Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ian Tomlinson, 49, mais uma vítima da polícia... inglesa.

Iam Tomlinson não era protestante contra a reunião do G20. Era apenas um vendedor de jornais de 49 anos voltando para casa após o trabalho que teve o azar de se defrontar com o absurdo cerco policial realizado para conter a manifestação contra o G20. Ao ver os policiais, caminhou para a direção indicada pelos mesmos, calmamente e com as mãos no bolso. Isso não impediu que a polícia batesse nele e o jogasse no chão. Minutos depois, Ian estava morto.

Fico impressionado como ainda há pessoas que se prestam a acreditar que o "primeiro mundo" é um lugar mais civilizado do que a América Latina. Se aqui estas coisas também acontecem, ao menos não estamos fingindo que somos melhores do que ninguém. Temos todos muito a aprender. Mas enquanto isso, lá no norte, eles tentam manter as aparências enquanto a sociedade se retorce debaixo das bandeiras coloridas do nacionalismo europeu. E eles tentam manter as aparências de superioridade e paz européia, custe as vidas que custarem...

Veja o vídeo:



Qualquer semelhança com qualquer país para o qual torcemos o nariz, inclusive o nosso, não é mera coincidência. O nosso mundo está mesmo deste jeito. Só não vê quem não quer.

terça-feira, 31 de março de 2009

Mais um incêndio criminoso na guerra do Setor Noroeste em Brasília

Há alguns minutos recebi este email, forwardeado da lista [antro_unb].

Pessoal,

Mais um atentado criminosa na Terra Indígena Bananal Brasília DF, hoje
ataearam fogo na casa de um indígena Fulni-ô, destruindo toda a sua casa,
artesanato, documentos e toda uma memória.Foi avistado viaturas da polícia
próximo ao local, mas ainda não sabemos quem foi o responsável pelo
fogo.Ano passado foi destruida outra casa de um indígena, parece que não
há limites para os empresários e o GDF , Brasília é uma terra sem lei.
Maisa tarde envio as fotos,
por favor denunciem
O silêncio só ajuda a perpetuar a opressão!
Abs
Rafa Kaaos

http://www.youtube. com/watch? v=otwyWodhccI&feature=channel_ page


O link no final do email aponta para o vídeo abaixo:



Se já era absurda a punição branda dada a alguns garotos cretinos de classe média-alta que queimaram um índio por diversão, o que dizer de capangas de grupos poderosos de Brasília queimando casas de indígenas resistentes, amando dos empreiteiros locais que desejam levar em frente seu projeto milionário do Setor Noroeste? Quando me refiro à situação Bananal/Setor Noroeste como guerra, não quero apenas usar uma palavra de efeito. Trata-se mesmo de um conflito onde (ao menos um dos lados) não tem limites em sua sanha de vencer -- tudo em nome do dinheiro, sob o manto da costumeira impunidade desfrutada pelos empreiteiros brasilientes e seus asseclas.

Só nos resta divulgar, e esperar que nossa polícia mostre seriedade na apuração dos fatos, e em seguida que nosso judiciário nos supreenda ao não dar cobertura aos seus "amigos de costume". Se a maior parte de nós aqui em Brasília já costuma ser pessimista a respeito da condenação de qualquer membro da corja que se abate sobre nós, isto não é sem motivo. Se mal conseguimos prender e condenar adolescentes malcriados que incendeiam um índio, o que esperar de nossa justiça quando os criminosos são as próprias iminências pardas de nossa cidade? Da mesma forma que se pode comprar votos, roubar os cofres públicos e jogar na lama o nome de todas as instituições nacionais, aqui também se pode matar e destruir propriedade impunemente, contanto que você tenha os amigos certos.

Bem vindos ao faroeste caboclo. Aqui nós queimamos índios, e a lei ainda pertence aos criminosos de sempre.

sábado, 31 de março de 2007

Batismo carioca.

Eu estava esperando o momento em que isso iria acontecer. Quando o meu Orkut, naquela sua mania de dizer "a sorte do dia", falou que eu iria "escapar por um triz de um problema sério", eu ignorei, como sempre. O que um mecanismo automático de apresentação randômica de frases sabe sobre o futuro?

Indiferente dos dons advinhatórios do Orkut, ou de minha mansa preparação de escorpiano precavido, quando eu vi o sujeito com a arma ao meu lado, logo depois de pagar a conta naquele bar, eu entendi que eu iria passar pelo meu batismo carioca.

- "É um assalto! Baixa a cabeça! Entra todo mundo no bar! Não olha pra mim não, porra!"

Obediente, entrei de cabeça baixa no bar. Entre as muitas coisas que passavam em minha cabeça, certamente não passavam os pensamentos padrão de "eu vou morrer" ou coisas do gênero. Pelo contrário, boiando em minha cabeça cheia de álcool rodopiavam pensamentos engraçados do tipo "puxa, como ele fala baixo! falando baixo assim, amigo, você deveria levantar mais esta arma! nunca vi ninguém fazer um assalto com a arma na cintura, porra!". Amadores! Ainda bem. Não que eu seja corajoso, ou experiente em ser assaltado (foi meu batismo carioca, lembram-se?), mas sinceramente a situação parecia apenas algo um pouco mais desagradável do que não conseguir um táxi e ficar sozinho na rua.

- "coloquem seus pertences sobre a mesa! Anda! Coloca tudo!"

