel.

Ele confessou que antes de levar a menina ao microondas, bateu nela e a tinha colocad dentro de um cofre e ainda na geladeira.

A menina, que teria ficado dentro do forno durante 20 segundos, sobreviveu às agressões, mas sofreu queimaduras graves no rosto, no braço esquerdo e teve parte de uma orelha amputada.[...]


Minha tia sempre me dizia que você deve manter as crianças longe do microondas. Mas pelo visto, seria melhor manter algumas pessoas adultas longe do microondas também e -- pelos deuses! -- longe de seus filhos, pelo bem dessas crianças!

O que leva alguém a colocar seu filho de poucos meses dentro de um microondas, ou de um forno, ou qualquer coisa do gênero? Vale lembrar que nos EUA o aborto é permitido em alguns estados, então não parece -- ao menos a princípio -- se tratar de crianças não desejadas. Sabe-se lá. Acho que as pessoas estão mesmo ficando cada dia mais loucas...

terça-feira, 20 de maio de 2008

Já ouviu falar de Femicídio?

Mesmo incerto de que a palavra exista na norma culta portuguesa, não posso deixar de usá-la. Mas, mais importante do que isso é perceber a realidade para a qual a palavra é (apenas?) um sinalizador.

Segundo a wikipedia espanhola:

"El femicidio representa una escala de la violencia contra las mujeres. Está relacionado con el término genericidio creado por Mary Anne Warren en 1985 en su libro Gendercide: The Implications of Sex Selection aunque la traducción más aceptada, tras largo debate, ha sido la de "feminicidio".[1] Las mujeres entre los 15 y los 44 años tienen una mayor probabilidad de ser mutiladas o asesinadas de una forma u otra por hombres que de morir de cáncer, malaria, accidentes de tráfico o guerra combinados."

"O femicídio representa uma escala da violência contra as mulheres. Está relacionado com o termo genericídio, criado por Mary Anne Warren em 1985 em seu livro Gendercide: The Implications of Sex Selection, ainda que a tradução mais aceita para o mesmo, após longo debate, tenha sido 'Femicídio'. Mulheres de 15 a 44 anos tem mais possibilidade de sofrer mutilação ou assassinato de uma forma ou de outra na mão de homens do que de a soma das possibilidades de morrer de câncer, malária, acidentes de trânsito ou em decorrência de guerra."

Embora já estivesse atento ao tema, em grande parte por conta da atenção dada pela Patinha -- minha companheira -- a tais questões, o que me levou a perceber sua importância, este post foi motivado pela leitura de uma notícia publicada na área de assinantes do Correio Brasiliense (porém disponivel nesta comunidade do Orkut), que falava sobre os Femicidios na cidade mexicana de Juarez:

"Máfias de narcotraficantes e gangues como a Mara Salvatrucha adotam a execução de mulheres como marca registrada. Apenas na Guatemala, o número de assassinatos desse tipo chegou a 534 em 2007

Rosaura Montañez, de 53 anos, entrou no necrotério de Ciudad Juárez, no norte do México, com o coração apertado. Ela tinha visto a notícia na televisão, mas não acreditou. O corpo de sua filha mais velha, Esmeralda Martinéz Montañez, 19 anos, havia chegado ao local. A jovem desaparecera cinco dias antes. Um homem caminhou com Rosaura até um cadáver coberto com um lençol branco. Não a deixaram ver os restos mortais. Ela observou apenas os dedos do pé esquerdo. O marido, Santos Domingo, fez o reconhecimento e teve dúvidas de que aquela era mesmo Esmeralda. O rosto estava irreconhecível, havia marcas de estrangulamento e deformações causadas por golpes. “Por que fizeram isso com minha filha? Foi uma coisa horrorosa, terrível”, contou Rosaura ao Correio, por telefone. A noite de 4 julho de 1995 não foi esquecida. Treze anos se passaram e ninguém sabe ao certo o que ocorreu.

