Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.
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segunda-feira, 28 de maio de 2007

Da hipocrisia, do filme queimado e das fotos rasgadas...

Enquanto os padres italianos pressionam para o "exorcismo" de gays, e reacionários do mesmo país protestam contra o direito dos indivíduos de se relacionarem com quem e como quiserem, ninguém fala dos padres que abusam de crianças debaixo do total manto de silêncio do Vaticano e dos fiéis cristãos. Enquanto alguns tem a coragem de admitir o que são -- livres, felizes, gays -- e o que fazem de suas vidas, outros se escondem por trás da batina e das cortinas de uma instituição cada dia mais envergonhada, anacrônica e hipócrita, e violentam de modo torpe a integridade e dignidade de crianças. Me digam, meus amigos, o quê é obsceno. Acho que não estou entendendo mais nada.

Como diz Palmira Silva em seu artigo de fevereiro de 2006.

"(...)Por outro lado são necessárias leis que punam o encobrimento de casos de abuso sexual, a prática corrente na Igreja Católica. As dioceses continuam a lutar para esconder a real dimensão da pedofilia no seu seio, quiçá tentando passar a opinião do actual Papa que afirmou «Estou convencido que as notícias frequentes sobre padres católicos pecadores [pedófilos] fazem parte de uma campanha planeada para prejudicar a Igreja Católica», mas certamente obedecendo ainda às determinações do actual Papa, debitadas em 2001 ainda como Cardeal Ratzinger, que ordenou ficarem em segredo pontifício todos os casos de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes católicos, ou seja, ameaçou de excomunhão todos os eclesiásticos que revelassem às autoridades civis quaisquer detalhes sobre casos de pedofilia.(...)

E depois ainda reclamam quando Sinéad O'Connor, que é uma das malucas mais adoráveis que já ví (e que foi ela mesma violentada por um padre em sua infância), rasga uma foto do Papa em repúdio à hipocrisia católica frente à violência sexual cometida dentro das igrejas pelos próprios sacerdotes.



Ora! Coloquem a mão na consciência! Enquanto algum fulano ainda agredir ou discriminar um cicrano por este querer a liberdade de ser quem é e ser feliz, enquanto um beltrano ainda se sentir no direito de violentar uma criança na escuridão de uma igreja por saber que nada acontecerá e que seu chefe e sua igreja o protegerão, eu acho que não será surpreendente que alguém queira rasgar a foto do papa. É apenas um grande filme queimado, daqueles que a gente só pode mesmo rasgar e jogar fora.

Quem defende uma instituição responsável por tantas guerras, violência e dor, e que acoberta milhares de pedófilos escondidos por trás do manto de sacerdote, não tem o DIREITO de acusar ninguém de perversão ou obscenidade. Amar alguém do seu sexo, ou pessoas de ambos os sexos, e ter a coragem de assumir isso para um mundo tão preconceituoso é algo belo, e não obsceno. Obsceno é matar, machucar e violentar crianças e ainda se fingir de santo.

Por estes e outros motivos que, por vezes, eu acho que este mundo está de cabeça para baixo...

segunda-feira, 12 de março de 2007

Quando o primeiro mundo realmente mostra seu valor...

Enquanto um projeto de lei prevê a prisão de "homossexuais" visando “proteger os valores e a moral da sociedade” na Nigéria, as escolas inglesas começarão a trabalhar em sala contos de fadas e outras obras literárias que abordam com naturalizade o amor entre dois indivíduos do mesmo sexo.

Tem horas em que o primeiro mundo realmente impõe respeito. E, veja bem, mesmo na Inglaterra nunca faltaram católicos (e outros bichos) para emperrar a evolução social. É tudo uma questão de respeito ao ser humano...

Enquanto isso ainda existem escroques eclesiásticos aqui no Brasil fazendo biquinho para a camisinha. Nem o presidente Lula, que anda namorando até a mais nojenta direita do Brasil, engole esse papo bobo bispal. Ô povinho atrasado (esses cristãos...).

Mas não tem problema não. Ainda acredito que um dia a gente sacode esta merda capitalista-judaico-cristã-estrangeira toda e se reconhece, sem hipocrisia, como realmente somos... o povo mais criativo, diverso, sensual, colorido e alegre que há.

Que os Deuses abençoem o Brasil e... desta vez... a Inglaterra também.


UPDATE:
Acompanhando uma discussão sobre a decisão britânica de se ler contos de fadas gay nas escolas, fico cada vez mais furioso com este discurso cristão de "preservação de valores cristãos" e de preconceito contra a diversidade humana. Este um discurso deste naipe que gera toda a divisão, todo o preconceito, todo o racismo, todo o facismo e divisão social, toda a cegueira e toda a soberba.

Como disse lá, em um comentário que duvide-ó-dó que seja publicado, quando era ainda criança fui forçado a assistir horas e horas de aulas de uma religião que não era a minha. Ninguém me perguntou qual era a minha opinião, e ninguém respeitou o fato de que eu não seguia aquela crença. Quando eu disse que estavam tentando empurrar valores que eram nocivos e perversos para mim, riram. É com esta mesma empáfia que condenam todos os outros valores que não os próprios, estes nojentinhos cristãos.

Agora, convenhamos: se eu posso forçar uma criança a assistir uma aula de religião, mesmo que ela não compactue com aquilo, porquê diabos eu não posso permitir que ela entre em contato com a diversidade humana através da literatura e dos contos de fadas? Acreditar que, ao ter acesso à realidade diversa do ser humano fará com que uma criança "escolha" este ou aquele caminho, é apenas parcialmente verdadeiro. É claro que para uma criança que esteja em conflito de identidade, ter acesso às diversas formas de ser existentes pode ajudá-la a se encontrar. Trocando em miúdos, se o menininho e a menininha são gays, ter acesso a esta literatura pode ajudá-los um bocado a entender o que são. Mas para aqueles que não forem, ler contos de fadas gays servirá apenas para que cresçam menos preconceituosos e estúpidos do que os pais que temem tais leituras. E, para terminar, 14 anos de ensino cristão não me fizeram me tornar cristão. Crianças tem convicções também e, mais do que isso, elas sabem muito bem quem são... até o dia em que algum adulto resolve dizer para elas quem elas deveriam ser.

É por estas e por outras que lamento os 1600 anos de atraso cristão que pairam sobre este mundo...
Cuspa-se no túmulo do fraco Teodósio, e viva a diversidade humana!