Daniel Duende é escritor, brasiliense, e tradutor (talvez nesta ordem). Sofre de um grave vício em video-games do qual nunca quis se tratar, mas nas horas vagas de sobriedade tenta descobrir o que é ser um blogueiro. Outras de suas paixões são os jogos de interpretação e sua desorganizada coleção de quadrinhos. Vez por outra tira também umas fotografias, mas nunca gosta muito do resultado.

Duende é atualmente o Coordenador do Global Voices em Português, site responsável pela tradução do conteúdo do observatório blogosférico Global Voices Online, e vez por outra colabora com o Overmundo. Mantém atualmente dois blogues, o Novo Alriada Express e O Caderno do Cluracão, e alterna-se em gostar ora mais de um, ora mais de outro, mas ambos são filhos queridos. Tem também uma conta no flickr, um fotolog e uma gata branca que acredita que ele também seja um gato.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

a tragédia da imprensa da tragédia.

Eu havia prometido para mim mesmo que não falaria mais sobre o acidente do Airbus 320 da TAM. O assunto já saturou até mesmo aqueles que não estão sendo bombardeados pela nossa sectária (e factóidica) mídia tradicional. Mas resolvi voltar ao assunto só para dar destaque a algumas coisas bacanas que o Lelê Teles, cara bacana e bom blogueiro daqui de Brasília, está falando sobre a tragédia de nossa imprensa que usa tragédias como desculpa para avançar sua agenda política.

"Mais uma vez o caso do avião da TAM que caiu em Congonhas. Leio num blog da direita que a Revista (não)Veja jogou a toalha e admitiu que as investigações apontam, como não dá mais para esconder, depois de tantos técnicos falando sobre o assunto e após investigação que avaliou o conteúdo de uma das caixas-pretas, que falha mecânica e imperícia humana foram as causas do acidente que vitimou duas centenas de pessoas!

E agora eu pergunto, e por que chamaram Lula de assassino? Por que ligaram o caso do avião da Gol (falha humana) e do avião da TAM (falha mecânica e humana) com a crise no setor aéreo? Para atingir o governo. Mas isso não atinge em primeira lugar os próprios leitores destes veículos? Como forjar uma democracia baseada no denuncismo barato, no factóide, nas interpretações parciais e passionais? Como pode numa democracia uma mídia distorcer tanto a realidade em nome de uma estratégia de golpe político?

Fazer mea culpa? Nunca. O jornalista de (não)Veja disse que esse é um país de politiquice e politiqueiros e que os politicólotras se felicitam diante de um acidente tão grave: os da direita querem que o acidente seja creditado na conta do governo, os governistas rezam para que o acidente seja culpa da companhia aérea, assim eles tiram o corpo fora; veja que débil jogo de palavras. Mas esse jornalista não teve a feliz idéia de analisar a si mesmo. O jornalista de (não)Veja jogou para os políticos a confusão criada pela mídia em dizer que a culpa total pelo acidente com o avião da TAM era do Governo Lula. Em momento algum o jornalista fala de jornalice, foctólotras ou fascínoras, onde caberia a mídia de uma maneira geral, que se portou no papel abjeto e golpista de mentir, omitir e dizer meias verdades durante todo o tempo em que se falou dessa tragédia.[...]"



Querem mais? Ele também faz algumas colocações interessantes a respeito do episódio de "ficar espiando o vizinho pela janela" protagonizado pela Globo:

"A grande mídia, apátrida e golpista, papagaiava que o acidente com o vaião da TAM era culpa da pista de Congonhas e, sobretudo, a culpa era inteiramente do Governo Lula. A mídia, apátrida e golpista, no momento que teve uma oportunidade esqueceu o PAN e só falou de TAM. Mesmo depois de perder duas eleições, derrotas fragorosas e massacrantes, a mídia ainda insiste em não aprender que brincar com a inteligência dos outros é burrice. Durante essa semana editoriais e capas de jornais e revistas abjetas falavam em ranhuras (grooving), pista curta, pista molhada e iam inventando pistas, criando indícios para culpar o governo pela tragédia.

E qual não foi o baque, o Jornal Nacional vai ao ar e diz que o problema seguramente foi mecânico ou humano, ou uma combinação dos dois. Ao invés de fazer mea-culpa e pedir desculpas aos leitores por ter induzido a todos a um erro de julgamento, de ter incitado o povo a pré-julgar, o que faz a grande mídia apátrida e golpista? Mete uma câmera dentro de um gabinete e, sorrateiramente, clandestinamente, "flagra" uma imagem em que um ministro comemora o desmascaramento da mídia. E aí? Aí a mídia apátrida e golpista faz o seus leitores esquecerem de que ela os induziu a um erro de julgamento e os fazem julgar o gesto obsceno do ministro. Não seria esse um gesto abjeto e obsceno da mídia, leitor amigo?

Dizer que Marco Aurélio Garcia debocha das vítimas, como disse Rodrigo Maia, o Aprendiz de Feiticeiro, ou que Garcia brinca com o poder, como inferiu Noblat, ou que um gesto destes não é aceitável a um membro do governo não é uma digressão obscena?

Primeiro, Garcia não estava em público. Segundo, a câmera fez de uma cena privada uma cena pública, ou seja: um FACTÓIDE! Terceiro, o então presidente Fernando ColIor disse, certa vez, que tinha "Aquilo Roxo", a mídia fez festa; Itamar Franco, quando era presidente da República, foi fotografado em local público, com o seu Ministro da Justiça (senhor Maurício Correia, amigo de Roriz e hoje advogado de Gim Argelo) ao lado de uma pornomodel sem calcinha e com a periquita de fora, não houve esse alarde com a palavra "obsceno" e nem pediram a demissão do ministro (como o fazem agora) ou a defenestração do presidente (como tanto quer nesse momento a mídia apátrida e golpista).[...]"



Desculpem o post longo. O texto do caro colega é meio orgânico demais para ser recortado em pedaços menores. Além disso, o sono me domina agora, mas eu não queria dar o dia por encerrado sem destacar as palavras apaixonadas (mas não menos lúcidas) do caro cara Lelê.

Abraços do Verde.

2 comentários:

cacá disse...

Duende, pensei em tudo isso que o Lelê escreveu ao dar de cara, ontem, com a manchete da Folha de S. Paulo: "Lula mantém aprovação após caos aéreo e acidente da TAM". Ou seja, mais uma vez, na maior cara-de-pau possível, a tentativa de colocar na conta do governo um fato terrível sim, mas que nada tem a ver com a competência (ou falta de) do governo e, principalmente, do Lula.

Daniel Duende disse...

Olá Cacá,

fico impressionado com o nível de mau-caratismo que a imprensa consegue alcançar. Não é novidade que boa parte da imprensa tradicional brasileira está vendida a certos interesses antes hegemônicos e que agora relutam em ceder qualquer espaço -- buscando retomar o poder total sem nenhum pudor de jogar tão sujo quanto puder. O que impressiona é a dimensão de aceitação, anuência silenciosa e obediente, que estes "golpes" recebem do público. Não é uma questão de burrice. A imprensa brasileira está mesmo tentando sequestrar a realidade, em busca de avançar seus interesses e, principalmente, os interesses daqueles que estão por trás dela.

Não acredito em isenção e objetividade, mas de viés em viés, prefiro o viés das pessoas comuns ao viés das empresas. É por este, e muitos outros motivos, que leio blogues e não jornais.

Abraços do Verde.