A história de Esmeralda se confunde com a de tantas outras mulheres na América Central e no México. Em Honduras, El Salvador e Guatemala, o número de casos de feminicídio sobe a cada ano. Antes de morrer, as mulheres são estupradas, torturadas e mutiladas. A maioria é vítima de gangues e máfias, especialmente do narcotráfico. A realidade das mulheres centro-americanas é dura. A Justiça falha, os crimes não são esclarecidos e os agressores continuam nas ruas. Em seis anos, quase 6 mil mulheres morreram assassinadas brutalmente apenas nos três países.

“A morte da mulher é como uma mensagem, feita com violência expressiva. Trata-se de um fenômeno novo no espaço público”, comenta a antropóloga argentina e professora da Universidade de Brasília Rita Segato. A principal característica desses crimes é a destruição do corpo da mulher. Cabeças são separadas do pescoço. Lábios e seios são arrancados. Há casos em que a mulher é encontrada com inscrições — triângulos, linhas, queimaduras — em determinadas áreas, que servem para identificar a gangue que cometeu o assassinato. “Alguns grupos chegam a arrancar os mamilos delas para usarem como troféu”, revela Rita. [...]"

Pesquisando um pouco mais sobre o tema, descobri que há até um verbete na wikipedia espanhola sobre o tema. Mais do que isso, há um relatório da Comissão InterAmericana para os Direitos Humanos tratando sobre estes assassinatos em Juarez, e há também alguns vídeos falando sobre o assunto, inclusive um deles feito pela associação local de mulheres "Nossas Filhas de Volta pra Casa", tentando sensibilizar os olhares mundiais para o tema:








Já seria terrível se o femicídio acontecesse apenas na assustada cidade mexicana de Juarez, ou que se limitasse à ação de "gangues", "narcotraficantes" e "serial killers", como a mídia tradicional parece querer que pensemos. Mas não é. O assassinato de mulheres motivado por questões de gênero (a condição da mulher ser mulher) acontece cotidianamente em todas as cidades do mundo, pobres ou ricas, desenvolvidas ou "em deselvolvimento". Não é coisa de bairro pobre ou de gente doente. Trata-se, mais do que tudo, de uma consequência óbvia das relações sociais e de imaginário construídas em nossa sociedade.

Se não vamos dizer que é uma consequência do machismo e do patriarcalismo, para fugir de termos fáceis, não podemos fugir do fato de que é uma decorrência da forma como nos enxergamos e nos imaginamos uns aos outros. Fora de qualquer tentativa de teorização ou elaboração, o femicídio acontece pois a mulher é fragilizada e o homem fortalecido, em uma sociedade de poderes desiguais e instituições candentemente hipócritas, onde a violência e o sexo ganham dimensões simbólicas e práticas nefastas. Matar mulheres é afirmação de poder, é satisfação de desejo de afirmação, é mensagem política, é reprodução prática de padrões simbólicos e, acima de tudo, é algo que pode ser feito com relativa impunidade em vários casos.

Posto isso, e olhando para o mundo ao nosso redor, é claro que o femicídio grassa em todos os lugares. Não há como evitá-lo sem que se olhe para algumas estruturas tão mais profundas e enraizadas em nossa sociedade e em nosso pensar. Coisa que muitas mulheres estão tentando fazer há muito tempo, e sendo tachadas de radicais, mal comidas e "femistas".

E ainda tem gente que nunca ouviu falar de femicídio. Devem achar que é coisa que só acontece na África, ou em algum "país pobre latino-americano" como o México. Quem somos nós para viver em tal ignorância, cara pálida?


P.S. Em tempo, além do Femicídio há quem fale em Feminicídio (genocídio de mulheres. logo, um ato político):

"Femicidio y feminicidio: Existe un gran debate en el movimiento de mujeres y feminista acerca de la manera de llamar a los asesinatos contra las mujeres en razón de su sexo. Algunos autores se basan en la terminología usada por Jill Radford y Diana Russell, autoras del libro Femicide: The Politics of Woman Killing, de 1992. Marcela Lagarde, teórica, antropóloga y diputada mexicana, establece que la categoría feminicidio es parte del bagaje teórico feminista introducido por estas autoras estadounidenses bajo la denominación femicide que, traducida a nuestro idioma es femicidio, término homólogo a homicidio, que sólo significa asesinato de mujeres. Sin embargo, para marcar una diferencia con ese término, Lagarde escogió la voz feminicidio para hablar de genocidio contra las mujeres, lo que lo convierte en un concepto de significación política. Fuente: Mujereshoy, Paola Dragnic."




