Ainda estão jogando a Isabela Nardoni pela janela até hoje...
A morte de uma criança é sempre um assunto triste, até mesmo chocante. Quando se trata então do assassinato de uma criança, a coisa é muito pior. Que um assassinato bárbaro de uma criança, possivelmente estrangulada e depois jogada pela janela de sua casa, possivelmente na tentativa de encobrir o crime, e onde o assassino pode ser o pai da criança, chame a atenção e assombre as pessoas, eu entendo. Mas daí a transformar este assassinato em um show midiático full time na mídia brasileira, entrevistando cada envolvido no crime ou na investigação diariamente, e fazendo um alarde digno de Big-Brother em cima da trama (infelizmente bem real, ao contrário do 'reality show' da Globo), me parece não apenas um destempero. É um absurdo.
Quando me vi sentado com amigos assistindo em uma TV de trocentas polegadas à milésima reportagem da Globo sobre o assunto, e soube que existe até um bolão de apostas sobre quem é o assassino (alô! Isabela morreu mesmo, não é a Odete Reuttman!), eu percebi que a junção de um jornalismo absurdamente sensacionalista com um público cada vez mais alienado, e não só das classes mais baixas e menos 'educadas', só poderia mesmo dar nisso. Um circo à volta de um corpo, com direito a replay e reviravoltas dignas de novela, prendendo a atenção de todos e nos provando ainda mais idiotas a cada dia.
Desculpe, Isabela. Faz tempo que preferimos ganhar dinheiro com os mortos a respeitá-los. Você nem teve tempo de entender isso. Foi mal por continuamos jogando você pela janela todo dia, enquanto ninguém olha para tantas outras crianças menos brancas e menos abastadas que morrem todo dia em condições igualmente terríveis.
P.S. em tempo, de onde é que estão tentando desviar nossa atenção com todo este circo? Qual escândalo está sendo abafado com o sangue requentado da menina? Sempre há um, e quando há um assunto a se esconder, até traição conjugal entre macacos no zoológico é assunto para desviar nossa lábil atenção daquilo que deveríamos estar atentos.
UPDATE: Uma reflexão sobre o caso, e sobre meu post.
Tenho refletido um bocado sobre este post, e creio que cometí com ele o erro de ser sensacionalista na minha tentativa de criticar o sensacionalismo.
O que quis com ele dizer é que me revolta não apenas o crime, cujos culpados espero que sejam descobertos e legalmente punidos o quanto antes, mas também o uso do trágico acontecido pelas grandes redes nacionais de notícias para vender mais jornais e aumentar a visibilidade de seus telejornais. Em nenhum momento me oponho à investigação, ou ao jornalismo investigativo. Mas acredito que existe uma fina linha entre investigar para informar, e a exploração de uma tragédia da classe média com fins comerciais ou, pior ainda, políticos.
Crimes como este devem ser combatidos exemplarmente, mas mas não só ele. Todos os crimes contra a vida e a integridade física e mental, indiferente da idade, raça, cor, credo ou classe social da vítima deveriam ser igualmente investigados e punidos, se não se pode esperar que sejam erradicados.
E nossa imprensa escrita e falada também deveria se comportar exemplarmente, cobrindo dedicadamente o caso, mas sem sensacionalizar tanto ou dirigir a opinião pública a condenar pessoas antes do término das investigações. Deveria também dar igual atenção a crimes semelhantes, e igualmente terríveis, cometidos contra crianças e adultos de classes sociais, cores e regiões hoje aparentemente invisíveis à mídia e ao público.
E eu deveria aprender a refletir mais antes de escrever um post, para buscar as melhores palavras e filtrar uma ou outra eventual estupidez de meu humanamente falho julgamento.
Daniel Duende.