Enfiei a mão no bolso. Desisti de colocar minha chave sobre a mesa (afinal, o que ele iria querer com minha chave? eu moro do outro lado da cidade, amigo.). Da mesma forma, desisti de catar todas as moedas do bolso, e coloquei apenas os 10 reais que havia reservado para pagar alguma coisa no início da noite. Com o dinheiro do taxi seguro no outro bolso, relaxei. Sentei-me, e senti o peso do meu celular no outro bolso. Será que eu o entrego? Em meio à confusão, tirei o celular do bolso, olhei para ele com o todo o amor que tenho pelo meu celular, olhei para o assaltante (que estava de costas para mim), e voltei a guardar o celular. Ele não havia pedido com veemência por todos os pertences, afinal.

- "vai todo mundo pra cozinha!! se olhar pra mim eu vou passar ferro em vocês!"

É... estava demorando pra fazer a primeira ameaça. Assim, ninguém estava ficando assustado. Confesso que até eu fiquei tenso quando ouvi "passar ferro" vindo de alguém com uma arma na mão. Foi então que percebi que eu não estava assustado justamente porque o assaltante era TÂO amador e TÂO gente boa (ele havia pedido por favor para que uma das moças do bar desse seu relógio a ele), que realmente não assustava ninguém. Assalto assim é bom, né? O cara rouba só o bar, leva só o que você quer dar, e ainda nem chega a falar alto. Ahh, se todo assaltante fosse assim...

- "Agora se eu ouvir um celular tocar, tá todo mundo morto!"

Opa! Que merda! Eu não devia ter desligado meu celular antes de colocá-lo de volta no bolso? Faço um malabarismo discreto para alcançar o bolso que fica abaixo do meu joelho e desligar o celular. É com alegria que eu sinto o tremelique que avisa que ele foi desligado. Depois disso, foi só recostar na mesa da cozinha, virado de costas para a porta, e acalmar a moça a meu lado, que estava um tanto mais assutada que eu. É claro que eu estava assustado, mas misteriosamente preferira guardar o ataque de nervos para mais tarde. Naquele momento a situação toda estava tão interessante e surreal que eu simplesmente não conseguia ficar efetivamente nervoso durante aquele momento.

Quando um dos cozinheiros falou que os caras tinham ido embora, senti um misto de alívio e decepção. É até escrotice falar que senti decepção, mas eu juro que senti. Então era isso que eu tava com tanto medo? Sinceramente... não quero passar por isso nunca mais, mas não vou dizer que foi tão ruim assim não. É desagradável, e eu perdi o meu isqueiro no meio da confusão, mas está longe de ser uma das piores experiências do meu ano (e este está sendo um ano bem tranquilo). Mais do que isso, eu descobri horas depois que por pouco minha querida tia de 84 anos não me matou. Ao chegar em casa, em meio ao piti que ela deu pelo meu atraso (indiferente ao fato de eu estar trancado dentro de uma cozinha de restaurante), ela disse que tentou me ligar várias vezes. Ao ligar o celular, percebi que ela havia ligado sim -- 3 vezes -- mais ou menos na hora do assalto. Foi então que minhas pernas tremeram, e eu REALMENTE fiquei nervoso. O meu celular IA tocar e, bem, eu iria descobrir até que ponto o cara tava falando sério quando disse que mataria todo mundo se algum celular tocasse.

Bem... eu estou vivo. O mundo não perdeu um escritor e uma cantora, e eu tenho mais histórias para contar. Agora são TRÊS as vezes em que eu fui salvo da morte por pura sorte.

Alguém me paga uma cerveja?
Fiquei sóbrio depois dessa.

quarta-feira, 28 de março de 2007

a falta de assunto divertida e a falta de assunto enfadonha...

Um belo dia (ou noite, pois nunca dá pra saber se é dia ou noite quando se está no metrô) um cara resolveu colocar uma câmera na cabeça, tirar o seu par de esquis do armário e descer a escada rolante de uma estação de metrô londrina sobre seus esquis. Isso é pura falta de assunto, mas foi divertido para ele e para quem observava.

Horas depois, a administração do metrô deu um piti e resolveu insistir para que a polícia tomasse "as medidas mais sérias possíveis" contra o cara ou qualquer um que repetisse o feito. Isso é pura falta de assunto, e não foi divertido para ninguém.

Se vai fazer merda, meu amigo, faça algo que seja divertido. Kudos para o esquiador, "vão procurar o que fazer!" para a administração do metrô londrino.

Vejam o vídeo:



Agora me digam... isso não parece ter sido divertido?

sábado, 3 de março de 2007

Mais sobre uma guerra perdida...

Este não é mais um post sobre a guerra do Iraque embora, com este título, bem que também poderia ser. Tem a ver, por outro lado, com outra guerra que é (talvez) mais antiga e (novamente talvez) mais estúpida do que a incursão "libertadora" dos EUA nas terras babilônicas (Oh Babilônia!).

Desta vez estou escrevendo para falar de mais uma discussão (até razoavelmente produtiva) sobre a chamada "Guerra às Drogas" que é movida por boa parte do mundo "civilizado" ocidental. A discussão desta vez está rolando lá pelo AINN, com alguns participantes bem razoáveis (como, por exemplo, o MauMau e o Zecaleeyuga, que tem meu respeito embora discordem de mim). Não quero me alongar muito sobre o assunto. Para quem quiser ver meus argumentos, estão todos expostos lá no thread. Basta ir e ler.

Esta é uma guerra perdida, e a questão não é mais se as pessoas tem o direito de usar a substância que bem entenderem (e eu acho que tem) ou se o Estado tem a prerrogativa de opinar na vida pessoal das pessoas naquilo que só diz respeito a elas mesmas (e eu acho que não tem), mas sim se a chamada "guerra ao tráfico" faz algum sentido, ou se o preço que a população brasileira paga por ela em dinheiro de impostos e sobretudo sangue derramando em meio ao tiroteio faz algum sentido. Eu continuo achando que não.