P.P.S. Há também uma blogada interessante falando sobre o novo livro de Patricia Alvarado, chamado "Femicidio: Asesinadas Por Ser Mujeres". Abaixo, um trecho do livro citado na blogada:
" ...los femicidios se deben a una manifestación extrema de la violencia basada en la desigualdad entre mujeres y hombres. Cuando hablamos de femicidio estamos considerando que se trata de un problema social y no privado ni casual. Además estamos derribando los juicios equivocados, que tienden a culpar a las víctimas y a representar a los agresores como "locos", como "fuera de control" o a estos casos como "crímenes pasionales".La mayoría de las mujeres que menciona el estudio fueron asesinadas tras una larga historia de violencia, luego de terminar una relación de pareja, o en el proceso de separación, o después de haber sido atacada sexualmente."



P.P.P.S. Só para frisar que não traduzí as ultimas duas citações em espanhol porque creio que é parte de nossa obrigação, enquanto latino-americanos que somos, entender um mínimo da língua dos colonizadores do resto de nossa Latina América. Vamos lá, gente. Eu sei que vocês conseguem entender espanhol.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Da maneira ultrajante como se trata uma mulher nas Bahamas.

"Uma mulher das Bahamas “que foi arrastada da casa em que vivia por policiais uniformizados que não a permitiram vestir qualquer roupa e que ficou detida em uma área pública de uma delegacia de Nassau por muitas horas neste estado antes de receber a permissão de se cobrir” foi considerada culpada das acusações de linguagem obscena, comportamento desordeiro e resistir à prisão: Womanish Words [Palavras Femininas, em inglês] chama isso de “um ultraje aos direitos humanos”."

Eu chamo isso de uma amostra clara, contundente e profundamente revoltante da estupidez masculina e do abuso de poder policial. Mas desconfio que vocês devem ter palavras ainda mais contundentes para falar a respeito.

Mas acima de todas as palavras, o que é que se pode fazer a respeito disso?
Tem gente lutando contra estes absurdos, e contra outros mais encobertos mas não menos inaceitáveis. Queria poder ajudá-las, se de nenhuma outra forma, amplificando suas vozes.

Alguém me dá a dica de alguns blogues bacanas e respeitados sobre feminismo, direitos da mulher, lutas de gênero e assuntos correlatos?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

E o que anda falando o Global Voices em Português?

Uma rápida passagem pelos destaques da semana até agora no Global Voices em Português...

- Veronica Kohlova escreve sobre como Vladimir Putin prefere usar crianças (que sabe-se lá de onde foram retiradas) como seus cabos eleitoral do que colocá-las (ou deixá-las) nas escolas.

- Hamid Tehrani nos relata sobre as conversas que rolaram na blogosfera persa a respeito da prisão de estudantes iranianos que se envolveram em protestos anti-governo pela liberdade (principalmente das mulheres) e pela democracia.

- Juliana Hotisch fala sobre a Cúpula sobre Meio-Ambiente em Bali, energia nuclear e as opiniões verdes da África, enquanto Paula Góes (Suuuuper Paula!) captura pensamentos lusófonos otimistas sobre a Cúpula Europa-África.

- Paula Góes fala também da vitória do curta digital brasileiro "Laços" no concurso Project:Direct do Youtube, sobre uma foto chocante publicada no blogue PE BodyCount (que observa a segurança pública brasileira) e, por fim mas não sem menos classe, observa o bafon causado causado na lusosfera por uma marca de cerveja portuguesa que resolveu se identificar estupidamente com o segmento "hetero" do mercado.

- Juliana Parra escreve sobre o bafafá na blogosfera colombiana envolvendo o uso indevido em jornais e revistas de imagens licenciadas em Creative Commons. Este assunto ainda vai dar o que falar por aí.


