Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Entrevista pra Folha Online sobre o Campus Party

Recebi a uns minutos atrás um email do Thiago Guimarães, que se identifica como jornalista da Folha de S. Paulo e afirma estar fazendo uma entrevista com os blogueiros que estão no Campus Party a respeito do evento.

O email era assim:

Daniel, como vai?
Sou repórter de Informática da Folha Online e estamos fazendo uma pesquisa entre os blogueiros para uma reportagem sobre a Campus Party. Vi em seu blog que você está blogando direto do evento e gostaríamos de saber o que você considera ser:

1. O melhor do Campus Party
2. O pior da Campus Party

Pode ser apenas um parágrafo.
Precisamos saber também: sua idade e a cidade onde mora.

Um abraço
Thiago Faria
Repórter - Folha Online


E então eu, com minha usual verborragia animada, respondi ao email assim:

Olá Thiago. Seguem as respostas. Quero frisar que tanto seu email com as perguntas quanto as minhas respostas serão publicadas na íntegra em meu blog logo depois que este email for enviado.

Quem, e de onde, sou?
Eu sou o Daniel Duende, de Brasília. Tenho 30 anos.

1. O melhor do Campus Party.
Sem dúvida alguma, o melhor do Campus Party é encontrar amigos e colaboradores -- tanto os que já conhecia pessoalmente e convivia quanto aqueles que ainda não conhecia pessoalmente -- e ter a oportunidade de conversar, trabalhar, rir ou simplesmente estar com eles. É um grande encontro, mas infelizmente um grande encontro que também favorece um bocado a criação de grupos -- clusters -- de pessoas que se concentram umas nas outras e que se fecham para o exterior. Há raras e preciosas excessões a isso, felizmente. O evento também é interessante enquanto oportunidade de ver o trabalho de algumas comunidades com as quais antes não tinha muito contato, como a dos modders e do pessoal da robótica, mas mesmo este contato é limitado pela "segmentação" criada pela própria estrutura do evento, que nos "etiqueta" como blogueiros, modders, astrônomos, gamers, etc. A circulação entre grupos e áreas de interesse é possível, mas limitada. Há ainda a oportunidade de se assistir a algumas palestras interessantes, mas a programação está confusa e muitos temas que gostaríamos de ver discutidos estão sendo deixados de lado. Espero que a possibilidade de se "fazer acontecer" algumas atividades que não estão no programa se confirme nos próximos dois dias. Isso seria muito bom também. Por fim, acho que aquilo que é ruim no evento -- seus defeitos, que falarei na pergunta seguinte -- também acabam sendo uma boa amostra, uma experiência real, de algumas questões da realidade da internet brasileira e dos círculos sociais/culturais que a fazem e a frequentam. Sei que minha resposta pode estar fugindo um pouco da pergunta sobre "o melhor do Campus Party", mas acredito que não caiba ao evento nenhum elogio irrestrito, infelizmente. Há muito o que se aprender aqui. Espero que aprendamos. O evento, pelo dinheiro e esforço que custou, e pelo tempo de planejamento que teve, poderia ter sido bem melhor.

2. O pior do Campus Party.
Infelizmente há mais críticas do que elogios a se fazer ao evento. Desorganização, as proibições descabidas impostas aos participantes do evento, a presença excessiva e até um pouco ridícula de certas empresas, o foco excessivo na monetização de blogues e criação de empreendimentos de internet em detrimento do foco nas grupos e nas redes autonomas e espontâneas que fazem o coração da rede, a truculência de seguranças e da organização do evento para com os participantes, desarticulação entre os grupos e entre atividades dentro do evento, exclusão de alguns grupos/temas chave no escopo da blogosfera brasileira (como os blogues de arte e literatura e aqueles que os escrevem, os esquecidos de sempre quando se fala de blogues)... as críticas são muitas, e a meu ver um bocado relevantes. Para me concentrar apenas nos pontos que considero mais importantes em meio à quantidade de questões que se pode levantar sobre o evento, gostaria de falar um pouco mais sobre duas das críticas acima: o da desarticulação dos grupos e atividades dentro do evento e o da exclusão da temática dos blogues de literatura.

O Campus Party pode ter sido pensado originalmente como uma grande confraternização de quem está viajando e fazendo a internet e a era digital brasileira neste momento, mas a maneira como o evento foi fechado em categorias estanque que fortalecem ainda mais os feudos temáticos -- modding, gaming, blogs, robótica, etc -- faz com que o evento se pareça mais com uma quantidade de eventos isolados dividindo o mesmo espaço do que com um único evento que abarque todas estas áreas. Mais do que isso, a forma como o evento está espacialmente dividido, com áreas definidas para cada tema/grupo, inibe a aproximação entre os participantes de áreas distintas e aliena ainda mais aqueles que não se identificam como membros de algum grupo em particular. Some-se a isso as atividades que acontecem todas ao mesmo tempo, fazendo com que as pessoas tenham que se desligar do fluxo de seu grupo para poder prestar atenção a outro, e você tem alguns dos motivos que tornam o Campus Party um evento tão desarticulado. Quem veio e está aqui sai com a certeza de que viu apenas o SEU Campus Party e não a festa inteira, pois uma boa parte da festa é "apenas para membros da confraria".

