Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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segunda-feira, 14 de abril de 2008

Ainda estão jogando a Isabela Nardoni pela janela até hoje...

A morte de uma criança é sempre um assunto triste, até mesmo chocante. Quando se trata então do assassinato de uma criança, a coisa é muito pior. Que um assassinato bárbaro de uma criança, possivelmente estrangulada e depois jogada pela janela de sua casa, possivelmente na tentativa de encobrir o crime, e onde o assassino pode ser o pai da criança, chame a atenção e assombre as pessoas, eu entendo. Mas daí a transformar este assassinato em um show midiático full time na mídia brasileira, entrevistando cada envolvido no crime ou na investigação diariamente, e fazendo um alarde digno de Big-Brother em cima da trama (infelizmente bem real, ao contrário do 'reality show' da Globo), me parece não apenas um destempero. É um absurdo.

Quando me vi sentado com amigos assistindo em uma TV de trocentas polegadas à milésima reportagem da Globo sobre o assunto, e soube que existe até um bolão de apostas sobre quem é o assassino (alô! Isabela morreu mesmo, não é a Odete Reuttman!), eu percebi que a junção de um jornalismo absurdamente sensacionalista com um público cada vez mais alienado, e não só das classes mais baixas e menos 'educadas', só poderia mesmo dar nisso. Um circo à volta de um corpo, com direito a replay e reviravoltas dignas de novela, prendendo a atenção de todos e nos provando ainda mais idiotas a cada dia.

Desculpe, Isabela. Faz tempo que preferimos ganhar dinheiro com os mortos a respeitá-los. Você nem teve tempo de entender isso. Foi mal por continuamos jogando você pela janela todo dia, enquanto ninguém olha para tantas outras crianças menos brancas e menos abastadas que morrem todo dia em condições igualmente terríveis.


P.S. em tempo, de onde é que estão tentando desviar nossa atenção com todo este circo? Qual escândalo está sendo abafado com o sangue requentado da menina? Sempre há um, e quando há um assunto a se esconder, até traição conjugal entre macacos no zoológico é assunto para desviar nossa lábil atenção daquilo que deveríamos estar atentos.


UPDATE: Uma reflexão sobre o caso, e sobre meu post.

Tenho refletido um bocado sobre este post, e creio que cometí com ele o erro de ser sensacionalista na minha tentativa de criticar o sensacionalismo.

O que quis com ele dizer é que me revolta não apenas o crime, cujos culpados espero que sejam descobertos e legalmente punidos o quanto antes, mas também o uso do trágico acontecido pelas grandes redes nacionais de notícias para vender mais jornais e aumentar a visibilidade de seus telejornais. Em nenhum momento me oponho à investigação, ou ao jornalismo investigativo. Mas acredito que existe uma fina linha entre investigar para informar, e a exploração de uma tragédia da classe média com fins comerciais ou, pior ainda, políticos.

Crimes como este devem ser combatidos exemplarmente, mas mas não só ele. Todos os crimes contra a vida e a integridade física e mental, indiferente da idade, raça, cor, credo ou classe social da vítima deveriam ser igualmente investigados e punidos, se não se pode esperar que sejam erradicados.

E nossa imprensa escrita e falada também deveria se comportar exemplarmente, cobrindo dedicadamente o caso, mas sem sensacionalizar tanto ou dirigir a opinião pública a condenar pessoas antes do término das investigações. Deveria também dar igual atenção a crimes semelhantes, e igualmente terríveis, cometidos contra crianças e adultos de classes sociais, cores e regiões hoje aparentemente invisíveis à mídia e ao público.

E eu deveria aprender a refletir mais antes de escrever um post, para buscar as melhores palavras e filtrar uma ou outra eventual estupidez de meu humanamente falho julgamento.

Daniel Duende.