Estas e mais outras você lê por aí na blogosfera, ou no Global Voices em Português.

domingo, 18 de novembro de 2007

enquanto isso no Global Voices em Português...

Enquanto as "tropas de elite" de Recife entram numas de incorporar a turma do Capitão Nascimento e cantar aquela (agora novamente famosa) música do Tihuana enquanto invadem um presídio rebelado (veja aqui), Sami Ben Gharbia fala sobre o mapeamento da censura na internet e Luis Carlos Diaz comenta os prolongamentos blogosféricos da "crise do calaboca" (que, pelo visto, ainda não morreu).

A super Paula Góes nos apresenta com duas matérias bem bacanas. A primeira delas fala sobre a censura da foto de Rogéria, ícone transexual e da luta pelos direitos de gays, lésbicas e transexuais, em uma exposição de fotografias realizada no Congresso. Seria mera hipocrisia, ou uma boa dose de preconceito? A segunda matéria aponta para a discussão que rola na blogosfera lusófona sobre o racismo no Brasil. Vale a pena ler.

Por fim, tem dica sobre a cobertura do Blogcamp BH feita pelo Ronaldo Ferraz, do Superfície Reflexiva.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Da hipocrisia, do filme queimado e das fotos rasgadas...

Enquanto os padres italianos pressionam para o "exorcismo" de gays, e reacionários do mesmo país protestam contra o direito dos indivíduos de se relacionarem com quem e como quiserem, ninguém fala dos padres que abusam de crianças debaixo do total manto de silêncio do Vaticano e dos fiéis cristãos. Enquanto alguns tem a coragem de admitir o que são -- livres, felizes, gays -- e o que fazem de suas vidas, outros se escondem por trás da batina e das cortinas de uma instituição cada dia mais envergonhada, anacrônica e hipócrita, e violentam de modo torpe a integridade e dignidade de crianças. Me digam, meus amigos, o quê é obsceno. Acho que não estou entendendo mais nada.

Como diz Palmira Silva em seu artigo de fevereiro de 2006.

"(...)Por outro lado são necessárias leis que punam o encobrimento de casos de abuso sexual, a prática corrente na Igreja Católica. As dioceses continuam a lutar para esconder a real dimensão da pedofilia no seu seio, quiçá tentando passar a opinião do actual Papa que afirmou «Estou convencido que as notícias frequentes sobre padres católicos pecadores [pedófilos] fazem parte de uma campanha planeada para prejudicar a Igreja Católica», mas certamente obedecendo ainda às determinações do actual Papa, debitadas em 2001 ainda como Cardeal Ratzinger, que ordenou ficarem em segredo pontifício todos os casos de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes católicos, ou seja, ameaçou de excomunhão todos os eclesiásticos que revelassem às autoridades civis quaisquer detalhes sobre casos de pedofilia.(...)

E depois ainda reclamam quando Sinéad O'Connor, que é uma das malucas mais adoráveis que já ví (e que foi ela mesma violentada por um padre em sua infância), rasga uma foto do Papa em repúdio à hipocrisia católica frente à violência sexual cometida dentro das igrejas pelos próprios sacerdotes.



Ora! Coloquem a mão na consciência! Enquanto algum fulano ainda agredir ou discriminar um cicrano por este querer a liberdade de ser quem é e ser feliz, enquanto um beltrano ainda se sentir no direito de violentar uma criança na escuridão de uma igreja por saber que nada acontecerá e que seu chefe e sua igreja o protegerão, eu acho que não será surpreendente que alguém queira rasgar a foto do papa. É apenas um grande filme queimado, daqueles que a gente só pode mesmo rasgar e jogar fora.

Quem defende uma instituição responsável por tantas guerras, violência e dor, e que acoberta milhares de pedófilos escondidos por trás do manto de sacerdote, não tem o DIREITO de acusar ninguém de perversão ou obscenidade. Amar alguém do seu sexo, ou pessoas de ambos os sexos, e ter a coragem de assumir isso para um mundo tão preconceituoso é algo belo, e não obsceno. Obsceno é matar, machucar e violentar crianças e ainda se fingir de santo.