A exclusão dos blogues literários não só da programação do Campus Party como também da própria concepção geral que se tem quando se fala de blogues e blogueiros é uma questão muito séria. Blogues são ferramentas, indiferente do que se faça com eles. Mas o que se vê aqui no Campus Party é que um grande segmento dos usuários desta ferramenta se reune e começa a se considerar como "os blogueiros", o que por analogia exclue aqueles que não são chamados e não participam deste segmento não muito literário da blogosfera. Quando um evento como o Campus Party não levanta a discussão sobre blogues e literatura, ou sobre o lugar dos blogues literários na blogosfera e na internet brasileira, esta cisão e esta invisibilidade social virtual dos blogues de literatura apenas se acentua. Talvez este seja um dos grandes problemas de eventos como o Campus Party e outros eventos ligados à internet. São reuniões de uns poucos entre grupos que já são por si só de elite, em que se exclui ativa ou passivamente todo o resto do que existe, alienando aqueles que não fazem parte nem procuram fazer parte desta elite do hype internetico brasileiro. O Campus Party é uma festa de uma parte da internet que parece acreditar ser o todo, ou os porta-vozes, de uma internet que nem sequer concebem em sua totalidade.

Eu sei que a resposta ficou um bocado longa. Mas é isso que tenho a responder a estas perguntas. Qualquer resposta mais curta seria incompleta, a meu ver. Ou talvez eu seja apenas verborrágico demais. Quem ler, decide.

Abraços do Verde.

É claro que a resposta ficou um bocado longa. Não tenho quase nenhuma esperança de que sequer uma parte dela seja utilizada na matéria do jornalista, mas tanto por vontade de publicar minha resposta como pelo bom hábito blogueiro de publicar todas as entrevistas que se responde, achei válido publicar isso aqui.

É claro que adoraria ler alguns comentários de vocês a respeito.


UPDATE:
Achei importante complementar que boa parte destas considerações foram destiladas em conversas com vários amigos e colegas que também estão no evento, principalmente na conversa que eu estava tendo com a Pata Nardelli pouco antes de chegar à minha máquina e deparar com o email da entrevista. De fato, uma boa parte das considerações que teci na parte de críticas vieram ou foram estimuladas por apontamentos feitos por ela.

6 comentários:

Salvador Camino disse...

Gostei muito desse "desabafo"... mesmo tendo um blog em nenhum momento me interessei pelo campus party por saber que seria muito mal organizado. Acho importante você expressar críticas em meio a enxurrada de pessoas felizes elogiando as cegas o evento.

Daniel Duende disse...

Obrigado pelo apoio, Salvador. O Campus Party está mesmo um bocado mal organizado (no sentido literal, que não remete à falta de organização apenas, mas a uma organização mal feita mesmo). Mas acho que, acima de tudo, os problemas do Campus Party são sintomas da internet e da blogosfera brasileira. Dá o que pensar, não dá?

Abraços do Verde.

Hamithat disse...

Pois é... eu tmb acho que ha mais contras do que pros nesse evento... nao vou lista-los aqui se nao seria outro post.
De qualquer forma, nao espere que as criaturas que vivem no aquario se alimentem do mesmo tipo de texto que nós, de fora da redoma de vidro, respiramos.
[]'s

Daniel Duende disse...

Concordo com você, Hamithat. Os prós e os contras do evento, e as considerações sobre eles, são matéria para vários posts. Mas a gente vai fazendo o que pode.

Quanto à recepção que minha resposta terá, veremos. Até agora parece estar indo de boa. Vou publicar um update contando TUDO depois.

Abraços do Verde.

Suzana Gutierrez disse...

Oi guri

Achei bastante pertinentes algumas das coisas que tu apontastes. Sobre a prevalência de uma certa blogosfera como se fosse A blogosfera.

Tenho observado isso ultmamente. Como se os blogs estivessem tomando um rumo emprestado de outros meios.

Vi que na cparty aconteceram oficinas de blogs para professores, sobre o uso de blogs na educação. Eu que pesquiso isso desde 2002 e conheço outros tantos pesquisadores, não vi nenhum nome conhecido por lá (exceto a Barbara Dieu).

Tu sabe se os que falaram de blogs na educação eram educadores? Me bateu esta curiosidade. :)

Sobre a tal monetização: isso parece aquelas febres de correntes\pirâmides, onde as pessoas esquecem o valor de uso das coisas e ficam só no valor de troca :) Nem meio e nem mensagem; só a estratégia.

abraço!

Carine disse...

A minha expectativa quanto ao campus party já não era das melhores em função de ser um evento patrocinado por grandes corporações. Mas ele foi pior do q eu imaginava. Concordo plenamente que esse evento tem a característica de ser excludente e segmentado. Também teria uma lista enorme pra citar tudo o que eu penso e sinto desse evento. Já tínhamos discutido alguns pontos desse evento.
Enfim, mandou bem nas respostas, agora é aguardar e ver o que realmente o jornalista da folha vai publicar.

Bjao