Por estes e outros motivos que, por vezes, eu acho que este mundo está de cabeça para baixo...

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Todos os caminhos (escusos) levam ao Congresso?

Diz O Globo que as investigações (da Operação Furacão, sobre a máfia dos caça-níqueis) "podem chegar até o congresso". Infelizmente, isso não é mais nenhuma novidade. Tenho para comigo que quase qualquer grande crime ou mau-caratismo de nossa República possa ser traçado até a pretensa santa-casa da Democracia brasileira se a polícia (e os jornais) investigarem bem. Com jeitinho, qualquer coisa chega até o congresso (até mesmo o Bispo Crivella, que agora inventou de achar que igreja evangélica também é cultura).

Sou só eu que tenho a impressão de que tem algo muito errado com o governo do meu país?


p.s. enquanto isso, em outro país um pouco mais ao norte e um pouco mais maluco que o nosso, o tal Cho deu uma boa mãozinha para que a mídia marrom o pegue para cristo da maluquice norte-americana.

sábado, 31 de março de 2007

Batismo carioca.

Eu estava esperando o momento em que isso iria acontecer. Quando o meu Orkut, naquela sua mania de dizer "a sorte do dia", falou que eu iria "escapar por um triz de um problema sério", eu ignorei, como sempre. O que um mecanismo automático de apresentação randômica de frases sabe sobre o futuro?

Indiferente dos dons advinhatórios do Orkut, ou de minha mansa preparação de escorpiano precavido, quando eu vi o sujeito com a arma ao meu lado, logo depois de pagar a conta naquele bar, eu entendi que eu iria passar pelo meu batismo carioca.

- "É um assalto! Baixa a cabeça! Entra todo mundo no bar! Não olha pra mim não, porra!"

Obediente, entrei de cabeça baixa no bar. Entre as muitas coisas que passavam em minha cabeça, certamente não passavam os pensamentos padrão de "eu vou morrer" ou coisas do gênero. Pelo contrário, boiando em minha cabeça cheia de álcool rodopiavam pensamentos engraçados do tipo "puxa, como ele fala baixo! falando baixo assim, amigo, você deveria levantar mais esta arma! nunca vi ninguém fazer um assalto com a arma na cintura, porra!". Amadores! Ainda bem. Não que eu seja corajoso, ou experiente em ser assaltado (foi meu batismo carioca, lembram-se?), mas sinceramente a situação parecia apenas algo um pouco mais desagradável do que não conseguir um táxi e ficar sozinho na rua.

- "coloquem seus pertences sobre a mesa! Anda! Coloca tudo!"

Enfiei a mão no bolso. Desisti de colocar minha chave sobre a mesa (afinal, o que ele iria querer com minha chave? eu moro do outro lado da cidade, amigo.). Da mesma forma, desisti de catar todas as moedas do bolso, e coloquei apenas os 10 reais que havia reservado para pagar alguma coisa no início da noite. Com o dinheiro do taxi seguro no outro bolso, relaxei. Sentei-me, e senti o peso do meu celular no outro bolso. Será que eu o entrego? Em meio à confusão, tirei o celular do bolso, olhei para ele com o todo o amor que tenho pelo meu celular, olhei para o assaltante (que estava de costas para mim), e voltei a guardar o celular. Ele não havia pedido com veemência por todos os pertences, afinal.

- "vai todo mundo pra cozinha!! se olhar pra mim eu vou passar ferro em vocês!"

É... estava demorando pra fazer a primeira ameaça. Assim, ninguém estava ficando assustado. Confesso que até eu fiquei tenso quando ouvi "passar ferro" vindo de alguém com uma arma na mão. Foi então que percebi que eu não estava assustado justamente porque o assaltante era TÂO amador e TÂO gente boa (ele havia pedido por favor para que uma das moças do bar desse seu relógio a ele), que realmente não assustava ninguém. Assalto assim é bom, né? O cara rouba só o bar, leva só o que você quer dar, e ainda nem chega a falar alto. Ahh, se todo assaltante fosse assim...

- "Agora se eu ouvir um celular tocar, tá todo mundo morto!"

Opa! Que merda! Eu não devia ter desligado meu celular antes de colocá-lo de volta no bolso? Faço um malabarismo discreto para alcançar o bolso que fica abaixo do meu joelho e desligar o celular. É com alegria que eu sinto o tremelique que avisa que ele foi desligado. Depois disso, foi só recostar na mesa da cozinha, virado de costas para a porta, e acalmar a moça a meu lado, que estava um tanto mais assutada que eu. É claro que eu estava assustado, mas misteriosamente preferira guardar o ataque de nervos para mais tarde. Naquele momento a situação toda estava tão interessante e surreal que eu simplesmente não conseguia ficar efetivamente nervoso durante aquele momento.

Quando um dos cozinheiros falou que os caras tinham ido embora, senti um misto de alívio e decepção. É até escrotice falar que senti decepção, mas eu juro que senti. Então era isso que eu tava com tanto medo? Sinceramente... não quero passar por isso nunca mais, mas não vou dizer que foi tão ruim assim não. É desagradável, e eu perdi o meu isqueiro no meio da confusão, mas está longe de ser uma das piores experiências do meu ano (e este está sendo um ano bem tranquilo). Mais do que isso, eu descobri horas depois que por pouco minha querida tia de 84 anos não me matou. Ao chegar em casa, em meio ao piti que ela deu pelo meu atraso (indiferente ao fato de eu estar trancado dentro de uma cozinha de restaurante), ela disse que tentou me ligar várias vezes. Ao ligar o celular, percebi que ela havia ligado sim -- 3 vezes -- mais ou menos na hora do assalto. Foi então que minhas pernas tremeram, e eu REALMENTE fiquei nervoso. O meu celular IA tocar e, bem, eu iria descobrir até que ponto o cara tava falando sério quando disse que mataria todo mundo se algum celular tocasse.

Bem... eu estou vivo. O mundo não perdeu um escritor e uma cantora, e eu tenho mais histórias para contar. Agora são TRÊS as vezes em que eu fui salvo da morte por pura sorte.

Alguém me paga uma cerveja?
Fiquei sóbrio depois dessa.

domingo, 18 de março de 2007

A "Contagem de Corpos" carioca. Uma manifestação e um manifesto.

Reproduzindo o início da matéria de Egeu Laus para o Overmundo:

Pessoal,
Estou vindo agora da Praça XV e quero escrever sem pensar muito:

Sei que um post sobre esse assunto não vai fazer muito sucesso aqui (como de resto em qualquer lugar). É compreensível. Qualquer sinal de violência ou atitude violenta perto de mim costumo me afastar rapidamente. Me sinto extremamente incomodado e acho que passar longe da violência preserva minha saúde mental.

Infelizmente não está dando mais pra fazer de conta que não é com a gente. À noite, aqui no quarto, e nas madrugadas, ouço as AR-15 do Morro Dona Marta (também chamado de Santa Marta) que fica aqui pertinho, embora do lado não ocupado. De dia, ouço os porteiros comentando algum tiroteio que alcançou as escadarias que dão acesso as subidas do morro. Mais que isso, amigos dos amigos são atingidos, como o Picucha do AfroSamba ou a Delphine da Terr'Ativa com a qual mantive contato por um bom tempo. Não preciso contar das últimas nos jornais. Todo mundo leu.

Não sei quais as saídas imediatas. Imagino que existam ações a curto, médio e longo prazo. Tento enxergar algum caminho no meu trabalho com a Rede Social da Música. Como a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança? Divido com vocês minha perplexidade.

Junto-me ao Egeu Laus e ao Tico Santa Cruz nesta perplexidade. O Rio de Janeiro é hoje, e cada vez mais, uma cidade de contrastes aberrantes. Toda a beleza e encanto desta cidade tão viva convive lado a lado, por vezes frente a frente, com a terrível desigualdade e o mortífero conflito social e econômico que já atingiu há muito tempo a dimensão de uma guerra. E é isso mesmo que acontece aqui no Rio de Janeiro -- uma guerra!

Conheço ainda muito pouco do que é esta cidade, mas posso dizer-lhes de minha própria experiência que o tipo de violência urbana que existe no Rio é diferente de tudo aquilo que conheço. Não é uma cidade de reles assaltantes esperando nos becos (não mais do que qualquer outra), nem uma cidade de batedores de carteiras ou crimes leves causados pela cobiça ou pela miséria. É, infelizmente, uma cidade que guarda -- sob os braços abertos da estátua redentora sobre a montanha -- várias cidades que estão em guerra entre si.

Há no Rio a cidadela murada dos ricos com seus carros blindados e seus seguranças particulares, que flana, ignora, atropela tudo mais em sua sanha para fechar os olhos frente ao cenário que os cerca. Há os constabulários dos justiceiros noturnos, policiais e outros 'profissionais de segurança' que saem à noite para combater 'o problema' a seus próprios modos parciais. Há os feudos das encostas dos morros, com seus senhores feudais populares que guerreiam entre si e contra as polícias -- a oficial e a mascarada -- e cooptam seus servis vassalos a participar de suas guerras financiadas pelos ópios populares ora proibidos. Há as fortalezas das milícias que se arvoram na vista grossa da lei para guerrear em seus próprios termos contra os senhores feudais do tráfico. Há os guetos e os moradores dos viadutos pedindo ou tomando o que podem, na tentativa de retomar para si um pouco do que estas sociedades os negaram. E há, no meio destas cidades em guerra, o povo que como eu e você sai na rua em busca da beleza ou a caminho do trabalho mas não sabe ao certo quando vai se ver na linha de tiro dos tantos militantes desta guerra.



E enquanto a situação apenas se agrava, sem uma atitude coerente vinda de NENHUM dos lados, continuamos apenas contando os corpos, varrendo-os para a sarjeta e para debaixo do tapete ao amanhecer, para continuar acreditando que vivemos numa cidade que é simplesmente a "Cidade Maravilhosa".

O Rio é muito mais do que a cidade maravilhosa que os cartões postais vendem. É muito mais também do que uma cidade em guerra. É mais do que um dos maiores centros urbanos e econômicos do sudeste brasileiro, e muito mais do que apenas uma grande cidade. É mais do que o Rio dos poetas ou dos boêmios, e é mais do que uma das grandes capitais do turismo leigo ou sexual do Brasil. É tudo isso e muito mais, e toda esta beleza e diversidade merece ser salva de suas próprias mazelas. Toda a vida que existe aqui merece ser protegida e exaltada, e não destruída pelos muitos lados deste conflito de idéias e armas. Mas o que fazer? O que pode ser feito? Até quando se vai tentar as mesmas velhas soluções militantes ou paliativas? Até quando vamos apenas contar os corpos e enterrá-los, fingindo não fingir que são apenas mais algumas vítimas da guerra que ninguém quer admitir?

Até quando...?


Voltando à matéria do Egeu, segue o manifesto lido por Tico Santa Cruz na referida manifestação:
"Os Deputados, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes, desfrutam de muitos privilégios PAGOS com o dinheiro do povo.

E nós contamos os corpos...

Seus filhos estudam em colégios particulares e muitos de seus parentes quando precisam são atendidos erm excelentes hospitais que não pertencem a rede pública. ANDAM EM CARROS BLINDADOS e moram em locais da cidade protegidos por seguranças particulares.

E nós contamos os corpos...

55% dos deputados estaduais residentes nesta Assembléia Legislativa estão respondendo a processos cível, criminal ou eleitoral, enquanto você sequer pode prestar concurso público se estiver envolvido em algum processo judicial.

E nós contamos os corpos...

Os políticos brasileiros são processados por fraudes, corrupção, desvio de verbas ou qualquer crime cometido ao longo de seu mandato TEM DIREITO A JULGAMENTO EM FORO PRIVILEGIADO.

Até o momento nenhum político envolvido nos crimes e nos escândalos de corrupção que acompanhamos pelos jornais e TVs foram parar atrás das grades. Isso chama-se IMPUNIDADE.

E nós contamos os corpos...

Verbas que deveriam ser destinadas a Rede Pública de Ensino, aos Hospitais, a Segurança de nossas Comunidades são desviadas por muitos destes cidadãos que deveriam nos defender e nos representar.

E nós contamos os corpos...

O Supremo Tribunal Federal retomou dia primeiro de março o julgamento de recurso destinado a garantir o foro privilegiado a "agentes políticos" processados por improbidade administrativa, mesmo que já tenham deixado o cargo. Dos 11 ministros do STF seis já votaram a favor dos político e um contra. Restam votar 4 ministros.

A medida, se aprovada, impedirá que ministros de Estado e o presidente da república sejam fiscalizados por procuradores na primeira instância da Justiça, como ocorre hoje. Além de paralisar os processos em andamento a decisão do STF permitirá que administradores já condenados possam pedir a RESTITUIÇÃO de valores que foram obrigados a devolver aos cofres públicos.

Cerca de 10 mil inquéritos e ações judiciais contra autoridades acusadas de corrupção podem ser arquivadas.
Os defensores do foro privilegiado querem que presidentes, ministros, governadores e prefeitos envolvidos em corrupção não sejam mais atingidos pela lei. O Código Penal Brasileiro é de 1940.

E nós contamos os corpos...

Um soldado da polícía militar ganha 800 reais por mês.
Um professor ganha em média 400 reais por mês.
Um médico do SUS ganha em média 1.500 reais.
O Estado gasta em média com nossas crianças 300 reais por mês.
Um preso custa aos cofres públicos em média 800 reais por mês e todos nós sabemos que o Estado não oferece nas penitenciárias NENHUMA CONDIÇÃO DE REABILITAÇÃO dos apenados, cabendo a sociedade arcar com todos estes custos e mais os salários dos nossos políticos que passam de QUINZE MIL REAIS mensais.

E nós contamos os corpos...

O Rio de Janeiro está em guerra enquanto nossos representantes não fazem nada

E nós contamos os corpos...

Fim da impunidade.
Fim da imunidade parlamentar.
Fim do voto secreto no Congresso Nacional.
Queremos segurança, educação e saúde de qualidade pois
pagamos por isso.

SEM JUSTIÇA NÃO HÁ PAZ.

Deputados assumam suas responsabilidades pois elas são do mesmo tamanho de seus privilégios.

Enquanto nós contamos os corpos.

Ass) Voluntários da Pátria"





Se tudo que podemos fazer neste momento é discutir o problema e tentar enxergar novas dimensões dele, buscar novas propostas para sua solução neste momento em que o caminho parece escuro e sem desvios... então é isso que temos que fazer.

Não há dúvida, contudo, que esta não é uma Guerra que vá se vencer com mais e mais armas ou mais e mais violência. Esta é uma guerra que só vai terminar quando atacarmos as raízes de toda esta belicosidade, que vem do ódio de classes e da inviabilidade e do absurdo cotidiano a que são submetidos os moradores de algumas das tantas cidades que fazem parte desta grande e maravilhosa cidade.

Esta é uma guerra que só acaba quando encontramos um meio para que se queira a paz, em todos os lados destas trincheiras. É uma guerra que só acaba quando se aprender a não odiar e a apresentar soluções que agradem suficientemente a todos os lados. É uma guerra que termina com justiça, mas não com a justiça que pune apenas um dos lados que está a combater, visando satisfazer o outro. É uma guerra que termina quando todos tiverem condições de viver, de crescer, de trabalhar, de produzir e de se divertir em paz... como é justo para todos os homens e mulheres de uma sociedade civilizada. Como é justo para todo morador desta Cidade Maravilhosa que aprendi a amar.



Enquanto não chegarmos a este ponto de capacidade de resolver problemas como uma só sociedade, vamos continuar sendo apenas parte de um dos lados da guerra...
e vamos continuar apenas contando os corpos.